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Sexta-Feira Santa: quando a “mão da História” realizou o milagre na Irlanda do Norte

O acordo Sexta-Feira Santa foi assinado a 10 de abril pelo primeiro-ministro irlandês Bertie Ahern (à esq.), pelo senador norte-americano George Mitchell (ao centro), mediador do processo de paz, e pelo primeiro-ministro britânico Tony Blair

DAN CHUNG / AFP / Getty Images

Agora que o Brexit ameaça aspetos do acordo de Sexta-Feira Santa assinado faz esta terça-feira 20 anos, o Expresso recorda o processo que levou a esse momento

Luís M. Faria

Jornalista

A 10 de abril de 1998 fez-se História na Irlanda do Norte. Três dias de negociações sem parar, culminando um processo de conversações que visava pôr fim a três décadas de confrontos sangrentos e já durava ele próprio há dois anos, produziram finalmente a tão desejada conclusão. O Acordo de Sexta-Feira Santa, assinado entre o Reino Unido, a República da Irlanda e vários grupos envolvidos no conflito, foi um daqueles eventos que de repente dão esperança ao mundo.

O acordo estabeleceu a assembleia parlamentar da Irlanda do Norte e definiu as relações que essa parte do Reino Unido situada na ilha da Irlanda manteria com ambos os países. Paramilitares dos dois lados seriam desarmados, prisioneiros seriam libertados desde que renunciassem à violência, e o estatuto da região jamais seria alterado exceto, dizia o acordo, por consentimento popular.

Não se podia imaginar termo mais auspicioso para uma sucessão de violências conhecida pela expressão eufemística the troubles (os problemas) e que já tinha produzido cerca de 3500 mortos e 50.000 feridos, sendo uma ferida aberta na Europa muito tempo depois de ambos os países terem aderido à União Europeia. O senador norte-americano George Mitchell, mediador das negociações, admitiu recentemente que sem a UE o acordo jamais teria acontecido, avisando sobre os potenciais efeitos do Brexit na questão irlandesa.

Três dias antes do anúncio do acordo, a 7 de abril, o então primeiro-ministro britânico Tony Blair fez uma declaração no seu característico tom ao mesmo tempo informal e solene: "Um dia como hoje não é um dia para soundbites. Podemos deixá-las em casa. Mas sinto a mão da História no nosso ombro".

"Raça impressionável, excitada, fanática..."

O domínio dessa ilha católica que é a Irlanda pelo seu poderoso vizinho protestante vinha de há séculos. No século XIX, as fomes irlandesas foram notícia em toda a Europa. Eça de Queiroz, então diplomata em Inglaterra, escreveu: "Para não perturbar os interesses tirânicos de um milhar de ricos proprietários, deixa na miséria quatro milhões de homens. Tem todo o território irlandês ocupado militarmente. Apenas um patriota começa a ter influência na Irlanda, prende o patriota.

Quando a eloquência dos deputados irlandeses se torna inquietadora, abafa-a, quebrando sem escrúpulos uma tradição parlamentar de séculos.

Vai governar a Irlanda pela lei marcial, como qualquer czar. E, para surpreender os planos da Liga Agrária, viola os segredos das cartas", continua Eça. "Há também outra coisa que se percebe bem: é que a população trabalhadora da Irlanda morre de fome, e que a classe proprietária, os land-lords, indignam-se e reclamam o auxílio da polícia inglesa quando os trabalhadores manifestam esta pretensão absurda e revolucionária – comer!".

Sobre o modo como o dominador via o dominado, Eça explica: "Os Ingleses pensam sinceramente que no momento em que a Irlanda saísse de sob a tutela do bom senso e do saber inglês, no instante que essa raça impressionável, excitada, fanática e pouco culta fosse abandonada a si mesma, começaria uma guerra civil, uma guerra religiosa, diferentes guerras agrárias, que bem depressa fariam da Verde Erin um montão de ruínas numa poça de sangue".

A violência das forças britânicas contra civis na Irlanda do Norte, em 1972, num massacre que ficou conhecido como Domingo Sangrento, marcou uma escalada do conflito

A violência das forças britânicas contra civis na Irlanda do Norte, em 1972, num massacre que ficou conhecido como Domingo Sangrento, marcou uma escalada do conflito

PA Images / Getty Images

Massacres e assassínios

Nessa tensão permanente nunca faltaram episódios de derramamento de sangue. Em 1916, durante a I Guerra Mundial, os irlandeses fizeram uma primeira tentativa de expulsar os ingleses. Voltariam à carga em 1919, e dessa vez conseguiram. Em 1921, após uma guerra de três anos entre o IRA (Irish Republican Army) e as forças britânicas, a República da Irlanda conquistou a sua independência. De fora ficou a Irlanda do Norte, onde a maioria da população era protestante.

