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Britânicos escrevem à Nato a avisar que russos criaram programa para fornecer e distribuir armas químicas

Chris J Ratcliffe/Getty Images

Carta refere ainda que o Presidente russo, Vladimir Putin, “acompanhou de perto este programa”

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

A Rússia criou um programa para testar meios de fornecer e distribuir armas químicas como aquela a que foi exposta o antigo espião russo Sergei Skripal e a sua filha. A revelação consta de uma carta enviada por Mark Sedwill, conselheiro para a segurança nacional britânico, ao secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, que refere ainda que os Skripal estariam a ser vigiados “há pelo menos cinco anos” pelos serviços secretos russos. Os Reino Unido acusa o Governo de Putin de ter envenenado o ex-espião russo Sergei Skripal em solo britânico.

Na carta de Sedwill, divulgado pela agência de notícias Press Association, é referido que o “interesse” dos serviços secretos russos pelos Skripal remonta a pelo menos 2013, quando contas de e-mail pertencentes a Yuila Skripal foram visadas por ciber-especialistas do GRU, o serviço de informação militar russo.

O conselheiro britânico afirma também que o novichok, o agente nervoso que foi utilizado para envenenar Sergei Skripal e a filha - conforme confirmou na quinta-feira a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) - foi desenvolvido num centro de investigação russo em Shikhany, no âmbito de um programa de armas químicas designado “Foliant”.

“Durante os anos de 2000, a Rússia deu início a um programa para testar meios de fornecer armas químicas e para treinar unidades especiais para a utilização dessas armas. Foram investigadas subsequentemente formas de distribuir agentes nervosos, inclusive pela sua aplicação em maçanetas de portas. Na última década, a Rússia produziu e armazenou pequenas quantidades de novichok no âmbito deste programa”, mesmo depois de ter assinado a Convenção sobre as Armas Químicas, em 1997, refere Mark Sedwill, acrescentando que o Presidente russo, Vladimir Putin, “acompanhou de perto este programa”. “É altamente improvável que qualquer outra antiga república soviética, à exceção da Rússia, tenha desenvolvido um programa semelhante. E é também improvável que o novichok possa ter sido produzido e desenvolvido por agentes não-estatais, como um grupo criminoso ou terrorista.”

Ainda segundo o conselheiro britânico, Moscovo considerou alguns dos seus desertores “alvos legítimos de assassínio”. Na sua opinião, é provável que Sergei Skripal, um antigo membro do GRU que trabalhou para os serviços secretos britânicos, tenha sido rotulado como tal e incluído numa lista de alvos a abater. Moscovo tem negado com insistência qualquer envolvimento no envenenamento do ex-espião.

Sergei Skripal e a filha foram encontrados inconscientes a 4 de março em Salisbury, no sul de Inglaterra, e estiveram em estado crítico durante mais de um mês. Yulia teve alta na terça-feira e Serguei Skripal está em estado considerado estável.

A OPAQ divulgou na quinta-feira um relatório em que confirma o uso de novichok no envenenamento do antigo espião russo e da sua filha e também Mark Sedwill refere na carta citada que é “altamente provável que a Rússia seja responsável pelo ataque”, uma vez que “só a Rússia tem os meios técnicos necessário para tal, bem como um motivo”. “Moscovo tem um historial de assassínios ordenados pelo Governo. Não há outra explicação plausível para o que aconteceu”, concluiu o conselheiro britânico.

Esta sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, acusou o Reino Unido de “deturpar” as conclusões da investigação, sublinhando que a organização “confirmou apenas a composição da substância química”, não a sua origem.