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Negócios milionários e travão ao inimigo iraniano

Trump recebeu o herdeiro saudita na Casa Branca

FOTO SHEALAH CRAIGHEAD/GETTY IMAGES

Privatização da petrolífera estatal e apoio à modernização na agenda da visita de Mohammed bin Salman

Menos de 48 horas depois de Donald Trump ter recebido na Casa Branca o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, o Departamento de Estado, equivalente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, aprovou a venda de mil milhões de dólares (800 milhões de euros) de armamento a Riade. Salman retribuiu na terça-feira a cortesia que Trump tivera em março de 2017, quando escolheu a Arábia Saudita para a sua primeira viagem presidencial.

Declarações de “grande amizade”, por parte de Trump, e de “vontade de reforçar os laços com os EUA”, por parte do príncipe, marcaram o encontro. Salman confirmou o “compromisso de investimento de 200 mil milhões de dólares [€163 mil milhões]” enquanto Trump lembrou a criação de 40 mil postos de trabalho nos EUA.

A relação idílica não se esgota nos investimentos na Defesa. Durante as quase três semanas de visita oficial, o príncipe, de 32 anos, atravessará o país de costa a costa, com Silicon Valley, Hollywood e o Texas no topo da agenda. O périplo serve para mobilizar apoios ao seu programa de reformas económicas e sociais, que levou as mulheres a poder conduzir e a ir ao cinema, por exemplo. Bin Salman quer ainda afastar as críticas à sua cruzada anticorrupção, que, segundo “The New York Times”, terá permitido extorquir cerca de 100 mil milhões de dólares para libertar uma centena de parentes reais que mandara prender no Ritz de Riade.

Uma política arriscada

Mais do que a dimensão astronómica dos negócios, é o combate ao Irão no contexto de escalada de tensão no Médio Oriente que aproxima os dois líderes, notam analistas contactados pelo Expresso. “A Administração Trump quer reforçar laços com a Arábia Saudita para conter a crescente hegemonia do Irão e contrariar a influência da Rússia, aliada do regime sírio, na região”, afirma Diana Soller, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI-NOVA). “Uma política arriscada dos EUA de isolamento do Irão”, acrescenta a docente.

Esta aliança ganha mais importância do que nunca num contexto de rivalidade entre o Irão e a Arábia Saudita em que o Iraque perdeu o seu papel estabilizador, nota Tiago Moreira de Sá. “Riade está envolvida em várias guerras por procuração, da Síria ao Iraque, passando pelo Iémen. Além disso os sauditas reforçam a influência no Líbano e no Qatar”, explica o professor da Nova.

Moreira de Sá lembra que os EUA diminuíram a presença no Médio Oriente nos últimos anos. Barack Obama tentou um certo desanuviamento com o Irão, afastando-se da Arábia Saudita e de Israel. Trump optou por reforçar as alianças com Riade, Telavive e Cairo, “numa espécie de política dos ‘três polícias’ seguida por Nixon”. Para gerir o recuo estratégico e impedir o reforço do Irão, Washington aprofunda a tradicional aliança com os sauditas. “E, ao mesmo tempo, reforça as capacidade militares com vendas de armas e equipamentos. Não é só negócio”, acrescenta.

A consolidação da aliança com Riade surge na altura em que o Presidente dos EUA ameaça revogar a participação no acordo nuclear com o Irão, assinado também pela Alemanha, China, França, Reino Unido, Rússia e UE, em 2015.

Mais um falcão

Trump dá claros sinais de que o principal inimigo é o Irão e vai afastando do seu estado-maior quem não o seguir. Na quinta-feira demitiu o assessor para a segurança nacional H. R. McMaster, trocando-o por John Bolton, ex-embaixador na ONU, defensor do uso de força militar contra o Irão e a Coreia do Norte e adepto da “linha dura” face à Rússia. Um reforço de “falcões” levara, na semana passada, à substituição de Rex Tillerson pelo ex-diretor da CIA, Mike Pompeo, na chefia da diplomacia.

“A Arábia Saudita ficou muito pouco satisfeita com o acordo nuclear com o Irão. Tal como Israel, não acredita que Teerão cumpra a sua palavra”, afirma Seixas da Costa. “Os restantes parceiros estão a estudar a forma de permitir aos EUA distanciarem-se sem romper o acordo”, acrescenta o antigo embaixador português. Washington, Riade e Telavive estão de acordo em relação aos perigos que Teerão representa. “A incógnita é saber como Israel vai passar de potencial aliado para aliado objetivo da Arábia Saudita contra o Irão”, acrescenta Seixas da Costa.