Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Não há médicos, enfermeiros, geradores e ventiladores para salvar as vítimas de um “ataque químico”

FOTO MUHAMMED ES SAMI/ANADOLU AGENCY

É difícil imaginar uma realidade pior – um alegado ataque com armas químicas matou dezenas de pessoas numa cidade de uma região, Ghouta Oriental, que nos últimos meses foi cercada e bombardeada. Como se isso não bastasse, há pessoas que sobreviveram ao ataque mas estão a morrer nos hospitais por falta de equipamento médico e de quem cuide delas

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Por momentos, pensa-se que o tempo congelou e que os testemunhos que são partilhados com o Expresso, assim como as descrições e imagens que nos chegam através das redes sociais, correspondem ainda à tragédia vivida há um ano em Khan Sheikhoun, na província síria de Idlib, onde mais de 80 pessoas morreram vítimas de um ataque com gás sarin. As semelhanças são muitas - continua a haver crianças com ar atordoado a ser assistidas por médicos com bombas de oxigénio e broncodilatadores, de pé no chão encharcado do hospital ou sentadas em macas, e continua a haver adultos, homens sobretudo, a regarem-se uns aos outros com mangueiras para limpar o cabelo e a pele e os olhos, como que para expelir uma substância amaldiçoada que não se sabe exatamente qual é. Mas como é óbvio o tempo não parou.

Pelo menos 42 pessoas morreram no sábado vítimas de um alegado ataque químico em Douma, maior cidade de Ghouta Oriental, nos arredores de Damasco, segundo números divulgados pela imprensa internacional e confirmados ao Expresso por Ahmad Tarakji, presidente da Sociedade Médica Síria-Americana (SAMS), organização não-governamental que apoia equipas médicas na Síria. O ataque foi atribuído a forças do regime sírio. Mais de 500 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, foram transportadas para centros médicos e hospitais e os recursos disponíveis para socorrê-las são muito limitados. “Há apenas quatro geradores de oxigénio. Os médicos, que são menos de 20 neste momento em Douma, têm capacidade para dar resposta a casos menos graves, de irritação das vias nasais e falta de ar, mas não têm recursos para atender os pacientes que foram hospitalizados com sintomas severos que exigem cuidados intensivos e equipamentos de ventilação”, diz Ahmad Tarakji, explicando que seis crianças morreram no hospital por falta de ventiladores e de médicos ou enfermeiros disponíveis para cuidar delas. Abu Jaafar, residente em Douma, sobreviveu ao ataque. Em declarações à “Al-Jazeera”, conta que perdeu subitamente a consciência, depois de ter sentido grandes dificuldades para respirar. “Foi como se os meus pulmões estivessem a fechar. Acordei 30 minutos depois e percebi que me tinham despido e estavam a lavar o meu corpo com água. Tentaram também que eu vomitasse porque da minha boca continuava a sair uma substância amarela”

Presidente sírio, Bashar al-Assad

Presidente sírio, Bashar al-Assad

FOTO JOSEPH EID/AFP/GETTY IMAGES

As vítimas, muitas delas atingidas nos abrigos subterrâneos onde vive a população de Ghouta Oriental desde que o regime apertou o cerco à região, deram entrada nos hospitais com vários sintomas, desde “dificuldade em respirar, cianose [coloração azulada da pele que indica exposição a uma substância tóxica], espuma na boca, queimaduras na córnea e um odor semelhante ao do gás de cloro”, segundo um comunicado conjunto da SAMS e dos Capacetes Brancos (equipa de resgate que atua nas poucas áreas ainda controladas pela oposição síria), para o qual remete o presidente da organização médica. A nota refere ainda que, após o alegado ataque com gás de cloro, a área à volta de um dos hospitais para onde foram transportadas as vítimas foi bombardeada com bombas de barril pelas forças do regime sírio, “o que dificultou o trabalho das ambulâncias”.

