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Quantos vão virar Lula?

Este sábado, 24 horas depois do prazo dado pelo juiz Sérgio Moro, Lula entregou-se finalmente, Deixou pelo seu pé a sede do Sindicato dos Metalurgícos e entrou num carro da Polícia Federal. Horas antes, dirigiu-se aos apoiantes com um marcante discurso político, no qual disse "já não sou um ser humano: sou uma ideia”. Foi o discurso de um líder acossado, mas ainda líder. Tentou tirar o máximo proveito do seu carisma e popularidade. Resta saber se, ao fim de tanto tempo, de tanto mérito e tropeção, o apelo ainda cala fundo em gente que chegue. A análise do editor de Internacional do Expresso

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

“Eu sou Lula”, gritavam partidários do ex-Presidente brasileiro, esta tarde em Curitiba, diante do local onde ainda hoje deve ingressar na prisão. O guru acabara de discursar a 400 quilómetros dali, depois do silêncio descoroçoante de ontem. E afirmara, antes de ser se enfiar na multidão emocionada, que cada militante que está consigo passará a ser um “Lula”. “Lula, guerreiro do povo brasileiro”, respondeu a mole humana, em uníssono. De quanto povo se verá.

Lula esteve literalmente cercado de gente que acredita nele. Mas Lula está metaforicamente cercado pela condenação em várias instâncias, pelos habeas corpus rejeitados, pela ordem de prisão que chocou meio país enquanto a outra metade a celebrava. “Vou atender o mandado deles”, afirmou, confirmando a entrega negociada durante horas, frisando que a contragosto. “Não!”, gritaram apoiantes. Mas qualquer alternativa significaria um circo violento.

O histórico do Partido dos Trabalhadores vai para a cadeia pelo próprio pé, mas não vergado. “A minha mãe já fez este pescoço curto para que eu não tivesse de o curvar”, brincou, depois de assegurar que sairá “maior, mais forte, mais verdadeiro e inocente”. Porque, lá está, “todos vocês vão virar Lula”. “A morte de um combatente não pára a revolução”, bradou aquele que já conheceu o cárcere nos tempos da ditadura militar, como não deixou de relembrar.

Para cada inimigo um remédio

Minar o filão de um carisma sem par no Brasil; salvaguardar a popularidade que põe o condenado à frente das sondagens para a presidenciais; fazer da prisão martírio; evocar um currículo de sindicalismo, luta democrática e governação a favor dos pobres; repetir a história do iletrado levantado do chão. “Se esse foi o crime que cometi, vou continuar sendo criminoso”. Eis as armas que restam a Lula. Eis as que hoje empunhou. As do populismo, dirão alguns.

Não faltaram críticas aos juízes, mormente Moro. À imprensa a quem a sua foto, preso, dará “orgasmos múltiplos”. Ao Brasil privilegiado que viu no seu governo, e no de Dilma Rousseff, um parêntesis a abreviar quanto antes. Àqueles em cuja cabeça “pobre não pode ter direitos, comer carne de primeira, andar de avião ou ir à universidade”. “Quanto mais eles me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro”, acredita ou espera. Mas quantos, de 207 milhões?

Para cada inimigo um remédio, que é promessa às hostes: “nova Constituinte”, refutação de leis de Temer, “regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima de mentiras” e, se um magistrado quiser fazer política, que “largue a toga e vá ser deputado, escolha um partido”. O tom roça a ameaça: “Eles vão descobrir pela primeira vez. Eles não sabem que o problema deste País não se chama Lula”. Lula será problema, mas para “eles”.

O homem que quer ser uma ideia

De tantas em tantas palavras, ecoa o petit-nom tornado apelido, mitificado em boca própria: “Eu não sou um ser humano. Eu sou uma ideia”. Nem faltou a menção a Marielle Franco, a consolidar a vitimização. A deploração (justa) do espetáculo que certos media fizeram da agonia de sua mulher Marisa Letícia, cujo 68.º aniversário assinalou em missa. E, não vá alguém confundir-se, a garantia de que não é contra a Lava Jato e que “tem que pegar quem roubou e prender”.

Manter a chama acesa é a esperança do homem que levantou milhões da pobreza e vai ser o teste dos seis meses até à ida às urnas. Não é certo que todos os que beneficiaram das suas políticas lhe mostrem gratidão. Sair da miséria e ganhar instrução torna as pessoas mais exigentes e críticas. A direita brasileira não é recomendável, mas falta a Lula olhar aos pecados próprios e dos seus, à oportunidade desperdiçada ou no mínimo manchada por quem pôde mudar o Brasil.

Estudo de opinião recente dava 27% dos votos a qualquer candidato apoiado por Lula. Resitirá a fidelidade ao fim da ficção de que o candidato será Luiz Inácio? Os 5% do delfim Haddad pouco prometem. Lula quer ser o povo, quer que o povo faça de Lula, mas o povo não saiu à rua: milhares sim, mas há 12 ano elegeram-no 58 milhões e hoje as pesquisas dizem que 39 milhões repetiriam o gesto. Até agora as mobilizações têm sido brandas. Pelo que a pergunta é premente: quantos serão Lula?