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Comemoração e desesperança pelas ruas de um Brasil dividido

As lutas dos petistas também nas paredes do Brasil, numa altura em que a sociedade se divide entre os apoiantes de Lula e os que acham que ele devia ir preso

Márcio Resende/Expresso

Fora os militantes que o apoiam, maioria acredita que Lula seja culpado, mas as opiniões dividem-se quanto à prisão. Os extratos sociais mais baixos tendem a rejeitar a prisão, em nome das conquistas sociais que Lula proporcionou. À medida que se sobe a pirâmide social, ganha apoio a ideia de ver o ex-governante atrás das grades

Márcio Resende, enviado ao Rio de Janeiro

“Vocês viram o que aconteceu com o Lula?”, pergunta em tom de exclamação João de Deus, de 44 anos, porteiro de um edifício em Copacabana, ao sair de manhã para se encontrar-se com porteiros vizinhos. A reportagem do Expresso passa pela rua e, ao ouvir pronunciar o nome mais repetido por estes dias no Brasil, pergunta a opinião deste migrante oriundo do empobrecido estado da Paraíba, no Nordeste brasileiro, reduto eleitoral de Lula.

“Para mim a prisão de Lula é uma injustiça. Todos roubam na política, mas porque só o Lula vai preso?”, questiona João de Deus. “Não digo que não seja ladrão, mas justiça seria prenderem todos. Lula tirou muita gente do fundo da miséria lá no Nordeste. Só que os ricos não veem o que ele fez pelos pobres”, acusa.

“Acho que não precisavam de prendê-lo. Bastava que não voltasse a ser candidato. Seria punição suficiente”, propõe o porteiro. “Com o Lula preso, as pessoas vão achar que a Justiça está funcionando, porque prenderam um ex-Presidente que roubou, mas as coisas vão piorar. Lula era uma garantia de que as mudanças podiam não acontecer”, lamenta. Por “mudanças” refere-se às reformas que o atual Governo de Michel Temer iniciou.

Com cerca de um milhão de habitantes, Copacabana é o bairro mais populoso do Brasil e cartão-postal para o mundo de um Rio de Janeiro sob intervenção federal, com militares pelas ruas. Copacabana expõe também as desigualdades brasileiras de uma elite a viver na famosa Avenida Atlântica, a poucos metros dos moradores da favela Pavão e Pavãozinho.

É culpado, mas sou fã

Na subida da favela, a moradora Girlane Ferreira dos Santos, de 50 anos, não tem dúvidas: Lula merece a prisão. “Acho justo que ele vá ser preso. Porque é que o pobre tem que ser preso, mas o Lula não?”, compara. “Muitos acham que ele não teve culpa, mas eu acho que teve, sim. O esquema de roubo na Petrobras prejudicou muito o país. Não estamos conformados com isso”, relata, indignada, esta proprietária do hostel Yes Brasil, em plena favela.

Também morador da favela, o pedreiro José Ronaldo Ribeiro Santos, de 47 anos, também trocou o empobrecido estado da Paraíba, no Nordeste, por uma chance de trabalho no Rio. Acha que Lula é culpado, mas declara-se fã incondicional do ex-presidente. “Toda a minha família e todos no Nordeste são fãs dele. Eu não queria que ele fosse preso, porque foi só um apartamento, enquanto outros roubaram muito mais. Sei que ele roubou, mas quando o Presidente é bom, eu acho que um apartamento é uma coisa meio irrelevante. Eu perdoaria”, sentencia. “Com a prisão de Lula, as pessoas vão reclamar, mas vão aceitar, porque estão a prender todos. Se tiver de ficar preso, ficará preso, mas eu também quero ver muitos outros presos.”

Na Cinelândia, em frente à Assembleia Legislativa, ponto nevrálgico de protestos no centro do Rio, o militante Adelson Guedes, pré-candidato a deputado estadual em outubro próximo pelo Partido dos Trabalhadores (de Lula), está resignado. “Acabou. Não tenho mais esperança. E não acredito que tenhamos povo para a lutar nas ruas contra a prisão de Lula. Ele vai ficar preso. É muito injusto”, lamenta. Porteiro desempregado, mora na Rocinha, a maior favela do país.

“Isto foi um julgamento político. Não existe um crime de facto. Não há provas contra Lula. A elite não aceita o acesso à Educação e a ascensão social da classe baixa. A elite declarou guerra ao pobre. É uma luta de classes. Não tem outra explicação”, interpreta Adelson. Ao seu lado dele, Carlos Vicente, cantor evangélico e candidato a deputado estadual pelo recém-fundado Partido da Mulher Brasileira, aposta: “Acho que vão chegar a um acordo para Lula não ficar preso, desde que fique inelegível. O que eles querem mesmo é tirar Lula do cenário eleitoral”.

Cereja no bolo

Na Avenida Rio Branco, em pleno coração do Rio, o advogado Vinícius de Oliveira, de 27 anos, diz estar contra a prisão de Lula devido à presunção de inocência. “A Constituição determina que só haja prisão após esgotados todos os recursos jurídicos. A meu ver, houve um julgamento político do Supremo Tribunal”, analisa.

Na mesma avenida, já perto da Candelária, o também advogado Jorge Farias tem outra visão sobre a presunção de inocência. “Quando se estabeleceu a Constituição [em 1988], os constituintes não previram os abusos que esse direito geraria na prática. O excesso de recursos derivou na prescrição de muitas condenações, na impunidade de facto. Sou a favor da prisão em segunda instância como um equilíbrio”, defende.

“Como cidadão, pelo conjunto da obra, há elementos suficientes para que ele fique preso. No caso do triplex, ficou evidente que, no mínimo, houve uma tentativa. Se não foi bem-sucedida, foi porque a Lava Jato chegou antes”, observa. “Acredito que vamos continuar nessa turbulência política e social até que todos os envolvidos respondam, inclusive o atual Presidente.”

Já próximo da Praça Mauá, no centro da cidade, o engenheiro Marcos Pinheiro concorda. “Acho que a prisão do Lula é só a cereja do bolo de toda essa história de corrupção desde o início da Lava Jato. Acho que passamos muito tempo sem prender essas pessoas que roubam milhões. Acho que isso pode ser o começo dessa nova era.”