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Jovem que quase escapou à prisão uma primeira vez por “ser demasiado rico” foi libertado

Ethan Couch matou quatro pessoas nos EUA e deixou outra com danos cerebrais para o resto da vida quando, em 2013, decidiu conduzir um carro depois de ter consumido uma quantidade intoxicante de álcool. Foi libertado esta segunda-feira, 720 dias depois de ter sido preso (por violação da liberdade condicional e não pelo crime em si)

Ana França

Ana França

Jornalista

Getty Images

Foi uma estratégia de defesa que deixou as famílias das vítimas, e todo um país, em choque: Ethan Couch escapava à prisão depois de ter morto quatro pessoas enquanto conduzia sob o efeito de álcool, drogas e comprimidos sob o pretexto de ser incapaz de distinguir o bem do mal, por ter crescido numa família abastada. Era um caso de “affluenza”, disseram os advogados. Uma palavra que nos lembra a palavra utilizada em inglês americano para “gripe”, “influenza”, e que tem nela a sua origem. “Affluenza” é um cruzamento etimológico entre “influenza” e “affluence”, que em inglês significa privilégio económico. No dia do julgamento, passou também a ser o que safou o jovem de 16 anos (agora com 20) de ir parar à cadeia por homicídio por negligência - ou sem negligência, como defendia a acusação.

Em junho de 2013, Couch e um grupo de amigos roubaram litros de cerveja de uma loja e dirigiram-se de volta à sua casa, onde fizeram uma festa. Depois de terem consumido de álcool e de outras drogas (as análises revelaram não só consumo de marijuana como também de medicamentos de prescrição médica), Couch e os amigos pegaram num carro e guiaram por uma estrada dos subúrbios de Burleson, Texas, matando quatro pessoas e ferindo nove. Um dos passageiros do carro ficou paralisado e com lesões cerebrais.

Em tribunal, Couch considerou-se culpado de quatro crimes de homicídio involuntário e um juiz do Tribunal de Menores acabou por lhe atribuir apenas uma pena não efetiva de 10 anos, durante a qual teria de ter acompanhamento psicológico de longa duração. Os procuradores pediam 20 anos e as famílias das vítimas consideraram que Couch teria beneficiado da sua condição de jovem de famílias ricas. O debate na altura fez-se à volta da pergunta: teria um adolescente de uma família mais pobre, ou negra, sido tratado com igual leniência? Na altura, a revista The Week titulou: “Ser rico agora é uma espécie de passe para sair da cadeia”.

Porém, nunca ficou provado que “affluenza” tenha sido de facto o que mais pesou na decisão dos juízes. Os advogados de defesa argumentaram que não é incomum jovens menores serem condenados a períodos de internamento hospitalar em unidades de cuidados psiquiátricos em vez de a efetivos períodos de encarceramento e que esta decisão fazia parte de um esforço das autoridades judiciais para que os jovens tivessem uma oportunidade de se “endireitarem” em vez de entrarem diretamente no sistema prisional e saírem de lá com o autocolante de ex-presidiário.

“O Ethan irá agora servir o resto dos seis anos de pena suspensa que lhe restam segundo os termos impostos pelos juízes. Desde o início, o Ethan sempre admitiu a sua conduta, aceitou responsabilidade pelos seus atos e sente remorsos verdadeiros pelas suas ações”, disseram, em comunicado à comunicação social, os advogados do jovem, Scott Brown e Reagan Wynn, que pediram ainda que a sua privacidade seja respeitada “para que Ethan possa completar o serviço comunitário e continuar a sua vida como um cidadão respeitador da lei”.

Ethan Couch podia até não ter tido de enfrentar qualquer pena de prisão mas cerca de dois anos depois de ter sido decretada a sentença, Couch falhou a uma das reuniões com o agente responsável pela sua liberdade condicional, desencadeando uma caça ao homem. Mais tarde foi descoberto com a sua mãe, Tonya Couch, no México e trazido à justiça - e foi para a prisão por violação de liberdade condicional. A sua mãe foi condenada por dificultar a apreensão de um fugitivo e por lavagem de dinheiro. Na semana passada, poucos dias antes da libertação do filho, Tonya Couch foi presa porque falhou um teste de consumo de drogas quando manter-se sóbria era uma das condições da sua liberdade condicional.