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Nomzamo Winifred Zanyiwe Madikizela: “aquela que irá enfrentar provações”

WIKUS DE WET/GETTY IMAGES

Em 1969 foi detida e mantida presa durante 17 meses, 13 deles na solitária. Foi agredida e torturada e a experiência “fê-la perceber pela primeira vez o que era odiar”. Winnie Mandela, 81 anos, morreu esta segunda-feira. “Sou um símbolo vivo do que quer que esteja a acontecer no país. Sou um símbolo vivo do medo do homem branco”, disse um dia, ela que foi acusada de ser “politicamente e moralmente” responsável por “enormes violações dos direitos humanos”

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

O seu primeiro nome não poderia ter sido melhor escolhido. Nomzamo significa “aquele que irá enfrentar provações” e foi precisamente disso que se fez a vida de Nomzamo Winifred Zanyiwe Madizikela, conhecida como Winnie, a ex-mulher de Nelson Mandela que tentou - e conseguiu, na maior parte das vezes - continuar o trabalho do antigo presidente de África do Sul quando este esteve preso durante 27 anos, e que viria, em 1991, a ser condenada por ter ordenado ao grupo Mandela United Football Club, cujos membros orbitavam com frequência à sua volta agindo como guarda-costas, para raptar quatro jovens em Soweto, às portas de Joanesburgo. O corpo de um deles, James Moeketsi Seipei, de 14 anos, viria a ser encontrado degolado.

No entanto, a imagem de Winnie e Nelson Mandela a caminhar de mãos dadas e punhos erguidos no dia em que o antigo presidente de África do Sul foi libertado, em 1990, é provavelmente a que mais se destaca na memória coletiva. Os anos anteriores haviam sido de grande afirmação para Winnie Mandela, que o com o marido preso em Robben Island, na Cidade do Cabo, ocupou de certa forma o seu lugar, emergindo como a figura principal da luta contra o racismo e a repressão do regime.

Do mesmo modo que o seu porta-voz, Victor Dlamini, descreveu-a esta segunda-feira como “um dos grandes símbolos da luta e resistência ao apartheid” e sublinhou a sua “luta valente contra o regime”, bem como os sacrifícios feitos “pela liberdade do país”, também Fikile Mbalula, membro do Congresso Nacional Africano (ANC), considerou Winnie Mandela “um grande símbolo da resistência contra um regime brutal”. Já Jeff Radebe, ministro da Energia sul-africano, lembrou que Winnie era carinhosamente apelidada pelas pessoas de “Mãe da Nação”. Também a oposição se rendeu - “Madikezela-Mandela serviu a África do Sul com distinção”, afirmou Herman Mashaba, presidente da Câmara Municipal de Joanesburgo.

Cinco anos depois de Mandela ter sido preso, em 1969, Winnie foi detida e mantida presa durante 17 meses, 13 deles na solitária. Foi agredida e torturada e a experiência “fê-la perceber pela primeira vez o que era odiar”, viria a confessar. Voltou a ser presa anos depois, sem ter sido sequer presente a tribunal, desta vez por cinco meses. Quando saiu, foi levada para Brandfort, uma cidade profundamente conservadora habitada quase exclusivamente por brancos, no estado de Orange Free. Sobre esses tempos na cidade suspeita, em que, e desrespeitando a vontade das autoridades, abria as portas de casa a diplomatas e simpatizantes, bem como a jornalistas estrangeiros ávidos de uma entrevista, e quebrava à descarada regras que só aos negros cabia acatar, como não transpor as linhas imaginárias que separavam brancos e negros em estabelecimentos comerciais e não usar telefones públicos, escreveu no seu livro de memórias publicado em 1984, “Part of My Soul Went With Him”. “Sou um símbolo vivo do que quer que esteja a acontecer no país. Sou um símbolo vivo do medo do homem branco. Nunca tinha percebido o quão enraizado estava este medo até ter vindo para Brandfort.”

Foi já nos finais dos anos de 1980, de volta a Soweto clandestinamente, que Winnie Mandela foi condenada a seis anos de prisão, revertidos posteriormente em dois anos de pena suspensa e uma multa, pelo sequestro de quatro jovens que ela e os membros do Mandela United Football Club, gangue que se fazia passar por um clube de futebol, desconfiavam de ter compactuado com a polícia, passando informação considerada secreta. O chefe do grupo foi acusado de homicídio, depois de provado o seu envolvimento no crime (em 1998, a Comissão de Verdade e Reconciliação, responsável por julgar crimes políticos no apartheid, viria a considerar Winnie “politicamente e moralmente culpada de enormes violações dos direitos humanos”).

Entretanto, o casamento entre Winnie e Nelson Mandela começava a deteriorar-se. Os dois tinham-se conhecido anos antes, em 1957. Winnie, nascida em 1936 em Bizana, na África do Sul, trabalhava como assistente social num hospital em Soweto. Nelson Mandela recorda na sua autobiografia, “Long Walk to Freedom”, a primeira vez em que a viu, em 1957. “Fiquei impressionado pela sua beleza”. Casaram-se no ano seguinte e tiveram duas filhas. Quando, em 1994, Mandela foi eleito presidente do país, foi nomeada ministra-adjunta das Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia, cargo que ocupou durante 11 meses, antes de surgirem as primeiras alegações de tráfico de influências, suborno e uso indevido de fundos do Governo. Foi demitida e, dois anos depois, o casal divorciava-se oficialmente, tendo Mandela alegado em tribunal que a mulher o traíra.

Em 2003, Winnie Mandela voltou a ter problemas com a justiça, tendo sido condenada a cinco anos de prisão por se ter aproveitado da sua posição de liderança à frente da Liga Feminina do Congresso Nacional Africano para obter empréstimos considerados fraudulentos. A sua defesa interpôs um recurso e o tribunal aceitou, considerando que a arguida “não cometeu os crimes para benefício próprio”.