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“O maior desafio dos professores tem a ver com as expectativas que a sociedade criou sobre eles”

Mailis Reps, ministra da Educação na Estónia

Ints Kalnins/ reuters

Em entrevista ao Expresso, a ministra da Educação da Estónia, Mailis Reps, explica como é que um pequeno país, com um PIB per capita ligeiramente inferior ao de Portugal, conseguiu entrar para a ribalta dos sistemas educativos

Os alunos da Estónia brilharam na última edição dos testes PISA – a maior avaliação internacional em matéria de Educação, conduzida pela OCDE –, conseguindo nas provas de 2015 o melhor resultado na Europa na literacia científica (3º no total de 72 países e economias participantes), à frente da vizinha Finlândia. A matemática foram apenas superados pelos colegas de 15 anos suíços (9º lugar no ranking global) e a leitura alcançaram o terceiro melhor desempenho na Europa (6º mundial).

Mailis Reps esteve quinta e sexta-feira em Lisboa a participar na Cimeira Internacional sobre a Profissão Docente, que juntou quase duas dezenas de delegações, compostas por ministros e responsáveis pelas políticas educativas, líderes das maiores estruturas sindicais e peritos de países com bons resultados no PISA ou que se distinguiram pela evolução nos últimos anos.

Como explica o sucesso dos alunos da Estónia nos testes de literacia do PISA (Programme for International Student Assessment)?
Fizemos um esforço muito grande para fazer diminuir o impacto do contexto socioeconómico das famílias no desempenho dos alunos. E o que o último PISA mostra é precisamente que os os estudantes de backgrounds mais desfavorecidos são dos que têm melhores resultados comparando com os colegas dos restantes países da OCDE com as mesmas condições sociais, económicas e culturais. Ao longo de toda a escola – dos 7 aos 18 anos – os alunos têm direito a transporte gratuito, para que o facto de viverem mais longe não condicione o acesso às melhores escolas, aos livros e materiais escolar, às refeições. O princípio é o de que todos têm acesso grátis e não apenas os mais necessitados, para que não haja diferenciação os que mais precisam e os que têm mais recursos. Também as atividades extracurriculares são gratuitas ou quase e tenta-se que tenham uma relação com as atividades do currículo. Um aluno que esteja com dificuldades a matemática pode, por exemplo, participar num clube de robótica e ganhar o gosto pela ciência. Ou destacar-se nalguma desportiva ou artística e assim ganhar motivação.

Um aluno que esteja com dificuldades a uma disciplina recebe algum apoio adicional?
Se algum aluno precisa mesmo de uma atenção especial pode ter acesso a um programa individual, que pode incidir sobre uma ou várias disciplinas e em que passa a trabalhar em pequenos grupos ou até sozinho com o professor. A escola recebe um apoio financeiro específico para isso. Temos feito um grande esforço nesta área, e também temos investido bastante dinheiro, devo dizê-lo, nestes apoios. Há até quem critique o sistema por entender que os miúdos com dificuldades estão a receber muito mais atenção do que os outros.

Outro dos países que mais sucesso tem tido nos testes internacionais é a Finlândia, que fica a duas horas de ferry-boat da Estónia. A questão cultural tem uma influência decisiva na preocupação e no interesse com que a educação é encarada neste países?
Quando começámos a implementar as nossas reformas olhámos muito para o que a Finlândia estava a fazer. Esta atenção aos alunos que mais necessitam e toda a política de apoios tem a ver com o modelo social finlandês. Nos últimos anos temos trocado mais experiências e aprendido uns com os outros, nomeadamente na área da inovação, da introdução dos recursos digitais na sala de aula, do empreendedorismo dos alunos. E damos muito autonomia às escolas. O currículo é bastante estruturado, mas as escolas e os professores têm margem de manobra para acrescentar muitas coisas. Definimos o que é essencial atingir, mas como chegam lá, com que métodos, com que materiais, com livros ou só com computadores, tudo isso depende unicamente da escola. O que queremos garantir é que os professores façam as suas escolas, que conheçam as possibilidades e que tomem as suas decisões informadas. Mas, por outro lado, o sistema continua a ser muito conservador.

Nesta conferência internacional sobre os professores, uma das questões em cima da mesa tem a ver com a importância de ter uma classe profissional satisfeita, motivada e reconhecida pelo seu trabalho. Como é vista a profissão do professor na Estónia?
Tal como em Portugal, os professores sentem que a sua profissão não é valorizada pela sociedade. É um dos valores mais baixos na OCDE. Mas a situação mudou nos últimos 10 anos e hoje a sociedade reconhece a importância deste profissionais. Tenho esperança que no próximo inquérito da OCDE sobre os docentes essa evolução esteja repercutida na opinião dos próprios professores. Em termos de salários, temos tentado que o ordenado se mantenha na média daquilo que é pago nas profissões que requerem uma qualificação superior. A carreira é muito plana: quem entra na profissão recebe cerca de mil euros por mês e o salário mantêm-se relativamente estável ao longo dos anos. Os professores acham que não é um trabalho bem pago, mas têm-se mantido no sistema e essa estabilidade é positiva. Temos muitos na faixa etária dos 50 anos e estes têm feito um trabalho muito bom. Mas para os jovens não é uma carreira muito atrativa, o que é um problema.

Quais são os maiores desafios que os professores enfrentam atualmente?
O maior desafio tem claramente a ver com um conflito de expectativas e com aquilo que a sociedade passou a esperar dos professores. Os pais esperam que os professores consigam tratar cada criança como um aluno único. Se perguntar a um professor o que é mais difícil ele dirá que é estar perante uma turma de 20 alunos, por exemplo, saber que tem ali quatro ou cinco grupos diferentes, que tem 45 minutos ou uma hora para dar a matéria, adaptá-la aos diferentes níveis e a mesmo tempo garantir que todos mantêm o entusiasmo. Dantes, o professor tinha uma abordagem única e os alunos que não conseguissem acompanhar saíam do sistema ou iam para outras escolas. Agora não. Têm de ajudar os melhores, apoiar os mais fracos, garantir que estão preparados os testes internacionais, dar a matéria mas também prepará-los para um mundo global e digital, discutir questões éticas, trabalhar a sua inteligência emocional, fomentar o trabalho em equipa, a resolução de problemas em colaboração, o seu empreendedorismo. Tudo isto, feito por um professor.

O facto é que já há países com muitas dificuldades em recrutar jovens para o ensino.
É verdade. Há jovens que mesmo querendo ser professores têm medo desse choque entre as altas expectativas da sociedade e o pouco tempo que têm e do desgaste que pode decorrer daí. Há o dilema entre ensinar da maneira que se pensa que é melhor ou simplesmente dar a matéria dos programas. Conciliar as duas coisas não é fácil. Há quem defenda que os currículos devem ser encurtados e que se calhar são ensinados factos que não precisam de ser tratados na aula. Mas depois ninguém cortar nas matérias porque não se quer baixar a exigência ou correr o risco de estar a preparar mal os alunos ou impedir que tenham notas para entrar na universidade. É um debate que tem de ser feito.