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O Expresso no Brasil. Reportagem no discurso de despedida de Lula

Júlia Dolce/HO HANDOUT

A jornalista Maria da Paz Trefaut assistiu ao último discurso de Lula da Silva, esta tarde, antes de entregar-se às autoridades brasileiras. Um relato a partir de São Bernardo do Campo, localidade junto a São Paulo.

Com um ramo de margaridas na mão, carregado pela multidão no meio de um perigoso empurra-empurra e sob intensa emotividade, Lula da Silva despediu-se das ruas para se entregar à prisão. A palavra de ordem inicial do dia – “Não se entrega” – foi substituída por outra mais cordata: “Eu sou Lula”.

A manhã de mobilização política começou antes das 9 horas (hora do Brasil) quando estava marcada uma missa em homenagem a Marisa Letícia, mulher de Lula que morreu no ano passado. O termômetro marcava amenos 25 graus quando centenas de pessoas caminhavam pelas ruas em direção à sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, município da Grande São Paulo.

A missa foi realizada num grande camião, espécie de trio elétrico, que fechou a rua. Na ladeira ondulavam bandeiras vermelhas, mas também negras e brancas. Havia militantes, muitos.

Mas também brasileiros apartidários que estavam ali para manifestar a sua oposição à prisão do ex-presidente. Como o estudante de direito Gustavo Dahrug, de 20 anos (foto acima), que dizia “prezar muito a defesa da constituição”. Para ele, o Brasil vive a maior crise institucional desde a redemocratização. “É hora de se mobilizar e manter a voz ativa”, dizia.

Cinco religiosos, de distintas crenças, estavam no palanque quando Lula chegou, de t-shirt azul-marinho justa, cumprimentando a multidão com o punho cerrado. Quando cessaram os brados de “Lula, herói do povo brasileiro”, uma mulher gritou: “Lula, eu te amo”, e logo foi seguida pelo coro da multidão.

O político brasileiro, considerado o maior líder popular desde Getúlio Vargas (1882-1954), pretende voltar. E demonstrou a sua capacidade inesgotável de comover com seu discurso, longo como sempre, cheio de superlativos, que fizeram dele um mito.

A missa começou com duas horas de atraso e foi comandada por Dom Angélico Bernardino, que vestia um hábito branco com a palavra Jesus bordada em vermelho. “Aqui temos católicos, evangélicos, espíritas, luteranos, umbandistas, crentes e não crentes”, começou por dizer. E seguiu: “Resistência é a palavra que mais gosto de ouvir”.

Ao intercalar músicas, rezas e textos bíblicos, deu oportunidade para que a multidão cantasse e dançasse. Lula, na frente do palanque, olhava para cima com os olhos meio perdidos. Depois, ao ouvir “Asa Branca”, música de Luiz Gonzaga, passou a batucar no peito. O repertório musical foi escolhido pelo ex-presidente, que durante toda a cerimonia foi chamado de “presidente”.

Apoiadas na balaustrada várias mulheres cantavam e choravam. De jeans e blusa branca, com um cartaz escrito “Não à prisão de Lula”, uma delas enxugava as lágrimas, rezava e cantava: “Mas é preciso ter força/é preciso ter raça/é preciso ter sonho/sempre”.

Ao seu lado, Marisa Genésia dos Santos (foto acima) estava sisuda. Professora, de 56 anos, veio na véspera de Campinas (cidade do interior a 100 quilômetros de São Paulo) e dormiu no carro. “Já fui petista, deixei, e acho que agora vou voltar a ser. Dia primeiro de maio de 1980 estive aqui quando Lula foi preso. Retornei porque é a mesma situação de perseguição política e de perda dos direitos dos trabalhadores”. Ela anota o nome do Expresso, da repórter e vai ao site conferir: “Esse jornal só sai aos sábados?” – pergunta.

No palco, Dom Angélico continua: “O amor vencerá o ódio. Ficarão na história estes dias de luta pela democracia e pelos direitos. O que se vê hoje é a volúpia dos poderosos sobre o povo. Acima de tudo está o amor”. Em uníssono a multidão repete a oração de São Francisco de Assis recitada por Dilma Rousseff (ex-presidente, que foi impedida). “Senhor, fazei-me instrumento de nossa paz”.

Uma pastora luterana toma o microfone. Com as mãos nas pernas de Lula conclama: “Se estas pernas não puderem percorrer o país, vamos percorrer por elas”.

Um padre francês pede que todos deem as mãos e diz as primeiras palavras da oração: “Pai nosso que estás no céu....."

O sol inclemente faz os companheiros de Lula espremerem-se sob um pequeno toldo montado sobre o caminhão. Dilma Rousseff, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Celso Amorim, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e dezenas de outros, que ele fez questão de nomear.

Depois do discurso inflamado, pronunciado com uma voz muito rouca, Lula saiu nos braços do povo, como um semideus. Em meio ao pranto, aos desmaios, como herói e como vítima. Exatamente como era sua intenção.