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Estão abertas as audições para Lula da Silva II

Lula já está a cumprir a pena de 12 anos e um mês

Foto António Lacerda/EPA

Quem será o próximo “construtor de sonhos” do Brasil? Partindo de uma frase do ex-presidente Lula da Silva - e do princípio que qualquer presidente de qualquer país quer ajudar os seus cidadãos a construir sonhos -, perguntamos: haverá alguém capaz de absorver todo o capital emocional - e eleitoral - de Lula?

Ana França

Ana França

Jornalista

Perante as centenas de pessoas que esperaram o seu discurso no passado sábado, poucas horas antes de se entregar pelo seu próprio pé como várias vezes disse que faria se a Justiça algum dia o considerasse culpado de algum crime, Luiz Inácio Lula da Silva avisou: “Há milhões e milhões de Lulas por aí. Eu sou uma ideia. E uma ideia não se trava”. Apoteose. Olhando para a História, Lula é o presidente brasileiro com a maior taxa de popularidade no fim de mandato: 87%. Quem, desde que tenha aspirações políticas, não gostava de lançar a sua carreira de candidato presidencial a partir dessa mesma marca?

Não foi no dia em que Lula foi preso que se começou a falar da sucessão. Mas naquele dia como hoje, o que se diz é em sussurros. Depois da destituição de Dilma Rousseff, que o próprio Lula levou à presidência, o Partido dos Trabalhadores (PT), que ele ajudou a fundar, deu início a uma espécie de “procura pela sua alma”.

Oficialmente, as fichas estão todas em cima do nome de Lula, mas se ele não puder concorrer, então na linha da frente está o ex-governador da Baía Jaques Wagner e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad: dois nomes que não estão ser investigados pela polícia, facto sempre associado às biografias políticas escritas nas páginas de notícias brasileiras. E mesmo aqui nada é totalmente preto no branco: há sim suspeitas sobre ambos. Outros nomes que já começaram a ser atirados para a arena são os de Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul, e o de Aloízio Mercadante, ex-ministro da Educação e da Casa Civil na administração de Dilma Rousseff.

O PT tem de escolher o seu candidato oficial à Presidência da República até 15 de agosto, prazo limite para que os partidos façam o registo das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Caso o PT decida mesmo registar Lula e posteriormente mude de ideias, tem até 17 de setembro para registar um novo candidato - data que os deixaria a braços com uma campanha “nova” e menos de um mês para a levar pelas estradas de um país enorme.

Mas seja quem for que lhe tente suceder, há uma enorme “drama” para dissolver na esquerda. É a palavra que Wilson Gomes, professor de Comunicação e especialista em comunicação política na Universidade Federal da Baía, escolhe para explicar ao Expresso a densa trama. “Toda a energia política da esquerda foi drenada, no último ano, para a ‘questão Lula’. Tivemos todo o drama do ‘condena ou não condena?’, ‘prende ou não prende?’, envolvendo Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal. Depois, assistimos à extrema polarização moral envolvendo o julgamento público do caráter e dos feitos de Lula. Além disso, tivemos a épica de Lula, que, depois da sua condenação pelo juiz Moro, resolve não morrer em silêncio e a um canto, como sucedeu à ex-presidente Dilma Rousseff.” Segundo o analista, no “Ato II”, Lula “se pintou para a guerra, declarou-se candidato à Presidência da República à revelia das circunstâncias, percorreu o país, fez discursos fortíssimos, mobilizou sentimentos de todas as espécies, liderou as pesquisas de intenções de voto e provocou um remoinho político sem precedentes, nas ruas e nos ‘social media’, já quase às vésperas das eleições presidenciais de 2018”. Por fim, “a dramaturgia da prisão de Lula”: “O Lula desobediente, que não aceita o prazo estabelecido pelo juiz federal para que se entregasse à política; o Lula herói da resistência, que se refugia no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, a sua origem política, e passa a ser guardado pelos seus; por fim, o Lula do povo, arrancado dos braços do povo para ser levado, inocente, ao cárcere político”.

Foto RICARDO STUCKERT/ LULA INSTITUTE

As consequências de todo este filme podem ser piores para a esquerda, quer a de Lula, quer a que se quer unir em torno de outro candidato: “Na primeira semana depois de consumado este ciclo, a esquerda só pode estar exausta. E sem planos. Lula ocupou o centro de tudo o tempo todo. A retórica da resistência impediu uma formulação ativa de um plano B, com escolha de um nome, articulação e negociação políticas. Há um vazio, ocupado apenas por palavras de ordem, sobre a necessidade de uma ‘candidatura única das esquerdas’, mas sem que se possa preencher nomes concretos com alguma chance eleitoral”, argumenta Wilson Gomes.

Os novos Lula?

Jaques Wagner é o nome com mais apoio para concorrer a presidente caso Lula acabe mesmo impedido de se candidatar por força da lei da ficha limpa, aprovada precisamente durante o seu mandato e que diz que nenhum político condenado por crimes contra o Estado em segunda instância pode concorrer a cargos públicos. É esse o caso de Lula.

