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“Vamos tentar tirar a contestação das redes sociais e levá-la para as ruas do Brasil”

Marcelo Freixo,

MAURO PIMENTEL / Getty

Foi o deputado estadual mais votado nas últimas eleições, é o líder do partido da vereadora assassinada Marielle Franco e o rosto da esquerda além do Partido dos Trabalhadores. Marcelo Freixo é o homem do equilíbrio possível, assume que a democracia brasileira está em risco e promete sair das redes sociais e ocupar as ruas

"Já há muita gente nas ruas e a resistência daqui para a frente será feita nas ruas." Quem diz é Marcelo Freixo, presidente do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), sigla a que respondia Marielle Franco, a vereadora morta há cerca de um mês no Rio de Janeiro com quatro tiros na cabeça. O nome de Freixo nada diz por enquanto aos portugueses, mas o de Marielle sim e ela, mulher negra, favelada e lésbica, foi durante anos o braço direito de Freixo.

E explica como: "Vamos tentar tirar a contestação das redes sociais e levá-la para as ruas. Porque a democracia está muito ameaçada." Na passada segunda-feira, Freixo esteve lado a lado com Lula da Silva e Chico Buarque num evento no Rio de Janeiro para homenagear a vereadora assassinada. Esta sexta-feira conversou rapidamente com o Expresso ao telefone. A voz cansada revela um homem que está no limite das forças, mas que promete continuar. Porque sabe tem de ser e todos serão chamados a participar.

Mas nem todas as companhias de Freixo nesta caminhada de oposição são consensuais entre os brasileiros. Ao lado dele está outro nome a que se tem de ter atenção: Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Sem Teto, homem barbudo como Lula, muito próximo do ex-Presidente e que promete ocupar as ruas com agressividade se for preciso e que é o candidato presidencial do PSOL nas eleições de outubro, secundado por uma índia na vice-presidência.

Freixo sabe que a sociedade brasileira está muito dividida e que é preciso ter cautela na abordagem. "Temos de ter cuidado para não sermos excessivos porque a radicalização pode criar um refluxo e afastar algumas pessoas." Questionado sobre a linguagem mais agressiva do candidato presidencial do PSOL, Guilherme Boulos, o líder do partido assume que será necessária muita negociação de bastidores: "Vamos ter de conversar muito para compreender a actual sociedade brasileira".

Deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Marcelo Freixo presidiu à comissão parlamentar de inquérito sobre as milícias - forças paramilitares e policiais que dominam zonas cariocas e cobram dinheiro à população e aos comerciantes em troca de proteção contra os traficantes de drogas e que criaram um poder paralelo e estão a ser acusadas de estarem envolvidas no assassinato de Marielle Franco - e, por isso, vive acompanhado de seguranças, tendo inclusive, inspirado o filme "Tropa de Elite 2". Em 2014, Freixo foi mesmo o deputado estadual mais votado do Brasil. Um capital que tentará ir buscar outra vez neste complexo momento da vida política brasileira.

"A prisão de Lula mostra um poder judiciário parcial e ao serviço de um projeto político", diz o deputado estadual, afirmando ainda que "a morte de Marielle Franco mostrou também que o país não está disponível para a mudança, para aceitar uma mulher negra, vinda das favelas, homossexual". E, por isso, Freixo defende que os partidos de oposição ao atual governo brasileiro devem unir-se.

"Nós nunca fomos governo com o Partido dos Trabalhadores (PT), sempre fomos muito críticos e fizemos oposição pela esquerda aos governos Lula e Dilma Rousseff, mas a crise atual é demasiado profunda, temos de nos unir e aproximar porque a democracia brasileira, que sempre foi muito frágil, foi agora colocada em causa", afirma Freixo.

Quanto ao fólego que o Brasil terá para suportar tanta turbulência, Freixo não está otimista, dizendo que . "O governo Temer é um não-governo e as eleições presidenciais são essenciais para restabelecer a legitimidade do governo. Só com as eleições isso será possível."

Em 2018 celebram-se os 50 anos de "Chega de Saudade" da Bossa Nova e, nesta conversa com o Expresso, Marcelo Freixo, símbolo de uma política de nova geração, vem sinalizar que chegou a hora de os brasileiros perceberem que se quiserem mudar o país terão de exigir estas mudanças de forma ativa. E promete dar o corpo por estas exigências.