Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“O vazio deixado pelos EUA é uma oportunidade”

Rebeca Grynspan, secretária-geral ibero-americana

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

texto

Editor da Secção Internacional

Nuno Fox

foto

Fotógrafo

NUNO FOX

Nascida há 62 anos na Costa Rica, filha de judeus polacos imigrados, a secretária-geral ibero-americana coordena as cimeiras que reúnem países latino-americanos, Espanha e Portugal, em prol da cooperação e dos laços históricos e culturais. A terminar o seu mandato de quatro anos, que deseja renovar (a decisão será tomada este ano pelos 22 países ibero-americanos), Rebeca Grynspan defende que o mundo precisa de uma presença maior da Europa e da América Latina.

Há dias, no Twitter, exaltava a luta pela igualdade entre homens e mulheres. Como vê o panorama atual?
Avançámos muito e durante anos pensámos que as coisas iam sempre progredir, mas há forças em sentido contrário. O que constato é uma renovação do movimento pelos direitos das mulheres, com mais jovens, que talvez julgassem que estava tudo feito. As marchas de 8 de março em todo o mundo ou o movimento #MeToo despertaram o interesse das jovens, porque a luta ainda não acabou. Interessa-me a inclusão económica das mulheres, vencer os obstáculos à sua integração plena no mercado laboral e em cargos de chefia, pôr fim à brecha salarial. Na América Latina há um dado surpreendente: quanto maior o nível de educação, maior a brecha salarial.

Isso é contraditório…
Melhor educação garante melhor emprego, mas nesses empregos as mulheres ganham menos do que os homens. É preciso apostar na conciliação entre trabalho e família. O mercado laboral tem de assimilar que os seres humanos se reproduzem e têm de cuidar de filhos, idosos, doentes e incapacitados. Falo de conciliação entre trabalho e família, não trabalho e mulher. Os homens têm direito ao afeto e a cuidar, e não como ajudantes. É uma mudança cultural que as novas gerações exigem. Precisamos de melhores leis e de responsabilizar a sociedade, porque a família não é um ente isolado. Se uma mulher está grávida, toda a sociedade está grávida. Os sindicatos têm de estar muito mais conscientes disto.

Como defender estes e outros valores numa esfera de países tão díspares?
Se há coisa que a Ibero-América aprendeu é que as divergências se resolvem através do diálogo. Somos uma região de paz (que não é ausência de conflito, mas saber lidar com ele). Se temos diferendos fronteiriços, recorramos aos tribunais internacionais e não à guerra. A longa história de conflitos e ditaduras gerou a consciência de que é preciso falar, negociar e cooperar. Construímos uma plataforma de cooperação solidária e horizontal. Todos os países têm uma voz decisiva.

Não há guerra declarada na América Latina, mas abundam a violência e o crime.
Os atos e formas de violência têm de ser tratados como doenças. Precisamos de melhor diagnóstico e informação sobre os delitos que provocam insegurança cívica, para não estarmos a usar um canhão para matar moscas. Isso requer capacitação dos sistemas policiais e cooperação dos serviços de informações regionais, porque o crime organizado é transfronteiriço. E, claro, a intervenção do sistema de justiça, para remover incompatibilidades que potenciam a impunidade.

Crises prolongadas como a da Venezuela — ou a tensão no Brasil, não apenas com o assassínio da vereadora Marielle Franco — não ajudam.
Em termos económicos, o Brasil vai sair da crise, está com crescimento após anos de contração, e isso tem repercussões políticas e sociais. Em relação à morte da vereadora, temos de aguardar pela investigação, mas a mobilização não deixa dúvidas: a sociedade civil é menos tolerante à impunidade, à corrupção e à desigualdade. Isso vai levar-nos a um lugar melhor e a morte de Marielle não vai passar inadvertida. Democrata convicta, penso que a sociedade e a economia avançam mais depressa do que as instituições. Estas vão ter de dar um salto.

A mobilização tem hoje instrumentos poderosos, digitais, mas eles também podem ser usados para fins perversos.
É verdade: para desinformar e espalhar rumores. Mas no caso do Brasil, assistimos a uma mobilização cívica que põe fim a qualquer tentativa de desviar a luta. Há um ponto de interrogação, como em qualquer encruzilhada, mas tenho esperança de que isto aprofunde a democracia na região.

Mesmo com a atual administração nos Estados Unidos?
Afeta-nos, é claro. É um país muito importante. Mas o vazio de liderança deixado por Washington é uma oportunidade para a Europa e a América Latina, que continuam a apostar em valores como abertura, integração, diálogo e multilateralismo. Não queremos virar costas ao mundo.

Assolada por demagogos e populistas, a Europa estará à altura desse desafio?
O mundo precisa de mais Europa, não de menos. O ‘Brexit’ foi uma chamada de atenção, que mostra que a Europa tem de renovar o compromisso consigo mesma. Em relação à América Latina, há três processos de negociação em curso: Mercosur, acordos com Chile e México e cooperação com Cuba. Eis um pacote muito forte que pode dar um sinal de aliança.

Em que medida as suas raízes multiculturais, polacas e judaicas, ajudam no seu trabalho?
“Diferentemente iguais” é o lema da nossa campanha mais recente. Sermos iguais une-nos, sermos diferentes enriquece-nos. O facto de os meus pais terem sido imigrantes num país com outro idioma fez-me compreender, desde cedo, que a diversidade faz parte da vida. Defendo identidades inclusivas que propiciem coesão social, para que nos reconheçamos no outro. Todos somos muitas coisas ao mesmo tempo. As identidades excludentes levam à polarização. Um dado relevante é que nenhum país ibero-americano tem um partido baseado no racismo e na xenofobia. Não é que estes não existam, mas não têm a expressão política que conseguem noutras paragens.

Que papel teve Portugal no mundo ibero-americano durante o seu mandato?
Foi um enorme aliado. Vim cá na semana em que fui eleita, em 2014. O apoio foi sempre irrestrito. Prometi lutar por mais equilíbrio entre as línguas portuguesa e espanhola e julgo ter cumprido. O país está sempre representado nas nossas cimeiras ao mais alto nível: Presidente, primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros. Portugal ultrapassou as minhas expectativas, com uma visão estratégica partilhada pelos dois governos portugueses, muito diferentes um do outro, com que trabalhei.

Está pronta para mais quatro anos?
Sim! Mas tem de perguntar aos países… estou muito entusiasmada. Construímos um espaço próximo das pessoas, do laboratório de inovação cívica, o programa de mobilidade estudantil, o compromisso com os estágios. Cerca de 70% dos que participam nos nossos programas são jovens. Para lá da cimeira de presidentes, que é o evento máximo, há um esforço de chegar aos cidadãos, apesar da distância física.