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O mestrado polémico da líder do governo regional de Madrid

Chema Moya / EPA

A exclusiva de um diário digital caiu como bomba no panorama político espanhol. Cristina Cifuentes terá obtido o título de mestre com notas falsificadas, entre elas a da tese. Oposição reclama a sua demissão mas a política do Partido Popular desmente tudo

A notícia explodiu como bomba no panorama político espanhol: “Cristina Cifuentes obteve o título de mestrado com notas falsificadas”. Esta foi a manchete de uma investigação exclusiva do jornal digital eldiario.es a 21 de março, que inaugurou o mais recente escândalo político em Espanha.

Cifuentes, do Partido Popular (PP, conservador, do primeiro-ministro Mariano Rajoy) tem o cargo em risco, dado que o Partido Socialista Operário Espanhol já anunciou a apresentação de uma moção de censura. Esta iniciativa tem o apoio do Podemos (P’s, esquerda populista), o que deixa a governante nas mãos do Cidadãos (C’s, centro liberal), graças a cujo apoio governa, uma vez que venceu as eleições regionais de 2015 sem maioria. Se aos 37 deputados regionais socialistas e 27 do P’s se juntarem os 17 do C’s, ou mesmo que estes últimos se abstenham, o PP (48 assentos) não se aguentará.

No plenário desta manhã Cifuentes desmentiu qualquer manipulação no [seu] currículo académico” e acusou a oposição de já ter “um guião escrito”. O porta-voz do C’s no parlamento madrileno, Ignacio Aguado, criticou a governante: “O tempo da impunidade e da utilização obscena das instituições está a acabar”. Ángel Gabilondo, ex-ministro da Educação e hoje líder da bancada madrilena do PSOE, acusou Cifuentes de desprestigiar a Universidade.

Notas alteradas a posteriori

Segundo eldiario.es, a mulher que lidera o governo regional desde 2015 terá sido favorecida durante o mestrado em Direito Autonómico (relativo às 17 entidades territoriais que formam Espanha) na madrilena e estatal Universidade Rei Juan Carlos, numa altura em que era a delegada do Governo central na região da capital. Duas das suas notas finais terão sido alteradas de “Não apresentado” para “Muito bom” dois anos após o fim do curso.

O caso agravou-se quando se percebeu que uma das notas alteradas dizia respeito ao trabalho final do curso, equivalente à tese, indispensável para se obter um título de mestrado e que só pode ser apresentado se o aluno obtiver todos os créditos. Cifuentes reconheceu que se matriculou após ter começado a frequentar o curso.

O problema é que eldiario.es apurou junto de ex-colegas de Cifuentes que esta raramente ia às aulas e realizou testes de várias disciplinas em datas diferentes dos demais estudantes. A Universidade já abriu uma investigação mas ainda não avançou qualquer explicação. Nas últimas duas semanas o assunto tem sido objeto de inúmeros artigos na comunicação social espanhola.

A porta-voz regional do P’s, Lorena Ruiz-Huerta, censurou o que considera ser o “exercício de cinismo” de Cifuentes. “Onde está o trabalho final do mestrado? Como pôde passar sem ir às aulas nem aos exames?”, inquiriu. A seu ver o título da governante é “oficial e real” mas foi obtido de forma “fraudulenta”.

Cifuentes tem entre mãos um escândalo comparável aos que houve em Portugal com o antigo ministro Miguel Relvas (PSD, que se demitiu e perdeu o título) e o ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates. A líder do governo regional nega todas as acusações e afasta qualquer possibilidade de se demitir. A pouco mais de um ano das próximas eleições municipais e regionais, arrisca-se a perder o cargo, que mantém por acordo com o partido Cidadãos, uma vez que venceu as últimas eleições sem maioria.

"Onde está a tese de Cifuentes?"

Esta tem sido a pergunta mais repetida por vários políticos espanhóis da oposição, que na quarta-feira pediram à chefe do governo madrileno esclarecimentos perante a câmara baixa do Parlamento - para uma vez mais verem Cifuentes a negar rotundamente as acusações.

Sem registos de académicos que tenham orientado Cifuentes no seu trabalho final, ou documentos que comprovem que esta apresentou a tese perante juri, a oposição tem reclamado à política do PP que apresente a sua tese e demonstre que obteve o título de Mestrado com aproveitamento e sem favores políticos.

Uma exclusiva do jornal digital "El Confidencial" avançou na quarta-feira que a ata da tese do mestrado que Cifuentes apresentou para justificar a sua inocência tinha sido fabricada: de acordo com este jornal, que cita fontes da universidade em causa, pelo menos duas das três assinaturas recolhidas na ata tinham sido falsificadas. Mais ainda, o "El Confidencial" avançava também que o documento teria sido fabricado apenas horas depois do escândalo ecludir pela mão do "eldiario.es".

O assunto já tem levado a que os principais partidos da oposição, os socialistas do PSOE e o partido de esquerda Podemos, avançem com uma moção de censura à presidente do governo regional de Madrid para forçar a sua demissão.

Por outro lado, o Cidadãos - partido que suporta o Governo minoritário dos Populares - tem tentado esquivar esta possibilidade, apostando antes por apresentar uma comissão de investigação.

Cifuentes interpôs uma ação judicial contra o "eldiario.es"

As revelações que foram constituíndo numerosos artigos exclusivos do jornal online espanhol não foram bem encaradas por Cristina Cifuentes, como seria de esperar. Uma semana depois das informações divulgadas pelo "eldiario.es", a política anunciou que iria apresentar uma ação judicial "contra aqueles que fizeram acusações baseadas em falsidades" - leia-se, o diretor do "eldiario.es", Ignacio Escolar, e a chefe de redação de Política Social do jornal e autora da exclusiva, Raquel Ejerique.

"Temos a verdade do nosso lado. Temos mostrado todos os documentos [que comprovam a informação] e demonstrámos todas as irregularidades e contradições das suas versões. Cifuentes responde com uma ação judicial porque não tem explicações coerentes com as que responder", reagiu Ignácio Escolar no "eldiario.es".

Ainda na quarta-feira, perante a audiência convocada pela Assembleia, Cifuentes voltou a reforçar que não abdicava da ação judicial aos jornalistas que divulgaram as informações que, para a política, supõem uma "violação da privacidade".