Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Venezuela. Sete menores são presos políticos

A tragédia da prisão de Carabobo gerou revolta e angústia FOTO Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

FOTO Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

Apesar de ter ordem de libertação há mês e meio, Dylan Canache, detido aos 15 anos, continua incontactável

Daniel Lozano, correspondente em Caracas

Os presos políticos acumulam-se na Venezuela. A organização cívica Foro Penal, que os defende, refere 240, a que se somam 7186 acusados sob medidas cautelares e 30 pessoas num estranho limbo jurídico.

A lista negra do chavismo aumentou este ano com um grupo de militares acusados de conspiração e traição à pátria, e sete menores, o elemento surpresa de 2018. A UNESCO pediu informação aos tribunais e recebeu a mesma resposta que os advogados e famílias dos cinco rapazes e duas raparigas em causa: receberam ordem de soltura do juiz mas o Serviço Bolivariano de Informações (Sebin) nega-se a abrir-lhes as celas.

Dylan Canache tornou-se símbolo deste atropelo. Tinha 15 anos quando se enrolou na bandeira da Venezuela e se juntou aos protestos antigovernamentais de 2017. Numa manifestação cruzou-se com o dirigente opositor Henrique Capriles e o vídeo que gravaram deu a volta ao mundo nas redes sociais. “Tens 15 anos, põe-te a pau”, avisou o ex-governador, perante a repressão que matou mais de cem pessoas. O adolescente aparece a dizer palavras de ordem (“Não às eleições” marcadas pelo Presidente Nicolás Maduro, ou “Vamos entrincheirar-nos aqui até ao amanhecer”). Era a racionalidade do político contra o entusiasmo do rapaz, tão pequeno que às vezes desaparece da imagem filmada com telemóvel.

Capriles tinha razão: Dylan está preso há 76 dias num calabouço da Helicoide, sinistra sede do Sebin em Caracas. Montaram-lhe uma armadilha a 14 de janeiro, usando a sua amiga Betzaida Martínez, de 17 anos, também presa. Se não estivesse na cadeia, Dylan estaria a terminar o ensino básico no Liceu Cardenal Quintero, no leste de Caracas, e a desenhar, cantar rap e andar de skate, a sua grande paixão. Vídeos do YouTube e prémios testemunham a sua perícia. “É muito carismático, gosta de desportos radicais”, conta a mãe, Ana Figuera, que vai todos os dias à Helicoide levar-lhe bolachas e sumo. Não a deixam ver o filho. “No tribunal dizem-me que tenho de esperar”, apesar da ordem de soltura emitida há mês e meio. “O seu único delito é não gostar deste Governo.”

Na sede do Sebin batizaram-nos como Grupo dos Dez. Dylan divide a cela de 10 metros quadrados com Andrés Aserraf, de 17 anos. No cubículo, de “péssimas condições de higiene, com pouca iluminação e ventilação, sem água potável, com ratos e baratas”, segundo organizações de defesa dos direitos humanos, estão ainda Diego Gomes e Ender Jesús González, que fizeram os 18 anos na cadeia e não veem a luz do sol desde janeiro.
A mesma rotina sofrem outros seis jovens maiores de idade. Estão incomunicáveis e separados das raparigas, Betzaida e Elianys Rodríguez, de 16 anos, também na Helicoide.

68 mortos em Carabobo

O sétimo menor, Nathael Medina, é o único que está detido fora de Caracas, no comando de polícia de Táchira, numa situação que se pode tornar parecida com a dos 68 reclusos que perderam a vida esta semana na esquadra de Carabobo. Presos comuns e duas mulheres que estavam de visita morreram por queimadura ou asfixia depois de um motim e incêndio.
Os denunciantes asseguram que na Helicoide há maus-tratos psicológicos e físicos, como golpes com pistolas e tábuas na cabeça. “Vários reclusos apresentam problemas de saúde”, garante a Operação Liberdade Internacional, ONG que lançou um alerta mundial para os abusos que rodeiam a prisão de Dylan. O que faz um menor numa cela de presos políticos? Porque partilha a prisão com maiores? De que é acusado? Porque não foi libertado, 45 dias após a respetiva ordem?

Há 30 pessoas na Venezuela (18 na Helicoide) que têm ordem de libertação mas continuam presas, pelo que o Foro Penal não as incluiu na lista de 240 presos políticos enviada esta semana à Organização dos Estados Americanos, que tem criticado o regime de Maduro. O facto, porém, é que continuam a ser presos.

“O diretor do Sebin [general] Gustavo González nega-se a obedecer aos tribunais e não apresenta os presos aos juízes”, denunciou a deputada Delsa Solórzano, vice-presidente do Comité de Direitos Humanos da União Interparlamentar. Há casos emblemáticos como o de dois polícias de Chacao, presos desde 2016.

O que pretende a revolução com esta política repressiva? “Efeito intimidatório”, defende Alfredo Romero, diretor executivo do Foro Penal. O método escolhido é prender e perseguir deputados, dirigentes opositores, militares, estudantes e até menores de idade, a quem violam todos os direitos.