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Trabalhador de embaixada francesa acusado de tráfico de armas em Israel

AMIR COHEN/ reuters

Segundo amigos de infância, ele era uma pessoa simpática que foi para Israel porque queria viajar e ganhar dinheiro

Luís M. Faria

Jornalista

Não faz sentido, dizem vários amigos de Romain Frank. “Ele foi manipulado”. Parece ser este o consenso entre pessoas de Laventie (Pas-de-Calais) que cresceram com esse francês de 24 anos ou o conheciam bem. “Era bom rapaz”, diz um amigo dele, Mike. “Queria ser bombeiro e foi a Israel para viajar um bocado e conhecer o país. E sobretudo para ganhar algum dinheiro a fim de poder voltar, comprar uma casa e tornar-se bombeiro”.

Se eram essas as ambições de Frank, não deverão ser realizadas tão cedo. A 15 de fevereiro, o jovem contratado da embaixada francesa em Telavive foi preso pelo Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel, quando se encontrava ao volante de um carro em Erez, na fronteira com Gaza. As autoridades acusam-no de participar num esquema de tráfico de armas, crime que lhe pode valer muitos anos numa prisão israelita.

“É um assunto sério, pois Israel faz todos os possíveis para impedir os palestinianos de arranjarem armas”, disse ao site Europe 1 um professor de história chamado Vincent Lemir. “Falamos de 70 armas, uma quantidade importante. E o mais inquietante é que entre elas pode haver que seja usada, por exemplo, para matar um polícia israelita. A França vai ter de ser discreta”.

Motivos económicos

Embora Gaza esteja sujeita a um bloqueio por Israel há mais de 10 anos, desde que o Hamas ganhou as primeiras eleições livres no território, sabe-se que não é difícil arranjar lá armas. Um dos canais, tradicionalmente, são os túneis secretos que Israel destrói periodicamente (o Egito faz o mesmo, com mais discrição).

Além de motivos políticos, também há os económicos. As armas são muitas vezes levadas para a Faixa Ocidental, onde tendem a valer mais. Segundo a acusação israelita, foi justamente por dinheiro que Frank se envolveu naquela atividade arriscada. Ao longo de meses, pelas cinco entregas que fez, terá recebido cerca de 4500 euros.

AHMAD GHARABLI/AFP/Getty Images

Ao que parece, quando Frank foi preso, não havia armas no veículo diplomático que conduzia. Mas os serviços israelitas já tinham muita informação sobre ele, e durante o mês que esteve preso antes de o caso ser publicamente anunciado qualquer informação que pudesse faltar deve ter sido recolhida.

Além de Frank, foi presos oito homens, na maioria palestinianos, que alegadamente fariam parte da mesma rede. Israel diz que as armas – 70 pistolas e 2 espingardas, no total - eram entregues a Frank por Zuheir Abed Abdeen, um palestiniano que trabalhava no Centro Cultural Francês em Gaza, e levadas até à Faixa Ocidental, onde eram compradas por traficantes.

Um advogado famoso que aceita causas difíceis

Para efetuar essas operações, Frank valia-se dos seus privilégios diplomáticos. Embora não seja clara a sua exata situação pessoal em termos de imunidade diplomática, é sabido que os controles fronteiriços são muito menos severos para pessoal diplomático acreditado. Segundo informações da imprensa francesa, mesmo antes de a sua carga passar a incluir armas, o jovem francês já antes transportava valores para Abdeen.

A rede seria dirigida por Mahmad Jamil al-Haladi, um residente de Gaza, e envolveria ainda um empregado israelita do consulado francês em Jerusalém. Este homem viajava com Frank até à Faixa Ocidental para entregar as armas. Na fronteira, eles declaravam que só tinham bens pessoais no carro..

AMIR COHEN/reuters

“Este é um incidente muito grave em que a imunidade e os privilégios concedidos às missões estrangeiras em Israel foram cinicamente explorados para contrabando”, disse um funcionário do Shin Bet.

O jovem francês que já no seu país tinha fama de simpático e sempre disponível poderá agora um futuro menos risonho à sua espera. O seu advogado é o famoso Franck Breton, conhecido por defender - muitas vezes com sucesso – causas extremamente difíceis. Outro dos seus clientes atuais é Salah Abdeslam, um dos autores dos ataques que mataram 130 pessoas e feriram quase 400 em novembro de 2015 em Paris.