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Morreram pelo menos 64 pessoas, incluindo 41 crianças: “Porque é que eles não nos dizem a verdade?”

Epsilon/Getty Images

Aconteceu na Sibéria há mais de 48 horas mas é como se tivesse acontecido agora - porque o que não se sabia na altura praticamente também não se sabe agora. Há inclusivamente dúvidas sobre o real número de vítimas - a este propósito, Putin diz que não tem sentido questionar a veracidade do número oficial de mortes

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

“Porque é que eles não nos dizem a verdade?” Dois dias depois do incêndio que deflagrou num centro comercial na cidade de Kemerovo, na Sibéria, e matou 64 pessoas, entre as quais 41 crianças, quase todas as perguntas continuam por responder: porque é que o sistema de alarme do edíficio de quatro andares estava avariado desde março deste ano, porque é que não foi dado um alerta de evacuação, porque é que os funcionários que poderiam ter prestado auxílio e ajudá-las a sair em segurança foram os primeiros a abandonar as instalações do centro comercial e, finalmente, porque é que as portas do piso onde deflagrou o fogo estavam bloqueadas, conforme denunciou Alexander Bastrykin, presidente do Comité de Instrução da Rússia, a autoridade judicial do país? Outra pergunta que tem sido feita é quantas pessoas morreram de facto, depois de os familiares de algumas vítimas terem acusado as autoridades locais de ocultar o número de mortes e, assim, a dimensão trágica do incêndio.

O presidente russo, Vladimir Putin, visitou esta terça-feira Kemerovo, a cerca de 3.600 quilómetros a leste de Moscovo, e até se reuniu com um grupo de cidadãos indignados, mas não deu resposta a nenhuma das perguntas, pelo contrário. Limitou-se a garantir que não tem sentido questionar a veracidade do número oficial de mortes e aconselhou a população a não valorizar as informações que circulam nas redes sociais.

Sobre a origem do incêndio, Putin disse ter-se tratado de um ato de “negligência criminosa” e prometeu que os responsáveis vão ser “castigados”. “O que se passou aqui? Não se trata de hostilidades armadas. Não se trata de uma fuga de gás inadvertida (...), tanta gente morreu porquê? Por causa de negligência criminosa, de desleixo”, afirmou o presidente russo, em declarações transmitidas pelo Kremlin.

Segundo Vladimir Chernov, vice-governador da cidade, o fogo terá começado no último piso, causado por uma criança que estaria a brincar com um isqueiro num dos trampolins montados num dos espaço de entretenimento infantil ali localizados. O fogo ter-se-á propagado depois às salas de cinema, também no quarto andar, e aos restantes piso do edifício. No entanto, o canal televisivo “Rossiya 24” avançou que na origem do incêndio terá estado um curto-circuito. Também esta questão permanece por esclarecer.

No dia em que Putin se deslocou a Kemerovo, centenas de pessoas saíram à rua em diferentes cidades russas, incluindo São Petersburgo e Moscovo, por causa do incêndio. Umas para prestar homenagem às vítimas, depositando flores e velas em ações de luto pela tragédia em locais emblemáticos, e outras para protestar contra o Governo, a quem se dirigiram com mensagens, escritas em cartazes, como “queremos saber a verdade” e “morreu mais gente!”.

Em Kemerovo, o autarca Iliá Serediuk tentou intervir, mas às suas palavras sobrepuseram-se de imediato os pedidos para que se demita. “Porque é que eles não nos dizem a verdade?”, questionou um dos manifestantes, citado pela agência Reuters. Os números oficiais apontam para 64 vítimas mortais, mas os familiares de algumas vítimas afirmaram ter compilado uma lista com 85 nomes de pessoas que continuam desaparecidas, a maioria delas crianças.

Igor Vostrikov contou à Reuters ter perdido toda a sua família - mulher, irmã e três filhos, de dois, cinco e sete anos. Quando percebeu que estava cercada pelo fogo e incapaz de abandonar o centro comercial, a sua mulher ter-lhe-á telefonado para se despedir. “Não havia pânico. Ela disse-me adeus”, contou o homem, acrescentando logo de seguida: “Perdi tudo. Toda a minha família morreu. Não tenho razões para continuar a viver”.

Segundo Alexander Bastrykin, o presidente do Comité de Instrução da Rússia que denunciou, entre outras falhas, a avaria no alarme do centro comercial, cinco pessoas foram já detidas, incluindo um guarda de uma empresa de segurança privada, que será formalmente acusado “em breve”.