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Feliz dia da ativação do artigo 50

Mike Kemp/ Getty Images

365, 364, 363. Começou a contagem para 29 de março de 2019, precisamente daqui a um ano e dia em que o Reino Unido terá - mesmo, finalmente, sem volta atrás - de sair da União Europeia. É isto que os apoiantes da saída têm sempre defendido mas o artigo 50 do Tratado de Lisboa é reversível. Além disso, os pedidos para que se realize um segundo referendo não param de aumentar. Numa altura de fratura com a União Europeia, o Reino Unido ainda consegue dirigir uma frente fria contra a Rússia e isso “é prova de que nunca haverá um isolamento total”, diz ao Expresso Paul Copeland, professor de relações internacionais da Queen Mary University, em Londres

Ana França

Ana França

Jornalista

Estamos a 29 de março, o dia em que o Reino Unido eventualmente terá de sair da União Europeia, exatamente daqui a um ano. Está muito por fazer e muito do que já foi acordado com os parceiros europeus por Theresa May não agrada a quem votou pela saída. Fatores como a imigração, cujas restrições prometidas não foram conseguidas em Bruxelas, os subsídios para sectores como a agricultura e as pescas, as contribuições para o orçamento da UE e o preço do “divórcio” estão em contencioso.

O diário “The Guardian” fez uma lista de 11 promessas não cumpridas que, ao mesmo tempo, se transformam nas principais razões pelas quais as pessoas votaram para sair. Os 350 milhões de libras (400 milhões de euros) que seriam libertadas para o Serviço Nacional de Saúde excedem em muito o extra que ficará disponível depois da saída, a promessa de David Davids, ministro para o Brexit, de que durante o período de transição no pós-Brexit o Reino Unido não ficaria sob alçada das decisões dos outros 27 membros quando de facto terá de ser sujeito a elas, a crença de que o acordo sobre as relações comerciais ficaria finalizado antes do período de transição também não se concretizou. Além disso, o Reino Unido concordou em honrar os seus compromissos orçamentais com a UE até 2020, um total de 45 mil milhões de libras (ou 51 mil milhões de euros).

Mas no meio de tantas questões por resolver, este mês de março reforçou pelo menos uma coisa: nas áreas da defesa e da cooperação diplomática será praticamente impossível que o bloco funcione sem os britânicos e vice-versa. “Com um cenário de Brexit pode parecer muito estranho que o Reino Unido ainda consiga comandar uma resposta tão rápida e tão unificada dos restantes países europeus, mas é porque em questões de defesa, serviços de informações e diplomacia não haverá nunca uma cisão”, diz ao Expresso Paul Copeland, professor de relações internacionais da Queen Mary University, em Londres.

“Esta ideia de que estamos quase a ‘sonambular” de encontro a uma guerra é ficcional porque nós dependemos da Rússia para gás e petróleo - ainda que uns estejam mais dependentes que outros, como a Alemanha, a Polónia ou os Bálticos. Historicamente sempre têm tido muita cautela e uma das formas que eles têm de demonstrar descontentamento e união é esta: expulsão de diplomatas, muitos considerados espiões”, diz o especialista, que considera esta uma resposta “maioritariamente simbólica” e uma forma de “fazer alguma coisa sem fazer uma grande coisa”.

Britânicos pró-UE e anti-Brexit continuam a exigir nova consulta sobre a saída

Britânicos pró-UE e anti-Brexit continuam a exigir nova consulta sobre a saída

DANIEL LEAL-OLIVAS

Esta demonstração de união e unidade, desencadeada pela tentativa de assassinato do ex-espião Serguei Skripal na cidade britânica de Salisbury, expondo mais de uma centena de pessoas a uma arma letal, proibida e de destruição maciça, chega numa altura em que a União Europeia em particular, e o mundo ocidental no geral, têm “mais medo da Rússia”, diz Paul Copeland, por culpa das “intervenções informáticas nos processos eleitorais”, fator que elege como o mais grave de todos os “ataques” russos ao Ocidente, porque é uma “potencial interferência direta” nas democracias do Ocidente.

Também Natalie Nougayrède, analista política do “The Guardian”, escreveu que, neste contexto de frente unida, o Brexit parece “ainda mais absurdo”. Nougayrède argumenta que tanto a Alemanha como a França foram decisivas nesta onda de protesto contra a Rússia, que teria sido necessariamente menos abrangente se May não tivesse pedido apoio a Angela Merkel e Emmanuel Macron. “Enquanto um ataque muito próximo de terrorismo se passava no Reino Unido, os líderes da diplomacia europeia notaram de novo que o Brexit é um absurdo. A autoinfligida vulnerabilidade está visível aos olhos de todos”, escreveu.

epa

Divórcio pouco vinculativo

Muitos analistas não acreditam sequer que o divórcio do Reino Unido com a União Europeia seja assim tão vinculativo - ou que, vindo a ser, se consiga nesse período de transição de 21 meses. "Não é tempo suficiente para nos desenvencilharmos de 40 anos de alianças políticas, sociais e económicas. Mesmo com a maior boa vontade do mundo - que não é o espírito com o qual têm sido conduzidas estas negociações - não aconteceria”, disse ao “Chicago Tribune” Rob Ford, professor de Ciência Política da Universidade de Manchester. Do outro lado do canal da mancha, o representante do Parlamento Europeu para as negociações do Brexit, Guy Verhofstadt, elencava, no início da semana passada, algumas das pastas que ainda não estão fechadas: as milhas de pesca que serão devolvidas ao Reino Unido, os termos na aviação dentro e fora do espaço europeu, parcerias académicas em centros de investigação ou em programas como o Erasmus são alguns exemplos. Os britânicos estão assustados com as tarifas que possam ser acrescentadas aos seus voos ou se poderão de todo voar da Europa para Londres (a alternativa será aterrar em Dublin), com os direitos dos seus cidadãos que vivem em países europeus e até com os acordos para o transporte de material radioativo que podem deixar os hospitais britânicos com restrições nos tratamentos deste tipo.

As dúvidas quanto ao futuro dos europeus residentes no Reino Unido estão mais esclarecidas que no início deste processo: até ao fim do período de transição (dezembro de 2020), tudo se mantém igual. Isto é: viaja-se sem restrições e é possível permanecer como residente tendo apenas que, passados cinco anos, apresentar provas desses cinco anos de residência.

Enquanto isso, Theresa May anda em “campanha” pelo Reino Unido. Foi visitar fábricas, hospitais, creches, pescadores, com a promessa de que será capaz de unir os britânicos depois do Brexit. “O Brexit dá-nos um sem número de oportunidades. É do interesse de todos unirmo-nos e aproveitar todas estas oportunidades que o futuro nos trará.”