Nesse território houve sempre discriminação contra os católicos, e a partir dos anos 60 isso eclodiu em repetidos atos de violência. Em 1972, os britânicos impuseram o governo direto a partir de Londres. Os massacres e os assassínios continuaram, praticados pelos dois lados.

Entre muitos horrores estes ficaram na memória: o massacre de 13 civis pelo exército britânico no "Domingo Sangrento", em 1972; a greve de fome de presos do IRA que resultou na morte de dez deles, entre 1980 e 1981; e o atentado à bomba contra a primeira-ministra Margaret Thatcher durante a conferência do Partido Conservador, em outubro de 1984.

Em 1994, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher sobreviveu a um atentado à bomba, no hotel em Brighton onde se encontrava durante a conferência anual do seu partido. A imagem mostra-a a sair do hotel depois da detonação, acompanhada pelo marido Denis e uma assessora

Em 1994, a então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher sobreviveu a um atentado à bomba, no hotel em Brighton onde se encontrava durante a conferência anual do seu partido. A imagem mostra-a a sair do hotel depois da detonação, acompanhada pelo marido Denis e uma assessora

John Downing / Getty Images

A peruca em cima da mesa

Talvez em parte por influência deste ataque, que matou cinco pessoas (Thatcher escapou por pouco), em 1985 foi assinado um acordo de cooperação entre o Reino Unido e a Irlanda. Por entre atentados e represálias, as conversações continuaram. Os tories (conservadores) manteriam o poder em Westminster até 1997, e é justo atribuir-lhes uma parte substancial do crédito pelo acordo de paz no ano seguinte. Isso mesmo reconheceu Tony Blair, cujos trabalhistas tinham por fim vencido as eleições em 1997

Antigos inimigos como Gerry Adams e Martin McGuiness (católicos) e o reverendo Ian Paisley (protestante) conseguiram entender-se. Embora os anos seguintes mostrassem que o processo nem sempre era fácil, alguns dos que tinham sido mais intransigentes e mais associados à violência acabaram por desenvolver relações supreendentemente cordiais uns com os outros.

Pelo lado inglês, Blair acabou por ser visto como o grande homem da paz. Uma imagem que duraria até à guerra do Iraque, em 2003, quando ele deu uma ajuda decisiva para lançar a guerra mais desastrosa do último meio-século. Nessa altura, outra figura essencial nas negociações do acordo de Sexta-Feira Santa juntou-se às manifestações contra.

Era a então secretária de Estado para a Irlanda do Norte, Mo Mowlam. Doente com um cancro no cérebro que não revelara a ninguém ser maligno, atirava a peruca para a mesa das negociações em momentos de especial irritação e dizia umas ordinarices fortes. Fosse por os seus interlocutores ficarem desorientados ou pelo simples facto de ela se tratar de uma mulher, a verdade é que a estratégia resultou.

Apesar de alguns abalos posteriores, em especial o bárbaro ataque cometido meses depois em Omagh por um grupo dissidente do IRA, matando dezenas de pessoas, a paz acabou mesmo por triunfar. E por se manter até hoje.

Vinte anos depois, alguns dos intervenientes ainda vivos no processo de paz na Irlanda do Norte, reuniram-se esta terça-feira em Belfast para celebrar a efeméride. Entre eles Bertie Ahern (sexto à esquerda, primeiro-ministro irlandês na altura), o senador norte-americano George J. Mitchell (oitavo à esquerda, mediador do processo de paz) e Gerry Adams (primeiro à direita, líder icónico do Sinn Féin, braço-político do IRA)

Vinte anos depois, alguns dos intervenientes ainda vivos no processo de paz na Irlanda do Norte, reuniram-se esta terça-feira em Belfast para celebrar a efeméride. Entre eles Bertie Ahern (sexto à esquerda, primeiro-ministro irlandês na altura), o senador norte-americano George J. Mitchell (oitavo à esquerda, mediador do processo de paz) e Gerry Adams (primeiro à direita, líder icónico do Sinn Féin, braço-político do IRA)

Charles McQuillan / Getty Images