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Internacional

Contra uma guerra que não é a dele, sírio vive há mais de um mês no aeroporto de Kuala Lumpur

Trabalhava nos Emirados Árabes Unidos até 2011, e recusou voltar ao seu país para combater numa guerra que, diz, “não é a minha”. Ímpasse mantém-se

Luís M. Faria

Jornalista

Um sírio vive há mais de um mês no aeroporto da capital malaia, Kuala Lumpur. Como outros que de vez em quando aparecem nas notícias, ficou preso num limbo que resulta da confusão de regras e burocracias, com vários países que se dizem solidários com os refugiados a recusar resolver-lhe a situação.

O homem, Hassan al Kontar, trabalhava em marketing nos Emirados Árabes Unidos quando a guerra começou, em 2011. Não querendo voltar para o país, viu o seu passaporte cancelado. Resolveu viajar para a Malásia, um dos poucos países que aceitavam sírios sem visto, mas quando expirou o período de três meses que é permitido continuou no país. Tentou viajar para o Equador, mas não o deixaram entrar no voo. Também o Camboja recusou aceitá-lo.

Assim, foi devolvido a Kuala Lumpur, onde se encontra até agora. Para ver se consegue desbloquear uma solução, começou a pôr vídeos nas redes sociais, e foi finalmente notado. Segundo disse ao “The Guardian”, “isto não é só o meu problema. É o problema de centenas de sírios que sentem que são odiados, rejeitados, malqueridos, fracos, solitários”.

Retórica vs. ações

Graças à generosidade de tripulantes e outros passageiros, Kontar come as refeições de arroz e galinha que são servidas aos passageiros. Toma banho do duche dos deficientes, geralmente depois da meia-noite, quando há lá menos gente. Não tem onde lavar a roupa, e sobra-lhe cada vez menos dinheiro.

Um representante da Human Rights Watch, Phil Robertson, criticou a aparente hipocrisia da Malásia: “As autoridades malaias continuam a dizer que estão preocupadas com o horror e o derramamento de sangue infligido a civis na guerra civil síria, mas casos como o de Hassan Kontar vão mostrar se a Malásia está disposta a apoiar essa retórica com ações reais”.

Kontar diz que já não sabe o que fazer. Precisa de um local onde possa viver e trabalhar, e precisa de segurança. Garante que não é cobarde nem incapaz de lutar, mas rejeita a guerra no seu país: “Não me vejo a ir para a Síria, não quero fazer parte de uma guerra, não quero matar ninguém nem que me matem a mim”.

Em suma, diz, “não é a minha guerra”. O Alto-Comissariado das Nações Unidas diz estar a seguir o seu caso.