Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Nasceram num mundo diferente, onde “aprendem a esconder-se de balas ainda antes de saberem ler ou escrever”

Noam Galai/ Getty Images

Emma González tornou-se no rosto pela luta contra a facilidade com que uma arma se compra nos EUA. Sobreviveu ao tiroteio na sua escola, em Parkland, onde 17 alunos foram mortos em pouco mais de seis minutos. Este fim de semana, em Washington DC, cerca de 800 mil pessoas ouviram-na. “É o rosto de uma geração”

Pouco mais de um metro e meio de altura e 18 anos. Num dos primeiros discursos em público precisou de subir a uma caixa para ficar à altura do microfone. Mas os 157 centímetros da altura de Emma González são irrelevantes perante a história que tem para contar: Nicholas, Aaron, Jaime, Alyssa, Scott, Meadow, Christopher, Luke, Carmen, Gina, Alex, Peter, Alaina, Martin, Helena, Joaquin e Cara “nunca mais” vão fazer o que queriam, o que costumavam fazer. “Nunca mais”. E foi por eles, por outros e para evitar mais como eles que Emma e milhares de outras pessoas saíram à rua este fim de semana, para “marchar pelas nossas vidas”. Para que “nunca mais” aconteça.

Emma González tornou-se um dos rostos mais reconhecidos na campanha pela regulamentação do uso de armas nos EUA após o tiroteio em massa numa escola em Parkland, na Florida, a 14 de fevereiro – morreram 17 alunos. Nicholas, Aaron, Jaime, Alyssa, Scott, Meadow, Christopher, Luke, Carmen, Gina, Alex, Peter, Alaina, Martin, Helena, Joaquin e Cara. Emma sobreviveu. Desde então as suas palavras correram o mundo.

Salwan Georges/The Washington Post via Getty Images

“Pessoas como a Emma inspiram-me e impressionam-me. O discurso dela foi um dos melhores na manifestação. Teve a coragem de ficar em silêncio em frente a meio milhão de pessoas. Conseguiu manter a postura e contar a história que queria contar. Isso é incrível para qualquer pessoa, mas ainda mais incrível para uma jovem.” Este sábado, Boris Volfson, 33 anos, percorreu a avenida da Pensilvânia, uma das mais importantes em Washington DC. Queria apoiar os alunos que organizaram o evento e protestar contra a falta de controlo na venda de armas. “É demasiado fácil comprar uma arma, não há formação ou avaliação do estado mental. Em Baltimore, onde vivo, há mais de 300 homicídios por ano, numa cidade com 600 mil pessoas. É de loucos”, diz ao Expresso.

A organização estima que tenham participado na manifestação cerca de 800 mil pessoas só em DC. A confirmar-se, foi, segundo o jornal norte-americano “The Washington Post”, o maior protesto na capital. Mas em muitas outras dezenas de cidades o movimento também saiu à rua. Em Boston estava Sarah Kresock, 27 anos.

Representam a juventude norte-americana, que é vítima da violência com armas, mas que ainda não tem o direito de votar por causa da idade. São a geração futura e se têm idade para viver a violência a que estão exposto, também têm idade para expressar as suas preocupações e influenciar a mudança. Mulheres, minorias e agora os jovens estão pela primeira vez a participar verdadeiramente na Democracia”, defende em declarações ao Expresso. “É refrescante ouvir Emma falar e espero que os políticos o façam também.”

Sarah foi com amigos à marcha no sábado

Sarah foi com amigos à marcha no sábado

DR

É tempo de mudar

“Desculpa ter demorado tanto a responder, mas este é um assunto que realmente me preocupa.” Brittany Harvey-Green tem 24 anos e é de Maryland. Levou algum tempo até conseguir explicar-nos o porquê de ter participado na manifestação em Washington DC durante o fim de semana: não sabia que palavras usar e queria ter a certeza que percebíamos o quanto isto lhe importa. “Já chega, alguma coisa tem de mudar. Não podemos continuar a fechar os olhos e fingir que não há nada que se possa fazer. Estes miúdos de Parkland trouxeram-me a esperança de que temos mesmo de lutar pela mudança”.

A geração de Brittany é um pouco mais velha do que a de Emma, que tal como tantos outros jovens dos dias de hoje nasceram após o 11 de Setembro de 2001. Nasceram num mundo diferente, onde “aprendem a esconder-se de balas ainda antes de saberem ler ou escrever”. “Viveram e viram tragédias como as de Newtown, Orlando, Sutherland Springs e Las Vegas [tiroteios em massa] e decidiram que em Parkland seria diferente.”

Apesar da grande adesão à marcha deste fim de semana, a organização continua a planear mais ações - para 9 de abril já estão marcadas mais manifestações. A ideia é não deixar esquecer. “Estamos a tentar correr contra a possibilidade de que algo gigante aconteça, como uma informação qualquer da investigação à Rússia [alegada interferência nas eleições]. Só posso rezar para que não aconteça nada que distraia as pessoas deste assunto. Estamos muito próximos de ser empurrados para baixo do tapete e não podemos deixar que isso aconteça”, explicava Emma González em entrevista à imprensa norte-americana.

Já nada disto interessa”

“Chamo-me Emma González. Tenho 18 nos, sou cubana e bissexual. Sou tão indecisa que nem consigo escolher uma cor preferida e sou alérgica a 12 coisas diferentes. Desenho, pinto, faço croché e bordado, coso – qualquer coisa produtiva que consiga fazer com as mãos enquanto vejo Netflix.” O retrato é feito por Emma, num artigo que escreveu para a “Harper's Bazaar”.

Noam Galai/ Getty Images

O pai chegou em 1968 aos EUA como refugiado de Cuba, é advogado. A mãe é explicadora de matemática. Quando Emma quis rapar o cabelo – que não foi de todo uma decisão política – fez uma apresentação em power point aos pais.

E isto é o pouco que se sabe sobre ela, porque “já nada disto interessa”. Agora, o que lhe importa é mudar.

Ela é o rosto de uma geração que trará a verdadeira mudança a este país. A coragem e a bravura para atravessar as adversidades é tão inspiradora. Representa uma geração que não aceitará um não como resposta, que não será silenciada ou parada”, defende Brittany Harvey-Green.

Emma Gonzalez é finalista do secundário. A 14 de fevereiro, como numa qualquer outra quarta-feira, estava na escola quando Nikolas Cruz entrou no recinto com uma arma e começou a disparar na Escola Secundária de Stoneman Douglas, em Parkland. Esteve o tempo todo fechada numa sala escura, usando a Internet no telefone para perceber o que se estava a passar para lá da porta que a protegia.

Dias depois do massacre, uma professora convidou-a a discursar após a marcha a favor do controlo de armas. Já estava algo habituada a participar em movimentos cívicos, lidera um grupo LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgéneros). “Nos últimos dias falei tanto sobre isto que às vezes sinto que já usei todas as palavras e que nunca vou voltar a falar.”

Mas Emma não precisou de palavras este fim de semana. Bastou-lhe o silêncio.

  • Emma está viva. “Tenham vergonha, tenham vergonha”

    Nicholas, Aaron, Jaime, Alyssa, Scott, Meadow, Christopher, Luke, Carmen, Gina, Alex, Peter, Alaina, Martin, Helena, Joaquin, Cara. Todos eles morreram numa escola da Florida, há uma semana. Assassinados. Emma sobreviveu e tem uma missão