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“A tarefa principal agora é contar”

O autor de "Pátria", um romance sobre o terrorismo no País Basco e sobre o seu efeito nas famílias, teve uma perspetiva ao mesmo tempo próxima e distante (ele considera-a "quase ideal") sobre o assunto

Luís M. Faria

Jornalista

Fernando Aramburu nasceu no mesmo ano que a ETA: 1959. Essa coincidência, de certa forma, predestinou-o. Ele passou a juventude a assistir ao crescimento da organização e aos horrores da sua luta contra o Estado espanhol. Como muitos bascos, deixou o país durante a juventude, mas no seu caso não foi por razões políticas ou de segurança, e sim por amor. Apaixonou-se por uma mulher alemã, com quem vive há décadas.
Durante todo esse tempo, manteve um contacto constante com a sua terra, quer através de cartas e outras comunicações, quer de visitas frequentes. Diz que a sua situação lhe deu a perspetiva quase ideal: ao mesmo tempo próximo e a ver de cima, como um jogador de xadrez. O fruto maior dessa visão apareceu há dois anos, sob a forma do romance "Pátria", onde ele conta a história de como a ETA e o terrorismo separaram duas família e dividiram cada uma delas, antes de se concluir (ou melhor, se intuir) um princípio de reconcliação.
"Pátria", que venceu vários prémios importantes, foi agora lançado em Portugal na Dom Quixote, e o autor esteve em Portugal para a ocasião. O Expresso aproveitou para conversar com ele. Fatalmente, a certa altura acabou por se falar da Catalunha, sem isso ser de modo algum o tema principal da conversa. Para que conste, Aramburu diz que os bascos não se deixaram contagiar pela Catalunha, como muita gente temia, e espera que os catalães aprendam algo com o seu exemplo. Desde que os respeitem e lhes respeitem a língua, os bascos manter-se-ão tranquilos.

Qual é o papel da literatura perante uma questão traumática como a da ETA? Em especial quando é ainda uma questão recente...

Creio que a literatura cumpre uma tarefa específica na sua relação com a memoria coletiva. Ela tem outros âmbitos: a imaginação, o sonho, etc. Mas a literatura realista, aquela que tenta converter em textos literários a realidade social, coletiva, prévia, não pode perder de vista que opera com indivíduos concretos - com personagens singularizadas. A sua função é a de salvar para a memória o individual,o privado. Como dizia Balzac, o romance conta a história privada das nações. O que o leitor atual ou futuro encontra no romance não é tanto o que se passou mas como se viveu isso do ponto de vista da individualidade. Como eram as cozinhas, como se comia, etc.

Em Espanha, essa tarefa já foi feita em relação à ETA -e anteriormente, à Guerra Civil?

Não. Essa tarefa é coletiva, e na verdade podia ter sido maior. Eu creio que será maior. A guerra civil continua a ser um tema literário em Espanha, abordada por escritores que não a viveram.

Javier Cercas, por exemplo.

Sim. Bom, Cercas tem alguma história familiar, alguma vinculação pessoal. O que sabemos da guerra civil é o que os testemunhos nos contaram. Mas nem ele nem eu a vivemos. Mas da mesma forma, pode-se escrever sobre a Idade Média, o Século de Ouro, as Invasões Napoleónicas...Sobre o que escrevi, tenho uma vinculação pessoal, sim. Uma vivência pessoal.
Nasci no mesmo ano que a ETA, 1959, em San Sebastian. Digo isto para que se saiba que este fenómeno da violência, primeiro durante o franquismo e depois durante a democracia, está muito próximo de mim, dos meus amigos, dos meus vizinhos. Tenho imagens muito concretas de vidros partidos, lojas destruídas, autocarros que ardem, a polícia a disparar. E conheço histórias que aconteceram a pessoas no meu círculo de amizades, na minha família.
Dentro de toda essa história coletiva, há pedaços que eu conheci pessoalmente, que para mim não estão só nos livros, mas eu estava dentro dele.

Alguma vez foi afetado diretamente?

Tocou-me pessoalmente no sentido que eu quis ser tocado pessoalmente. Quando uma pessoa é agredida, sinto-me ligado a ela. E como cidadão democrata, também me sinto atacado quando são atacadas instituições democráticas, jornalistas, etc.

Mas violência contra si próprio...

