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Santos Isabel Hernandéz tinha €44 para juntar a família e caminhar 3000 kms

ULISES RUIZ/ Getty Images

Há pelo menos uma década que a “Via-sacra de Migrantes” atravessa o México de uma ponta a outra. Este ano, a história ganhou outra dimensão quando Donald Trump disparou uma série de tweets no domingo de Páscoa a alertar para a chegada de pessoas à fronteira

Ao lado de Santos Isabel Hernandéz estão os três netos, de sete, seis e três anos. Está também um dos seus filhos. Santos já não vê a outra filha há mais de um ano - porque ela, a mãe das crianças, foi para os Estados Unidos trabalhar. A vida que tinha nas Honduras era insuportável. Santos ia caminhar por mais de 600 horas, percorrer uma distância maior que aquela que separa Lisboa de Varsóvia, na Polónia. Estava disposta a fazer tudo isto com três crianças ao seu cuidado, ao calor do sol que lhe queima a pele e com temperaturas quase a chegar aos 30 graus. Eles fazem parte dos mais de mil emigrantes e refugiados que iam percorrer o México até à fronteira norte-americana. Mas nem Santos nem os netos nem nenhum outro que participa na “Via-sacra de Migrantes” vão chegar ao destino.

“A caminhada termina na Cidade do México. Se outras pessoas precisarem de acompanhamento, teremos uma equipa de apoio na fronteira, mas vão ter de viajar por conta própria”, explicou à AFP Irineo Mujica, diretor da Pueblo Sin Fronteras, uma organização não governamental responsável pela marcha.

Este ano estima-se que cerca de 1200 pessoas tenham partido há uma semana de Tapachula, no sul do México, junto à fronteira com a Guatemala. Não há qualquer ilegalidade em caminhar para norte, mas uma vez chegados à fronteira norte-americana há duas possibilidades: pedir asilo ou tentar entrar ilegalmente nos Estados Unidos.

VICTORIA RAZO/Getty Images

Há pelo menos dez anos que a Pueblo Sin Fronteras promove estas ‘caravanas’. Não são propriamente proibidas, no entanto, quem nelas participa entra por vezes ilegalmente no México - e mais tarde nos EUA. Saem essencialmente da Guatemala, Nicarágua e das Honduras. No caso dos hondurenhos, como Santos e os netos, fogem da instabilidade política do país, que em novembro de 2017 foi a eleições e cujos resultados têm sido postos em causa (desde então, já morreram dezenas de pessoas).

É disso mesmo que fogem Santos e a família. Ao jornal “El Universal” contam que viajaram de propósito até ao sul do México para participar na caminhada. No bolso levavam apenas mil pesos (pouco mais de 44 euros).“Vivemos da caridade dos vizinho.” Santos quer voltar a estar junto da filha.

“Queremos mostrar que juntos podemos derrubar fronteiras”

“Somos um grupo de refugiados e migrantes de distintas nacionalidades, religiões, género. Juntámo-nos para lutar pelos nossos direitos como refugiados e migrantes.” Assim descreve o Pueblo sin Fronteras a caravana da “Via-sacra de Migrantes” num comunicado gravado em vídeo. “Queremos mostrar que juntos podemos derrubar fronteiras.”

É sempre por esta altura da primavera que a caravana de migrantes segue para norte. A este propósito, Donald Trump disparou no domingo de Páscoa uma série de tweets sobre a chegada de migrantes à fronteira com o México.

Trump responsabiliza o Partido Democrata e o Governo mexicano por uma vaga “perigosa” de imigrantes ilegais, ameaçando impedir um possível acordo sobre o Deferred Action for Childhood Arrivals (DACA), o programa federal para impedir a deportação de jovens e crianças sem documentação que foram levados para os EUA. Apontou culpa às leis “liberais” que impedem os agentes fronteiriços de fazerem o que lhes compete.

Um dia depois, a Casa Branca anunciou um maior patrulhamento da fronteira até que o tão prometido (e polémico) muro seja construído. “Se (a caravana) chega à nossa fronteira, as nossas leis são tão fracas e tão patéticas que é como se não tivéssemos fronteira. Precisamos de um muro que meça entre 1100 e 1300 quilómetros”, disse Trump.

VICTORIA RAZO/ Getty Images

Após as declarações de Trump, o caminho dos refugiados e migrantes tornou-se mais complicado e as autoridades apertaram o cerco. Durante alguns dias, o grupo esteve barrado num campo de futebol em Oaxaca. Cerca de 400 pessoas já foram detidas e deportadas para os países de origem.

Santos, o filho, os netos e muitos outros deveriam chegar à fronteira com Estados Unidos a partir desta quinta-feira. Agora, o primeiro objetivo é chegar a Puebla, depois à cidade do México. Daí para a frente, depende de cada um.