Cerca de 95% do território de Ghouta Oriental passou nos últimos meses das mãos das forças rebeldes para o controlo do regime sírio, depois de um cerco sem paralelo e bombardeamentos que mataram cerca de duas mil pessoas em dois meses. Um acordo feito na semana passada entre dois grupos da oposição (Faylaq al-Rahman e Ahrar al-Sham) e os militares russos permitiu a saída de cerca de 19 mil pessoas em direção à província de Idlib, no norte do país. Foi por isso difícil encontrar pessoas na região. “Estou em Idlib com a minha família e daqui vamos tentar chegar à Turquia, mas vai ser difícil porque além de ser caro, o Governo turco não nos quer lá. Todos os sírios que chegam à fronteira tenha sido expulsos do país. A única forma será entrar ilegalmente”, disse ao Expresso um antigo residente de Ghouta Oriental com quem já havíamos falado no passado. “Ainda tenho alguns amigos em Douma, mas não consigo falar com eles por causa dos bombardeamentos”. Também de Douma, último bastião rebelde na região, é esperada a saída de civis, combatentes e familiares de combatentes nos próximos dias - inclusive de toda a equipa médica, segundo Ahmad Tarakji - noticiou esta segunda-feira o britânico “The Guardian”.

Rússia diz não ter encontrado “qualquer vestígio” de produtos químicos em Douma

A agência oficial síria, SANA, negou qualquer responsabilidade das forças sírias e assegurou que “as denúncias do uso de substâncias químicas em Douma, onde vivem cerca de 100 mil pessoas, segundo números das Nações Unidas, são uma tentativa clara de impedir o progresso do Exército” sírio, que na sexta-feira iniciou uma ofensiva contra os rebeldes naquela zona. Já esta segunda-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou que, em visita à área onde se deu o alegado ataque, “especialistas russos e trabalhadores humanitários não encontraram quaisquer vestígios de gás de cloro ou outra substância química que possa ter sido usada contra os civis”. Lavrov disse ainda que Moscovo recebeu, nos últimos meses, vários avisos sobre uma possível “provocação” por parte dos rebeldes, dando assim a entender que o ataque foi provocado ou simulado pela oposição, desesperada para ter a atenção e o apoio dos Estados Unidos.

Os EUA responderam ao ataque do ano passado em Khan Sheikhoun com o lançamento de mísseis contra uma base aérea na Síria mas ainda não se saberá o que farão desta vez - se é que vão fazer alguma coisa. Donald Trump avisou que o Governo sírio - cujo líder, Bashar al-Assad, ele apelidou de “animal - e os seus aliados Irão e Rússia vão “pagar um preço alto”, e o secretário da Defesa, James Mattis, admitiu a possibilidade de ações militares contra a Síria e adiantou que os EUA vão estudar a situação com os seus aliados, desde a NATO ao Qatar.

Acordos entre rebeldes e regime têm permitido a saída de civis de Ghouta Oriental

Acordos entre rebeldes e regime têm permitido a saída de civis de Ghouta Oriental

FOTO YOUSSEF BADAWI/EPA

Organização para a Proibição das Armas Químicas vai investigar

Em resposta ao pedido da SAMS e dos Capacetes Brancos, que no comunicado aqui citado pedem uma investigação a este “hediondo ataque químico” e apelam à comunidade internacional para reforçar as leis que proíbem o uso de armas químicas, a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) anunciou que está já a investigar o alegado ataque. Ahmet Uzumcu, diretor-geral da organização, esclareceu que foi feita uma “análise preliminar das informações” e que uma equipa de investigadores está a tentar reunir mais elementos para determinar se foram ou não utilizados armas químicas (a OPAQ deixou de ter poderes para responsabilizar governos ou entidades pelo uso deste tipo de armas depois do veto da Rússia a um projeto de resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas). As conclusões da investigação serão partilhadas com os 192 países signatários da Convenção sobre a proibição das armas químicas de 1993, à qual a Síria aderiu em 2013.

O Governo português, à semelhança do que fez o Reino Unido, França, Bélgica, Arábia Saudita e outros países do Golfo, como o Qatar, Kuwait e Bahrein, condenou “veementemente” o ataque contra “civis inocentes” e defendeu que o eventual uso de armas químicas representa “mais uma gravíssima e inaceitável violação do direito internacional” pelo regime sírio, que não pode “ficar impune”. Em comunicado divulgado esta segunda-feira pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), o Governo reitera a necessidade de uma “solução política” para o conflito sírio e apela à “cessação de hostilidades e ao diálogo entre as partes no quadro do processo de Genebra”.

Também António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, manifestou-se “particularmente alarmado” com as alegações de que foram usadas armas químicas contra a população de Douma e apelou a “todas as partes para que cessem os combates e restaurem a calma”, indicou em comunicado o seu porta-voz, Stéphane Dujarric. Entretanto, alguns dos países que condenaram o alegado ataque pediram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, que deverá realizar-se ainda esta segunda-feira.