Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Quem é Nasim Najafi Aghdam, a mulher autora dos disparos na sede do Youtube?

A sede do Youtube, na Califórnia, que na terça-feira foi alvo de um ataque com uma arma de fogo

JOSH EDELSON/Getty

Nasim Najafi Aghdam foi identificada pelas autoridades californianas como a responsável pelos disparos que, na tarde de terça-feira, fizeram três feridos na sede do YouTube, o maior armazém online de vídeos do mundo. Uma pessoa ainda se encontra em estado grave e Nasim Aghdam, uma mulher iraniana de 39 anos, terá cometido suicídio pouco depois do ataque. A polícia diz que a mulher estava "enervada com as políticas e práticas do Youtube"

Ana França

Ana França

Jornalista

Os motivos podem ainda não estar completamente claros mas a polícia de San Bruno, localidade onde está sediado o Youtube, acredita que Nasim Najafi Aghdam, a mulher iraniana de 39 anos que na terça-feira à tarde disparou vários tiros na sede da empresa ferindo uma pessoa com gravidade, terá agido por vingança. “Aghdam estava enervada com as políticas e as práticas do YouTube”, disse Ed Barberini, chefe da polícia, na conferência de imprensa após o ataque.

Enervada com o quê exatamente? Aghdam mantinha pelo menos quatro páginas na página de vídeos sob o seu nome. Nenhuma delas continua online mas, como tudo na internet, o lastro não desapareceu por completo. Nos canais de Youtube, Aghdam expunha as suas críticas à sociedade de consumo, videos em defesa de um estilo de vida “vegan”, outros onde mostrava as crueldades cometidas contra os animais criados para serem alimento de humanos e ainda alguns sobre cultura iraniana e outros sobre fitness, culturismo mais especificamente. Num artigo de 2009 do San Diego Union Tribune, Aghdam é citada como participante numa marcha pela defesa dos direitos dos animais que se manifestava contra a utilização de porcos em experiências para averiguar o nível de trauma sofrido pelos militares norte-americanos sob tortura. Na altura disse que “os direitos dos animais são iguais aos direitos humanos”.

O Youtube retirou da internet as páginas mantidas por Aghdam mas alguns utilizadores da página conseguiram guardar fotografias dos vídeos e têm-nas republicado. Alguns defendem o que Aghdam defendia, sem defenderem as suas ações violentas e mostraram-se solidários com as queixas que há muito ela vinha publicando quer no Facebook quer no Youtube sobre a “discriminação” de que estava a ser alvo por parte do gigante do streaming. Várias são as vozes indignadas contra as novas políticas do Youtube que impedem alguns utilizadores de conseguirem ganhar dinheiro com a publicidade colocada nos seus vídeos. Isto porque em 2017, uma auditoria interna mostrou que algumas das maiores marcas do mundo estavam a colocar publicidade em vídeos de cariz extremista e racista. O resultado foi que o YouTube retirou de algumas páginas a possibilidade de receberem publicidade de todo, o que alguns utilizadores acreditam que acabou por prejudicar os produtores mais pequenos que, apesar de tratarem temas controversos, não são os verdadeiros extremistas que a empresa devia banir. O Youtube passou a exigir um mínimo de 1000 subscritores e 4000 horas de visualização dos conteúdos num período de um ano antes de ser possível ao utilizador pedir dinheiro pelo seu conteúdo. Uma dessas fotografias tiradas a um vídeo de Aghdam mostra uma legenda onde ela acusa o YouTube de filtrar os seus vídeos, impedindo a subida no número de visualizações.

Desaparecida dois dias

Para todo o resto do mundo o ataque foi uma surpresa mas o pai de Aghdam já tinha informado as autoridades que a sua filha estava desaparecida e que estava preocupado com o facto de ela se poder estar a dirigir à sede do Youtube, apesar de esta ser a cerca de 650 quilómetros da sua casa, em San Diego. Ao jornal Mercury News, o pai de Nasim, Ismail Aghdam, disse que tinha dado a sua filha como desaparecida dois dias antes do ataque dado que ela não atendia o telemóvel há precisamente 48 horas. Nesse mesmo aviso, o pai terá dito que era poderia estar a dirigir-se para a sede do Youtube porque “odiava” a empresa e estava “muito zangada”. O seu irmão Shahran Aghdam disse ao mesmo jornal que a sua irmã “passava a vida a dizer que o Youtube lhe arruinou a vida”. A polícia de San Bruno encontrou Nasim a dormir no carro e entrevistou-a dado que tinham recebido um alerta do seu desaparecimento. Acusados de negligência, o Departamento de Polícia de San Bruno disse que “em momento algum durante a nossa interação de 20 minutos com ela, foi mencionado o Youtube, que ela estava perturbada com a empresa ou que planeava fazer mal a alguém ou a ela própria”. Aghdam disse à polícia que vivia no seu carro e que estava desempregada, o que não é pouco comum nem em Mountain View and Palo Alto, onde a falta de emprego coloca por vezes famílias inteiras nesta situação.

As autoridades confirmaram ainda que Aghdam se tinha deslocado a uma zona de prática de tiro naquela manhã e que uma arma 9mm, registada no seu nome, tinha sido encontrada nas instalações da empresa. A polícia dissolveu as as suspeitas de Aghdam se tivesse dirigido ao Youtube para ferir ou matar o seu namorado, rumor que chegou a circular nas redes sociais.