Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Claudia Parzani: “As mulheres devem apoiar mais outras mulheres”

António Pedro Ferreira

Considerada pelo “Financial Times” uma das 10 pessoas que mais fez pela igualdade de género, a Managing Partner da Linklaters para a Europa Ocidental esteve em Portugal para um pequeno-almoço com colegas do escritório de Lisboa. A advogada italiana defende a publicação de listas, por áreas, de mulheres especialistas, para quebrar com a invisibilidade do sexo feminino

Carolina Reis

Carolina Reis

texto

Jornalista

António Pedro Ferreira

António Pedro Ferreira

foto

Fotojornalista

Defende que as mulheres devem combater a invisibilidade através de listas. Que listas são essas?
Acredito que as mulheres, porque tentam encontrar um equilíbrio entre a sua vida pessoal e profissional, não têm uma atitude muito agressiva. E não fazem questão de mostrar aquilo que estão a fazer, tornando-se menos visíveis. Então, o que acontece é que as pessoas que estão nos cargos de chefia começam a queixar-se de que não encontram mulheres para os cargos. Dizem que perguntam a outras pessoas se conhecem mulheres com experiência e nunca há. Isto não é verdade. A ideia das listas é para evitar que se queixem de que não conseguem encontrar mulheres. Podemos ter 50 mulheres especialistas em tecnologia, outras especialistas em governação; no fundo, é uma fonte para mostrar que as mulheres estão cá. É uma ideia para tornar as mulheres mais visíveis. E é útil para os recrutadores.

É hoje mais fácil falar de igualdade de género?
É mais fácil falar porque toda a gente tem consciência das desigualdades, do que significam os tópicos. Mas é difícil criar atenção verdadeira, porque agora há um pico de atenção, que vem com o espaço mediático que o assunto está a ter. E há pessoas que pensam que já está tudo bem. Claro que temos mulheres nos conselhos de administração e em outros lugares de chefia em Itália, mas o trabalho não está todo feito. É muito importante guiar jovens mulheres para as universidades STEM [ciência, tecnologia, engenharia e matemática]. Deixá-las escolher o que lhes interessa.

O Direito ainda é um mundo de homens?
Acho que já não há mundos de homens. Há espaço para todos, precisamos de ter melhores pessoas. Isto significa que os homens têm de ser espertos o suficiente para perceber que têm de ser bons nas suas empresas, e para isso têm de ter um espelho da sociedade. E as mulheres fazem parte da sociedade. Além disso, devem preocupar-se com a sua reputação. As mulheres também têm de estar prontas para levantar a mão e dizer que estão presentes. Porque às vezes é difícil. Precisamos de progresso dos dois lados, de ter consciência de que é uma longa viagem, mas precisamos de toda a gente. Este é um momento de transição.

Qual é a sensação de ser a única mulher na sala, no conselho de administração?
Fiquei tão habituada que se não tivesse o meu nível de consciência elevado teria pensado que é normal. Mantive o meu estilo, que não é muito masculino, sou muito assertiva, uso muito o meu poder, mas sempre fui ‘carinhosa’, o que é visto como uma característica feminina. O que é difícil é dar um passo atrás e perceber que isto não é normal, que ser a única mulher dentro da sala não é normal. É aí que me lembro sempre de usar todo o meu poder para as mulheres que não estão ali representadas.

É mentora de outras mulheres?
Faço uma data de coisas, nunca digo não a um pedido de 15 minutos. Não digo que não a estudantes. Só me comecei a ver como um role model porque estou sempre a aprender. E se ouvirmos os outros, aprendemos sempre alguma coisa.

Uma das consequências da invisibilidade das mulheres é a falta de role models.
Sim. É uma das razões pelas quais vim aqui, pelas quais faço estes pequenos-almoços. Precisamos de mais mulheres que se importem com outras mulheres. Há quem diga que quando morrermos há um lugar especial para as mulheres que não empurraram as outras [risos]. As mulheres devem apoiar mais — e cada vez mais — outras mulheres.

Porque é que as mulheres se apoiam menos que os homens?
Os homens crescem com uma cultura que é como se fosse um jogo de futebol, puxam uns pelos outros. Lutam uns contra os outros e, depois, acaba o jogo e ficam amigos de novo. Em termos culturais, estão super-habituados a trabalhar em equipa e a ajudarem-se uns aos outros. As raparigas crescem com o ballet, com estilo muito mais individualista, e então são ensinadas a lutar umas com as outras por uma data de coisas, a começar pela atenção. Isto é algo que continua no nosso ADN. Os homens crescem com a ideia de que a sociedade lhes pede para terem uma carreira. E que têm de o fazer e usam tudo o que têm em seu poder, e as redes de networking são um desses instrumentos. As mulheres crescem a ouvir que têm de casar e ter filhos. Tem de se retirar a pressão de cima das mulheres e mudar as prioridades da sociedade.

As mulheres não são capazes de fazer networking?
Networking é o número 63 da nossa lista de prioridades, está muito longe de algo que é importante. E estamos erradas. É importante termos uma rede de networking, isso significa termos alguém disponível para colocarmos uma questão, uma dúvida. Alguém com quem possamos partilhar decisões difíceis, pessoas que possamos incluir se tivermos de chamar alguém para um lugar de chefia. No fundo, alguém em quem se confie.

Foi por isso que nasceram eventos como este que fez em Lisboa?
Há nove anos, tivemos a maior restruturação de sempre na nossa empresa na Europa e eu era a pessoa-chave da equipa de juristas. Éramos tantos que foi preciso alugar um hotel. E o hotel preparou uma mesa como se fosse para um casamento, e toda a gente que entrava cumprimentava o CEO e dava-me um beijinho, como se eu fosse a mulher dele. Lembro-me que no centro só havia três mulheres, a contar comigo, e olhei para a mesa e pensei que aquilo não era normal. E pensei, tenho o poder para fazer alguma coisa, uma das primeiras coisas foi estes encontros.

Que tipo de feedback recebe das mulheres?
Agora somos mais de duas mil mulheres. Fazemos um destes pequenos-almoços de dois em dois meses. Estamos sempre a alargar a comunidade, é fantástico. De todas as coisas que já fiz — dirigir associações, pertencer aos conselhos de administração de universidades —, sempre achei que era fundamental ter os homens à mesa. Mas também sempre achei que era importante proteger a minha comunidade. Estes encontros são um porto seguro. Porque as mulheres não estão habituadas a ter espaço para elas próprias, e só quando se começam a sentir seguras começam a falar sobre os verdadeiros problemas e a partilhá-los. Abrem-se muito porque esta é a nossa comunidade.

É mãe de três filhas. Como as educa?
São muito conscientes de que o mundo lá fora não é pró-mulheres. Nas últimas eleições presidenciais [em Itália], apareceu na televisão uma infografia com todos os Presidentes da República, e nenhum era mulher. A minha filha mais nova, perguntou: “Mãe, não há mulheres, podes fazer alguma coisa?” Três meses depois, estávamos a jantar com os amigos, e ela disse que ia ser a Presidente da República porque precisávamos mesmo de uma mulher, de alguém que desse bons exemplos. Acho que também as estou a educar com a ideia de felicidade, que o mais importante na vida é sermos felizes. E de poderem fazer o que quiserem — respeitando os outros. Isto é uma questão importante na educação das raparigas.