Não, isso não. Estou aqui vivo (ri).
Era algo que se sentia no dia a dia. Não gosto de falar do meu caso pessoal, que é pequeno. Nem eu nem ninguém da minha família direta fomos afetados, felizmente. Eu venho de uma família bastante humilde, sem destaque público nem político.

Como é que a sua família vivia a situação? Eram pró-ETA, contra a ETA...

O meu pai era operário, a minha mãe doméstica. Eram pessoas de um nível cultural modesto, trabalhadoras, que não se metiam na política.

O sentimento antiespanhol era muito generalizado no País Basco?

Era e continua a ser. Mas isso é uma coisa, e a violência é outra. A generalidade das pessoas não punham bombas. O uso da violência para impor ideias indigna-me.

Por que é que havia esse sentimento, ou ressentimento, contra Espanha?

Tem uns 120, 130 anos, e nasce de guerras civis antigas. O basco considerou em certos momentos - durante o franquismo, por exemplo - que a sua identidade, nomeadamente o seu idioma, estava em perigo. Podia-se falá-lo mas não aprendê-lo nas escolas, não era falado na televisão. Muitos bascos sentiam que Espanha estava a oprimi-los. E então surgiu um movimento contra essa opressão.
Eu acho que sempre que forem respeitadas duas condições o conflito baixará de intensidade. Uma, que o basco se possa governar a si mesmo, ter as suas próprias leis, como as teve quando estava unido a Castilha. Não gostamos que nos mandem normas a partir de fora.
A outra condição para o basco é que o seu idioma, as suas tradições e costumes, não estejam em perigo. Se isso verificar, o basco não reclama a independência. Segundo as últimas sondagens, os adeptos da independência são menos de 20 por cento. Em contrapartida, o nível de autogoverno é muito alto, e não se sente que haja nenhuma opressão linguística.

E é uma região próspera.

Sim, como a Catalunha. São rebeliões de ricos.

Já que fala da Catalunha, o que acha da situação lá neste momento?

Faz-me muita pena. Uma parte da população catalã não aprendeu com a triste história dos bascos. É triste que se tenha produzido uma fratura social. Não uma fractura entre a Catalunha e o resto de Espanha. Eu tenho amigos que não se falam entre eles, famílias destruídas. É um bocado triste. Tenho esperança de que, agora que o nacionalismo catalão se deu conta de que havia um limite, e sem renunciar às suas convicções, perceba que fora da democracia está o Inferno.

Voltando à ETA, a partir do momento em que ela designava alguém como alvo, como acontece com um personagem do seu livro, de certa forma a pessoa morria naquele momento.

Sim, a partir do momento em que alguém era designado como inimigo pela ETA. havia um processo gradual de eliminação. Era uma ostracização progressiva. Havia pressão para deixar de falar à pessoa, de a saudar... Havia ameaças. Por ultimo, avisava-se a pessoa de que a comunidade não a queria lá. Ou a pessoa partia - e muitos fizeram-no - ou passava-se à eliminação física.

Em 2011, a ETA fez a sua declaração final de cessar-fogo e a guerra terminou. Esse é o momento em que começa o seu livro. Mas como ele mostra e aliás seria de esperar, os traumas não acabaram. Como vê a situação neste momento?

A condição principal é que já não há violência. Quando não há violência, podem-se começar a reconstuir os laços. Os novos não sabem, os velhos vão morrendo. As paredes estão limpas, não se veem pichagens. Às vezes há algum tumulto quando um ETA é libertado da prisão, por exemplo, e o recebem com bailes, festas... Mas existe paz social. A tarefa principal agora é contar, não deixar que as páginas passem demasiado depressa.

Nunca houve vinganças pessoais?

Não.

Nem sequer vinganças de família?

Não, nenhumas.

Porquê?

Bom, talvez porque os bascos são gente boa, gente humana.

Uma última pergunta. Sem querer trivializar, é fácil compreender o interesse cinematográfico desse tipo de situação. Não surpreende que o seu livro vá dar origem a uma série de televisão, na HBO. Que participação tem nela?

Não me meti, deixei-lhes as mãos livres. Não tenho vocação de inspetor. De qualquer forma, o projeto é de um homem que conheço bem, Aitor Gabilondo. Ele nasceu em San Sebastian e conhece profundamente o País Basco. Foi ele que escreveu o argumento, e já estava tudo a andar quando a HBO apareceu. A HBO fornece financiamento e distribuição.