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Saem nomes de colonizadores e entram os de heróis africanos nas ruas de Berlim

Rafael Dols / Getty

Ao fim de dez anos, Berlim vai fazer justiça ao Bairro Africano de Wedding e retira os nomes dos colonizadores alemães das ruas e praças substituindo-os pelos nomes dos africanos que lhes resistiram entre 1884 e 1909

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Berlim vai finalmente apagar os nomes das suas ruas em que até agora têm sido glorificados os protagonistas do seu passado colonial que durou de 1884 a 1919. O debate que conduziu à aprovação, esta semana, dos nomes que vão tomar o lugar daqueles que saem, levou mais de dez anos. O voto final terá lugar dentro um mês e é visto como uma formalidade porque existe acordo entre os três partidos representados na assembleia distrital de Mitte (meio, em português), bairro no coração da capital alemã.

“O Bairro Africano ainda glorifica o colonialismo e os seus crimes, o que entra em conflito com o nosso entendimento de democracia e prejudica profundamente a imagem da cidade de Berlim”, declararam em comunicado conjunto os representantes dos partidos Social Democrata, Verdes e A Esquerda.

O Bairro Africano fica em Wedding, situado no noroeste de Berlim, uma vizinhança de classe trabalhadora multiétnica, cujo nome original vem do nobre do século XII Rudolf de Weddinge. O bairro vai continuar “africano” mesmo quando desaparecerem das placas que identificam as ruas e as praças os nomes associados à brutal ocupação da Namíbia por Adolf Lüderitz, a que os alemães então chamaram África Alemã do Sudoeste. Desaparecerá também o nome de Gustav Nachtigal, o comissário imperial e de Carl Peters, o homem que fundou a África Oriental Alemã, na atual Tanzânia.

Apesar de reconhecer as atrocidades cometidas pelas autoridades coloniais, que mataram dezenas de milhares de membros dos povos Herero e Nama entre 1904 e 1908, o Governo alemão tem-se recusado a pagar reparações diretas, optando por investir milhões de euros em ajuda ao desenvolvimento à Namíbia.

Bairro, agora sim, africano!

Na sequência de um redesenho dos fluxos de tráfico, Wedding verá surgir nomes novos, agora sim, africanos: Boulevard Maji Maji, Boulevard Anna Mungunda, rua Cornelius Frederiks e Praça Bell.
Onde se situava a Nachtigal Platz ficará a Praça Bell. Rudolf Douala Manga Bell era um rei duala do que é hoje os Camarões. Ficou na história a sua resistência e a da sua mulher, Emily, à expropriação de terras pelos colonizadores.

Maji Maji foi um grito de guerra usado na luta de libertação que acabou por dar nome à maior sublevação africana contra os alemães. Anna Mungunda foi a primeira mulher a encabeçar o movimento independentista e Cornelius Frederiks liderou a luta e resistência do povo Nama.