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“Vamos ter uma imagem para rodar o mundo e o Brasil.” Mas não tiveram

A dado momento de uma sexta-feira confusa, contraditória, surpreendente, alguém disse que Lula deveria ser preso rodeado de uma multidão, uma espécie de criação automática de um mito: “Vai ser com um mar de gente aqui na frente. Quem se entrega parece que tem culpa e não é o caso do presidente Lula. Vamos ter uma imagem para rodar o mundo e o Brasil”. Até ao início da madrugada deste sábado, hora portuguesa, não havia nem mito nem imagem para o mundo: Lula não se entregou. É um preso livre

Ana França

Ana França

Jornalista

Esta sexta-feira foi o dia de “sair na rua” e protestar - ora por Lula ora contra ele. O homem que se mantém como o mais popular presidente que o Brasil já viu teve ordem de prisão na quinta-feira mas ainda não está preso. Ficou na sede do sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, na zona metropolitana de São Paulo, e mesmo que quisesse paz não a conseguiria. Durante todo o dia, milhares de apoiantes do seu mandato, sentindo-se injustiçados por aquilo que consideram um processo judicial posto em marcha por razões políticas, encheram as artérias à volta do edifício. Houve samba, churrasco, muitos megafones, muitas palavras de ordem e um desejo enorme de ver o seu herói aparecer na varanda da sede do sindicato.

O dia passou-se em suspense: seria ou não seria Lula, o grande mito da política brasileira, amado e odiado com igual fulgor, preso antes do fim da semana? Até ao início da madrugada deste sábado não foi, mas o avião da Polícia Federal já está estacionado no aeroporto de São Paulo para enviar Lula para Curitiba, onde deve ser preso.

A meio da tarde desta sexta-feira, as cúpulas do Partido dos Trabalhadores, que Lula formou no auge das lutas sindicalistas do fim dos anos 70, disseram aos jornalistas que o ex-presidente não iria a Curitiba. Foi o primeiro alarme: Lula não se iria entregar - ou pelo menos não nos termos do seu principal carrasco, Sérgio Moro. Lula iria permanecer na sua sede, ao lado dos seus.

Ainda antes desta sexta-feira acelerada, Lula deu na noite de quinta-feira uma entrevista ao jornalista Kennedy Alencar, da rádio CBN, em que considerava o mandado de prisão emitido por Moro “absurdo” e “um sonho de consumo de Moro e dos que querem ver-me preso nem que seja um dia”. Estas mesmas palavras viriam a ser ecoadas por milhares de apoiantes nas redes sociais e através dos muitos megafones espalhados pelas ruas de todo o Brasil - de Pernambuco a São Paulo, passando por Garanhuns, onde Lula nasceu, em 1945, na pobreza. Uma pobreza que continua a afetar o nordeste como se fosse uma doença contagiosa e uma pobreza que Lula quis erradicar. Não terá sido em todo o lado sentido com a mesma força, mas é por causa dos seus programas sociais que os brasileiros lhe são tão fiéis. Um exemplo é o programa “Bolsa Família”, que pressuponha o pagamento de uma parte da renda da casa a famílias que consigam manter os filhos na escola até aos 17 anos.

Durante todo o dia de sexta-feira, vários membros do PT foram revelando as suas posições em relação àquilo que Lula devia fazer. Os pontos altos foram marcados por Maria do Rosário, deputada federal, uma das mais diretas ao sugerir que Lula não deveria entregar-se em Curitiba. Também Lindbergh Farias, líder do partido no Senado, defendeu essa posição e sonhou alto com algo épico: que o ex-presidente deveria ser preso rodeado de uma multidão, uma espécie de criação automática de um mito. “Vai ser com um mar de gente aqui na frente. Quem se entrega parece que tem culpa e não é o caso do presidente Lula. Vamos ter uma imagem para rodar o mundo e o Brasil”, disse.

É precisamente desta instrumentalização da figura de Lula - e da Justiça - que a oposição se queixa. Jair Bolsonaro, deputado do Partido Social Liberal e visto como um dos principais candidatos à presidência, depois de saber da nega ao primeiro habeas corpus disse que Lula “não é um bandido especial mas um bandido comum”. Do lado menos inflamado (ou inflamável) da barricada estão os advogados do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins e José Roberto Batochio, e também a família de Lula, que, segundo os jornais brasileiros, foram pedindo ao “petista” que se entregasse para evitar que a sua hesitação fosse entendida como desobediência ou intenção de fuga.

Em frente ao edifício da Polícia Federal de Curitiba, onde Lula teria de se apresentar até às 17h locais (21h em Portugal Continental), uns poucos manifestantes gritavam “Lula foragido”, em protesto contra a decisão do presidente em não se entregar - e de nada ser feito para o obrigar. O aparato policial foi forte e até um atirador furtivo havia no telhado da Polícia Federal.

A meio da manhã no Brasil, já depois das 13h em Lisboa, mais um facto relevante: o Superior Tribunal de Justiça negava o segundo habeas corpus, segundo a defesa de Lula. Afinal não. Falso alarme - o Tribunal corrigiu os advogados e disse que não havia decisão. Mais tarde sim, negaria de vez as chances de Lula sair da sede dos Metalúrgicos como um homem livre - ou livre a aguardar que se esgotem todos os procedimentos legais de recurso.

Já ao fim da noite haveria de surgir a notícia de que pelo menos mais quatro habeas corpus tinham sido interpostos por advogados, nenhum deles ligados diretamente à defesa de Lula. Segundo a Constituição brasileira, qualquer cidadão pode apresentar um pedido deste tipo, desde que fundamente as razões pelas quais considera que determinado cidadão está a ser coagido. Até a ONU foi chamada para a oração coletiva: por volta das 17h em Portugal, os advogados de Lula da Silva fizeram um pedido de medida cautelar ao Comité de Direitos Humanos das Nações Unidas para que este ajude a impedir a prisão de Lula.

Em vários locais do Brasil, as estradas foram bloqueadas em mais de 11 estados, houve fogos nas estradas e uma mulher foi baleada - era militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, apoiante de Lula da Silva, e foi ferida no bloqueio de uma estrada em Alhandra.

Batiam as 19h em Portugal e eis mais uma notícia capaz de incendiar os apoiantes do PT: a pressa em prender Lula ter-se-á devido à “necessidade de estancar sensação de omnipotência” do ex-presidente, dizia o “El País Brasil”, que revelava ter tido acesso a um documento em que fica claro que partiu do Ministério Público Federal da 4ª Região a iniciativa de prender Lula da Silva o mais rapidamente possível. O procurador da República, Mauricio Gotardo Gerum, que assina o documento, sugeriu o cumprimento imediato da pena de 12 anos e um mês de prisão decretada pela justiça brasileira fosse antecipado.

Pelo meio houve quem tivesse aproveitado para apresentar candidaturas à presidência. Foi o caso do ministro das Finanças do Brasil, Henrique Meirelles, que, em entrevista à Reuters, anunciou que se ia demitir do cargo ainda esta sexta-feira para estudar a possibilidade de se candidatar às presidenciais em outubro. "Sim, decidi abandonar o cargo. Vou estudar uma possível candidatura", disse Meirelles à Reuters.

À medida que a noite caía, algumas pessoas foram-se afastando das imediações da sede do Sindicato dos Metalúrgicos, onde o ex-presidente se refugiou. Mas muitos ainda continuavam à espera de Lula, “guerreiro do povo brasileiro”.

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