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Sexta-feira é dia de sangue na Faixa de Gaza

6 de abril foi a segunda sexta-feira de protesto, numa série que deve durar até maio

IBRAHEEM ABU MUSTAFA/Reuters

Repressão de protestos contra o bloqueio gera críticas e terroristas aproveitam

Julio de la Guardia, correspondente em Jerusalém

Quando está prestes a cumprir-se o 20º aniversário do Acordo de Sexta-feira Santa, que trouxe a paz à Irlanda do Norte, as mobilizações na fronteira de Gaza converteram-se numa macabra sequência de sextas-feiras sangrentas. Já lhes chamam, com ironia, “Fridays, bloody Fridays”, num eco da canção dos U2 sobre o domingo sangrento de 1972, em que 14 manifestantes desarmados foram mortos pelas balas das forças de segurança britânicas, em Derry.

A primeira sexta-feira sangrenta de Gaza, 30 de março — Dia da Terra, que recorda a morte de seis árabes israelitas que contestavam a expropriação forçada das suas terras pelo Estado — custou a vida a 17 palestinianos. Segundo o Ministério da Saúde da Palestina, ficaram feridos outros 1400, metade por impactos de munições reais. Ontem a violência repetiu-se: nove palestinianos mortos e mais de 200 feridos.

Tudo indica que o mesmo padrão se irá reproduzir todas as sextas-feiras até 15 de maio, data em que os palestinianos assinalam anualmente a “Nakba”, ou catástrofe nacional. Ontem, sexta-feira 6 de abril, manifestantes queimaram pneus e utilizaram espelhos para se tentarem esconder dos francoatiradores militares.

Será um mês e meio de mobilizações nos enclaves situados em seis pontos da vedação que contorna o perímetro de Gaza pela parte norte e oriental. Os organizadores instalaram grandes tendas de campanha e convidaram os habitantes de Gaza a visitá-las em massa, em protesto pela grave crise humanitária em que vivem desde 2013, quando o general Abdel Fatah Al-Sisi ascendeu ao poder no vizinho Egito e mandou encerrar todos os túneis de contrabando que proviam a Faixa com abastecimentos adicionais.

O que foi pensado como protesto não-violento, às sextas-feiras, passa a batalha campal entre os jovens palestinianos, que tentam chegar até à vedação para lá colocarem uma bandeira nacional, e os soldados israelitas, que tentam impedi-los. O ministro da Defesa do Estado hebraico advertiu que os disparos vão continuar, apesar dos protestos internacionais pelo uso excessivo da força militar. “Não vamos mudar as regras e todo aquele que se acercar da vedação coloca a vida em perigo”, declarou Avigdor Lieberman numa entrevista.

Segundo o porta-voz do Exército, Ronen Manelis, todos os manifestantes mortos estavam envolvidos em “atividades terroristas”. O movimento islamita Hamas reconheceu que cinco eram membros do seu braço armado, enquanto Manelis eleva esse número a dez. É certo que militantes armados procuraram aproveitar o caos para se infiltrarem no lado adversário e cometerem atentados, mas foram casos isolados.

Mostras de solidariedade

Embora sejam cada vez menos, continua a haver em Israel organizações que estão contra o uso desproporcionado da força. A ONG de direitos humanos Betselem fez um apelo público aos soldados para que se recusem a disparar contra civis desarmados. Também a Coligação de Mulheres para a Paz lançou uma campanha sob o lema “Gaza Livre”. Uma das suas simpatizantes, Eileen Siegel, denuncia que “há mais de onze anos que o Governo leva a cabo esta política de bloqueio e não conseguiu atingir o seu objetivo: o Hamas continua lá e as pessoas comuns continuam a sofrer”. Caminha com as suas companheiras de regresso ao autocarro após terem sido repreendidas por comerciantes no cruzamento de Yad Mordejai, junto à passagem fronteiriça de Erez.

A poucos quilómetros dali acede-se ao monumento erigido junto à fronteira em honra da Unidade 101 do Exército, fundada e comandada por Ariel Sharon, mais tarde primeiro-ministro (2001-2006). Às famílias que vivem na zona e se acercam para fazerem piqueniques entre as árvores que rodeiam o monumento juntam-se curiosos que vêm assistir aos confrontos junto à vedação. Alguns chegam a ver o que acontece usando binóculos.

“Como se pode ver, aqui a normalidade dos churrascos convive com a anormalidade dos distúrbios que vemos ao fundo”, comenta Nitza, apontando com uma mão em direção às tendas de campanha brancas e ao fumo negro dos pneus que se avista no horizonte. Nitza, habitante da cidade de Sderot (a zona metropolitana mais próxima da Faixa de Gaza, que fica ao alcance dos foguetes Qassam do Hamas), declara-se “convencida de que nenhuma das partes, nem Israel nem os palestinianos, faz o suficiente para encontrar uma fórmula que permita que vivamos em paz”.

“Parece mentira que estejamos agora no Pesach [Páscoa judaica] e a comemorar a fuga da nossa escravidão no Egito, e andemos para aqui a disparar contra inocentes”, reflete Noemi Cohen. Na sua opinião o cerne do problema está em que “Bibi [o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, no poder desde 2009] e os seus estão a erguer cortinas de fumo para ocultar as investigações sobre corrupção que pendem sobre ele e a sua família”. Vinda de Ra’anana (a norte de Telavive), Noemi confessa recear que Netanyahu provoque uma nova guerra em Gaza, no verão, para ganhar mais votos numas prováveis eleições antecipadas.