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Um “ato avulso e meramente reativo e errático, sem antecedentes nem consequentes”

Douma é a maior cidade da região de Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco, capital da Síria

HAMZA AL-AJWEH / GETTY IMAGES

Há suspeitas de um novo ataque químico na Síria e Trump quer reagir. França também. O Reino Unido idem. Querem atacar, bombardear - estão a ponderá-lo, não o determinaram. Mas o que há de fazer um bombardeamento pelas vítimas de um ataque químico que ainda não se sabe se foi mesmo um ataque químico? E o que nos diz isto sobre a “nova Europa”, com Macron a aparecer e Theresa May a sobreviver?

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Donald Trump prometeu retaliações contra o Governo sírio por causa do alegado ataque com armas químicas em Douma, maior cidade da região de Goutha Oriental, nos arredores de Damasco, e até cancelou a sua primeira visita oficial à América Latina para preparar uma resposta, mas independentemente do que ele faça isso não irá alterar o rumo da guerra civil e o futuro da Síria, ou mesmo estancar o desastre humanitário que se vive na região. É essa a posição de José Pedro Teixeira Fernandes, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). Luís Tomé, professor de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, também ouvido pelo Expresso, concorda: “Se for similar ao ano passado, e certamente será, não terá qualquer consequência prática - nem no futuro da Síria nem na geopolítica da região”.

Depois de ter classificado o alegado ataque químico em Douma de “hediondo” e ter prometido retaliações nas próximas horas, Donald Trump cancelou esta terça-feira aquela que seria a sua primeira viagem oficial à América Latina, alegando precisar de tempo para “preparar a resposta” do seu país. Mike Pence, vice-presidente norte-americano, irá substituí-lo na visita ao Peru - e na participação ali na Cimeira das Américas - e à Colômbia. Não há quaisquer indicações sobre que resposta será esta, mas José Pedro Teixeira Fernandes antecipa uma “ação política e também militar” semelhante à que foi dada no ano passado, em resposta ao ataque do regime sírio com gás sarin que matou mais 80 pessoas em Khan Sheikhoun, na província síria de Idlib. Na altura, os EUA lançaram 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk contra a base aérea síria em al-Shayrat, nos arredores de Homs. “Poderão optar por atacar uma ou mais bases sírias ou outro tipo de instalações militares.” Luís Tomé concorda. “Irão provavelmente bombardear bases militares do regime de Bashar al-Assad [presidente sírio], tal como fizeram no ano passado.”

FOTO MUHAMMED ES SAMI/ANADOLU AGENCY

“Um erro de cálculo poderá levar a uma escalada da tensão”

Apesar de uma eventual resposta não alterar o rumo da guerra civil no país, até porque esta, com a vitória das forças do regime e seus aliados - Rússia e Irão - na região de Ghouta Oriental, um dos últimos bastiões das forças rebeldes, e noutras províncias ao longo dos últimos meses, está em vias de terminar, há outras consequências a ter em conta. “Se os EUA atacarem bases ou instalações militares onde haja elementos russos ou iranianos poderemos vir a assistir a mais uma escalada da violência e tensão crescente. Esse acaba por ser o maior risco”, sublinha Luís Tomé, secundado por José Pedro Teixeira Fernandes. “Nesta altura, a questão é saber se isto não poderá levar, até por um erro de cálculo, a uma escalada da tensão e abrir uma frente de confronto entre as grandes potências e os intervenientes na guerra da Síria que iria piorar o conflito e a crise humanitária”, diz o investigador, notando “o xadrez particularmente tenso e complexo” que se joga agora por causa do caso do antigo espião russo, Sergei Skripal, que foi exposto a um agente neurotóxico no Reino Unido juntamente com a sua filha, mas também por causa das tentativas dos atores regionais de se posicionarem no conflito sírio, nomeadamente Israel, que procura evitar que o Irão tenha uma presença significativa na Síria.

Também os Estados Unidos terão interesse em posicionar-se de alguma forma, ainda que à distância e de forma intermitente, daí esta ameaça de retaliação por parte de Donald Trump contra o Governo sírio. “O lado ocidental não tem alternativa a Bashar al-Assad e o terreno está aberto para os aliados, Rússia e Irão. Com esta ameaça de ataque, é como se Trump dissesse que não é Obama e que irá castigar todos aqueles que ultrapassaram certos limites impostos”, como o são a utilização de armas químicas, diz Luís Tomé.

Depois de ter feito uma análise preliminar das informações, a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) anunciou esta terça-feira que alguns dos seus peritos vão viajar até à Síria para prosseguir com as investigações ao alegado ataque químico em Douma. Nenhum governo ou grupo será porém responsabilizado, uma vez que a OPAQ deixou de ter poderes para identificar responsáveis depois do veto da Rússia a um projeto de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Do mesmo modo, um projeto norte-americano que propunha a criação por um ano de um novo “mecanismo independente de investigação das Nações Unidas” sobre o uso de armas químicas na Síria foi vetado esta terça-feira por Moscovo.

Também José Pedro Teixeira Fernandes nota que a tentativa de retaliação do presidente norte-americano, que descreve como um “ato avulso e meramente reativo e errático, sem antecedentes nem consequentes” na estratégia externa americana, “não tem sentido a não ser por razões de política interna”, até porque há vários indícios de que os EUA tencionam retirar as suas tropas da Síria. “Trump quererá aliviar a pressão interna que tem em cima da cima por causa da investigação à interferência russa nas eleições presidenciais de 2016.”

Macron e Trump encontraram-se à margem da assembleia-geral da ONU em setembro

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LUDOVIC MARIN

França e Reino Unido concordam com EUA: é preciso uma resposta

Os EUA não atuarão sozinhos. Tanto a França como o Reino Unido mostraram-se dispostos para integrar esta espécie de coligação militar contra o Governo sírio e sabe-se que os líderes dos três países conversaram por telefone durante esta terça-feira para harmonizar uma resposta. Cada um deles tem interesses que têm muito pouco que ver com a guerra ou com o desastre humanitário que se vive no país, diz José Pedro Teixeira Fernandes. “Têm vários motivos, todos eles laterais ao conflito, que acaba por ser um pretexto”. Interessa a Theresa May, primeira-ministra britânica, “procurar uma certa afirmação internacional do país que lidera depois do Brexit e mostrar peso político e militar no contexto europeu” e interessa a Emmanuel Macron, presidente francês, “realizar a sua ambição internacional”. Luís Tomé, por sua vez, acrescenta: “Macron quer demonstrar aos EUA, e particularmente a Trump, que a França é a nova potência estratégica líder da Europa e um parceiro aliado e confiável capaz de ocupar o lugar do Reino Unido”.

A braços com crise-em-formação no seu país devido às suas polémicas reformas em sectores como o ferroviário, interessará também a Macron recuperar junto do povo francês alguma da popularidade que perdeu nos últimos meses (segundo uma sondagem da empresa BVA, os níveis de aprovação do presidente francês caíram recentemente para os níveis mais baixos desde que ele foi eleito), diz o docente da Universidade Autónoma de Lisboa, para quem a “grande dúvida é saber que apoio os franceses e britânicos vão dar a este ataque”. Emmanuel Macron já tinha dito anteriormente que a França iria ripostar caso ficasse provada a utilização de armas químicas por parte do regime sírio mas nunca explicou em que moldes se daria essa resposta. Sabe-se que o presidente francês não é adepto de “Estados falhados” ou “intervenções neoconservadoras”, conforme revelou em tempos, e que para ele a saída de Bashar al-Assad não é uma prioridade.