Os analistas dizem que Wagner tem a experiência política necessária para convencer os que consideram ter sido precisamente essa a falha de Lula e Dilma, principalmente no que à gestão da economia diz respeito. O político baiano de 67 anos já foi deputado federal por três mandatos e já passou por quatro ministérios. Wagner chegou a ser citado por “delatores” da Odebrecht e também no processo do “quadrilhão do PT”, que investiga membros do partido por suposto envolvimento em organização criminosa mas o Ministério Público não abriu qualquer inquérito contra ele. Pouco depois de Lula ter sido preso este sábado, Wagner disse à página “Brasil 24/7” que “a eleição só é limpa se Lula for candidato” e pediu mobilização: “Não é hora de ficar em casa, é de vir para a rua, na reunião no prédio, na escola, na igreja, seja onde for. Não precisa ser grande ato. O importante é que a gente esteja o tempo todo na militância, argumentando sem xingar. Não vamos devolver ódio com ódio”.

Jacques Wagner, aqui com Lula quando este era presidente

Jacques Wagner, aqui com Lula quando este era presidente

Foto Domingos Tadeu/REUTERS

Cheio de protagonismo nos últimos dias esteve Guilherme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Filho de famílias abastadas, Boulos tem uma fortíssima formação académica nas áreas da Filosofia e da Psicologia mas aos 19 anos comoveu-se com o movimento dos Sem Teto, uma ramificação do movimento dos Sem Terra, que marcou os anos 90 no Brasil. Tem apenas 35 anos mas uma das primeiras fotografias de Lula a ser publicada nas redes sociais depois de conhecida a “nega” do Supremo Tribunal Federal ao seu habeas corpus foi tirada ao lado de Boulos, punhos fechados e em riste. No domingo à noite, o jovem político disse que os apoiantes de Lula “não vão descansar” enquanto não o soltarem. O próprio Boulos tem deixado claro que não pretende disputar as presidenciais se Lula estiver no boletim. O que é certo é que o carisma de Boulos faz dele um quase incontornável. Há poucos com o mesmo “comando das massas” e nisso ele aproxima-se de Lula.

Fernando Haddad é também um nome dado com certo. Novo para presidência, com 55 anos, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação do governo Lula, Haddad tem dito que não se vai meter em disputas eleitorais este ano - que, de resto, é o que todos os petistas têm dito para não dinamitar as chances de Lula e a força do movimento. Coordena a equipa que prepara o programa de governo de uma putativa candidatura Lula e diz-se dele ser a escolha do próprio Lula. É cientista político e visto como um “cara sério”. Contudo, Haddad está a ter problemas para explicar porque é que não declarou à Justiça Eleitoral despesas da sua campanha para prefeito de São Paulo de 2012. O nome dele já tinha sido falado para a presidência no passado mas Lula escolheu Dilma - mas é muitas vezes dito na imprensa brasileira que não o fez sem pensar bem no assunto - este dado pode dar alguma consistência à tese de que Haddad seria o homem de Lula se Lula não puder ser o seu próprio homem. Sondagens da empresa DataFolha mostram que 51% dos brasileiros consideram Lula inelegível para a presidência dado os crimes pelos quais já foi julgado e condenado em duas instâncias. Ao mesmo tempo, 47% desejam vê-lo nas urnas.

Wilson Gomes faz uma apreciação pessimista das opções da esquerda. “Na esquerda tradicional temos os jovens candidatos Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (PSOL), que representam aquela franja a que chamamos ‘esquerda puro-sangue’. Neles há muita nitidez ou pureza ideológica, mas, até o momento, um cacife eleitoral baixíssimo.” Quanto a Haddad e Wagner, “poderiam ser o plano B do petismo” mas “a transferência de votos não é, certamente, automática porque Wagner enfrenta problemas com a Operação Lava Jato e Haddad é pouco conhecido nacionalmente”. Mas há mais um problema para os dois. “É pouco provável que outros partidos de esquerda aceitem, sem questionar, que candidatos petistas assumam a cabeças das chapas concorrentes à presidência da República.”

No centro-esquerda há ainda Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). “É muito difícil que, ao menos num primeiro turno, eleitores de Lula considerem votar em Marina, tamanha as mágoas que ela deixou nos partidários do PT por ter tomado uma posição francamente hostil a Dilma Rousseff, quando dos eventos que culminaram no impeachment, e a Lula, durante todo o período dos vários julgamentos a que foi submetido”, diz o professor. Quanto a Ciro Gomes, “é visto como um candidato convencional demais na prática política para atrair o voto da esquerda, mas isso certamente pode mudar se a conjuntura política não apresentar nenhum candidato viável para fazer frente seja a Jair Bolsonaro, da extrema-direita, e a Geraldo Alckmin (PSDB), da centro-direita”.

Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, é visto como “esquerda pura”

Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, é visto como “esquerda pura”

Foto Nacho Doce/REUTERS

Do outro lado

Mais longe era difícil. Os dois homens com mais intenções de votos nas eleições marcadas para 7 de outubro estão em polos opostos da política brasileira. A história de Lula já conhecemos mas o homem que estando longe mais dele se aproxima é Jair Bolsonaro, persistente nos 16%, de acordo com a DataFolha. Bolsonaro, do PSL (Partido Social Liberal) e com 60 anos, é um homem conotado com a extrema-direita e não é a primeira vez que defende os tempos ordeiros da ditadura militar. Fez sete mandatos por cinco partidos diferentes e como o seu atual PSL conta apenas com 10 deputados, o financiamento da sua campanha, tal como os tempos de antena que lhe serão dispensados, preveem-se muito reduzidos.

Das pré-candidaturas conhecidas, Ciro Gomes, 60 anos, do PDT (Partido Democrático Trabalhista), é uma possível oposição ao PT num campo mais próximo do centro mas aparece com uns pouco entusiasmantes 6%. Gomes já passou por sete partidos ao longo de 37 anos de vida pública. Tanto nas eleições de 1998 como nas de 2002, concorreu pelo PPS (Partido Popular Socialista), tendo conseguido nesta última mais 10 milhões votos. Está desde 2015 no PDT.

Jair Bolsonaro, que representa a extrema-direita brasileira

Jair Bolsonaro, que representa a extrema-direita brasileira

Foto Rudolfo Buhrer/REUTERS

Se nenhum destes nomes parece reunir unanimidade, nem tão-pouco dentro dos seus próprios partidos, há uma coisa que tanto políticos como analistas repetem incessantemente: o Brasil precisa de uma figura pacificadora. E é aqui se tem inserido o nome de Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), nomeado como membro do coletivo por Lula mas visto como a face limpa da Justiça brasileira. Há menos de 24 horas filiou-se no Partido Socialista Brasileiro (PSB) e deve ser o candidato do partido à presidência, ainda que ele mesmo tenha dito que o PSB não lhe garantiu qualquer nomeação. No dia 7 de outubro faz 64 anos e poderá disputar aí a passagem à segunda volta das eleições. É apelidado “o Obama do Brasil” e, se conseguisse vencer, seria o primeiro Presidente negro da história do país. É, como Lula, um homem com origens extremamente humildes: lavou escadas com a mãe e depois foi datilógrafo numa gráfica. Estudou Direito numa universidade pública e foi procurador da República antes de ser presidente do STF - também aí o primeiro negro a ocupar a cadeira.

Lula poderá fazer campanha?

Como explica a BBC Brasil, a aplicação da Lei da Ficha Limpa, que inviabilizaria a candidatura de Lula, só será aplicável no momento em que o Supremo Tribunal Eleitoral avaliar todas as candidaturas às presidenciais, o que deve acontecer até 17 de setembro. Até aí, nada impede o aparelho de Lula de organizar comícios, bloqueios de estrada e enormes churrascos, como foi o caso na sexta-feira passada, quando o juiz Sergio Moro já tinha dado ordem de prisão ao ex-presidente. Caberá porém ao mesmo Moro decretar de que forma poderá Lula participar nesses ações. Mas mesmo que o Supremo Tribunal Eleitoral decida barrar a candidatura de Lula, há sempre a possibilidade de serem apresentados recursos. Recursos que, aliás, não só se aplicam apenas à eventual participação na campanha mas à própria prisão de Lula, que pode acabar já esta quarta-feira. É que está marcada para esse dia uma sessão do Supremo Tribunal Federal para analisar uma “liminar” (espécie de ordem judicial cautelar) feito pelo Partido Ecológico Nacional (PEN) para suspender a execução da pena de condenados em segunda instância. Se todas estas decisões demorarem mais tempo do que previsto, Lula pode chegar ao dia da primeira volta ainda como candidato ou mesmo vencer as eleições e aí a sua candidatura poderia ser anulada já com ele eleito. Seriam então convocadas novas eleições.

  • Quantos vão virar Lula?

    Este sábado, 24 horas depois do prazo dado pelo juiz Sérgio Moro, Lula entregou-se finalmente, Deixou pelo seu pé a sede do Sindicato dos Metalurgícos e entrou num carro da Polícia Federal. Horas antes, dirigiu-se aos apoiantes com um marcante discurso político, no qual disse "já não sou um ser humano: sou uma ideia”. Foi o discurso de um líder acossado, mas ainda líder. Tentou tirar o máximo proveito do seu carisma e popularidade. Resta saber se, ao fim de tanto tempo, de tanto mérito e tropeção, o apelo ainda cala fundo em gente que chegue. A análise do editor de Internacional do Expresso

  • 24 horas depois, Lula da Silva entregou-se à polícia

    O juiz Sérgio Moro ordenou a Lula da Silva que se entregasse às autoridades até às 21.00 (hora de Lisboa) de sexta-feira. 24 horas depois, o antigo Presidente do Brasil deixou pelo seu pé a sede do Sindicato dos Metalurgícos e entregou-se. Uma escolta de viaturas da Polícia Federal levou-o até ao aeroporto de Congonhas, em São Paulo, de onde seguirá num avião para a prisão em Curitiba. O ex-presidente está condenado a uma pena de 12 anos.