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“Fui negligenciada, abusada e humilhada”: Josephine ganhou em tribunal contra o hospital que a deixou ter o filho no chão

As enfermeiras do hospital em Bungoma, no Quénia, deixaram Josephine Majani no chão, depois de a terem agredido e ofendido. E foi ali, no chão, que Josephine deu à luz. O caso foi julgado e cinco anos depois há um veredicto. Josephine venceu. E venceram também “todas as mulheres quenianas”

O Quénia é um dos países mais perigosos para se ter um bebé. São as Nações Unidas que o dizem. Está entre os dez piores e anualmente morrem em média oito mil mulheres por complicações no parto, negligência médica, práticas pouco éticas e falta de preparação médica e supervisão. Josephine Majani não morreu. Em 2013, foi para o hospital de Bungoma, a cerca de 400 quilómetros a norte da capital, Nairobi. Estava na hora de o seu filho nascer.

“Fui negligenciada, abusada e humilhada quando estive no Hospital de Bungoma”, contou Josephine Majani, citada pela Reuters. “Acredito que o julgamento de hoje force o governo a tomar a atitude certa e garantir que todas as mulheres têm os cuidados de saúde materna necessários com respeito e dignidade”. As palavras de Josephine à entrada para o tribunal, esta quinta-feira, eram de esperança; à saída a mulher trazia uma vitória. A justiça queniana deu-lhe razão e o hospital vai ter de indemnizar Josephine em quase 25 mil dólares (mais de 20 mil euros).

Em setembro de 2013, Josephine deu entrada no Hospital de Bungoma, estava em trabalho de parto. Não havia camas vagas, deitou-se no chão. As enfermeiras encontraram-na e começaram a dar-lhe estalos e a ofendê-la verbalmente porque estava a sujar o chão. Obrigaram-na a levantar-se e a andar sem qualquer apoio até à sala de partos para ser examinada. O bebé acabaria por nascer no chão do hospital e numa zona pública. Josephine ainda apresentou queixa ao Conselho de Enfermeiras do Quénia, que decidiu a favor da unidade hospitalar, alegando que nada de mal foi feito. Foi então que Josephine decidiu levar o caso à justiça.

Agora, a mulher vê finalmente o processo encerrado, com o tribunal a confirmar que os seus direitos foram violados. “É a afirmação de que estes serviços devem ter uma boa qualidade e que devem ser serviços oferecidos com dignidade”, defendeu Martin Onyango, advogado de Josephine, em declarações à BBC, considerando a vitória da sua cliente uma “grande vitória para todas as mulheres do Quénia”.

“É um marco para as mulheres. Deixa uma mensagem clara aos médicos e ao governo. A negligência médica não será mais tolerada – e, se acontecer, haverá consequências para os responsáveis”, lê-se no comunicado assinado por Evelyne Opondo, diretora regional do Centro para os Direitos de Reprodução, sediado em Nova Iorque.

Casos como o de Josephine não são raros, pelo contrário. Segundo a imprensa internacional, o Quénia tem graves dificuldades em fazer com que o sistema de saúde materna e infantil funcione em condições. Há pouco tempo, o ministro da Saúde ordenou uma investigação ao Hospital Nacional Kenyatta, em Nairobi, por suspeita de abuso sexual a mulheres que foram mães recentemente.