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E se Lula não se entregar? E se se entregar?

MARCELO CHELLO/ EPA

Ex-Presidente poderá apresentar-se à polícia em São Paulo ou ficar no Sindicato dos Metalúrgicos à espera que o venham prender

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

As “dificuldades logísticas e de segurança” alegadas por Luiz Inácio Lula da Silva explicam que não vá a Curitiba cumprir a ordem do juiz Sérgio Moro, para se entregar à Polícia Federal (PF) naquela cidade do Estado do Paraná até às 17h de hoje (21h em Portugal). Não nos dizem, porém, o que fará o antigo Presidente (2002-2010) e, ainda, pré-candidato às eleições presidenciais de 7 de outubro próximo. Lula fala às 16h (20h portuguesas).

Uma hipótese é entregar-se à PF em São Paulo. Em vez dos mais de 400 quilómetros que o separam de Curitiba, percorreria pouco mais de 40, saindo voluntariamente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, onde passou a noite. A “Folha de São Paulo” escreve que nesse caso Lula não seria penalizado.

Prevendo essa possibilidade, a PF mantém um avião e um helicóptero prontos. Caso o ex-chefe de Estado se entregue, será transportado de avião até Curitiba e de helicóptero do aeroporto local à esquadra. Evitar-se-iam cruzamentos com manifestações de apoiantes e detratores que poderiam ser agitadas.

A PF preparou para Lula um espaço habitualmente utilizado como dormitório para agentes, justificado pela dignidade do cargo que ocupou, argumento também aduzido por Moro para permitir a entrega espontânea. O futura cárcere do político brasileiro tem janela e casa de banho e cerca de 15 metros quadrados de superfície.

E se Lula não se entregar?

Jorge Chastalo Filho, chefe de escolta e custódia da polícia no Paraná, explica que o histórico do Partido dos Trabalhadores pode ser preso mal caduque o prazo dado por Moro (só haveria restrições se Lula estivesse em casa e à noite, o que não é o caso atual).

Se as forças da ordem forem ao sindicato prender Lula, depararão com centenas de apoiantes do ex-Presidente, o que pode complicar o cumprimento da detenção.

Ontem à noite houve cenas de grande comoção, na presença de Lula, que assegurou aos mais aflitos que iria “tudo dar certo”. Já hoje um ex-assessor de Lula, Gilberto Carvalho, disse ao jornal “O Estado de São Paulo” que os adeptos de Lula deviam fazer um cordão humano diante do sindicato para evitar a prisão. O potencial para tumultos é evidente.

Recorde-se que Lula é lidera as sondagens para outubro há cerca de dois anos. Nem a condenação, em janeiro, a 12 meses e um ano de cadeia, abalou as suas intenções de voto, que estão agora entre os 30 e os 40%, cerca de 15 pontos percentuais acima do concorrente mais próximo, Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (direita).

O ex-Presidente é inelegível ao abrigo da lei da Ficha Limpa, que impede condenados em sentença firme de se apresentarem a eleições. Mas oficialmente a impugnação da sua candidatura só acontecerá depois de apresentada, havendo vários recursos na justiça eleitoral. O que permite manter a ideia de que é ele o candidato até pouco antes da ida às urnas. É por isto que o PT tem repetido que não tem “plano B” e que o seu aspirante ao Palácio do Planalto será Lula.

Estimular o clima emocional e a sensação de injustiça entre os seus partidários poderá servir para preservar ao máximo a popularidade do ex-Presidente, para que se transfira o mais possível para candidato que o substituir quando tal se tornar inevitável.

Apoiantes de Lula têm recordado o seu passado de preso político (nos tempos da ditadura militar de 1964-85), comparando o seu líder a Nelson Mandela. O apelo à vitimização é evidente.

O apartamento da discórdia

A condenação pelo TRF4 acontece no âmbito da investigação Lava Jato, instruída pelo juiz Moro. Lula foi considerado culpado de corrupção passiva e branqueamento de capitais, tendo a justiça dado por provado que um apartamento triplex em Guarujá (São Paulo) lhe fora oferecido pela construtora OAS a troco de adjudicações de obras para a petrolífera estatal Petrobras.

Lula insiste na sua inocência. O PT afirma que a sentença é política, visando apenas impedir a sua eleição em outubro.

Condenado a nove anos e meio de prisão em julho de 2017 e inabilitado para a vida política por sete anos, viu a pena agravada depois de recorrer. A rejeição do habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal, quarta-feira, deu azo à ordem de prisão.