Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“As pessoas pensavam que o Facebook servia para ver gatinhos” mas “é algo perigoso que está a manipular as nossas vidas”

Dado Ruvic

Esta semana, mais do que nunca, esta pergunta foi repetida e repetida e repetida: o Facebook está a ameaçar a democracia? O mundo espantou-se com as revelações que envolvem a Cambridge Analytica, empresa britânica de marketing acusada de ter recolhido e guardado ilegalmente dados pessoais de cerca de 50 milhões de utilizadores do Facebook para ajudar Trump a vencer, e fomos falar com quem estuda política e políticos - e com quem levou políticos à vitória. “Isto não significa que este caso seja a crise final ou que faça com que o Facebook feche. Longe disso. Há bastantes habilidades para contornar a coisa”

O ato aparentemente inocente de colocar um like numa página ou fazer login numa aplicação através do Facebook permite que a rede social tenha acesso aos nossos dados mais pessoais e foi isso que aconteceu durante as eleições presidenciais norte-americanas: a empresa Cambridge Analytica recolheu-os com o objetivo de manipular os eleitores norte-americanos nas eleições de novembro de 2016. Aquela que Trump venceu.

Para o politólogo Carlos Jalali, há claramente um problema. “A democracia parte do pressuposto de que os cidadãos delegam a responsabilidade de governarem políticos. Neste caso, quando há esta forma de dizer ao eleitor o que ele quer ouvir - possível através do big data [conjunto de dados armazenados] -, em vez de ser o eleitor a escolher o político, é o político a dizer ao eleitor aquilo que quer ouvir de modo a obter votos. Ou seja, é o político basicamente a manipular o eleitor”, diz ao Expresso.

Foto Dado Ruvic/ Reuters

“Quem agora passa a mensagem não tem filtros. Antigamente, um tema demorava quase 24 horas a surgir e a ter implicações na sociedade. Agora não existem tantos filtros e isso faz com que o político tenha maior controlo sobre o que quer dizer, a quem quer dizer e na forma como o vai dizer”, explica Carlos Jalali. Mesmo tendo presente que Barack Obama “foi o primeiro presidente a ser eleito recorrendo massivamente às redes sociais”, o escândalo que envolve a Cambridge Analytica e o Facebook expõe como existem mudanças. “É algo novo e diferente”, diz ao Expresso a politóloga Marina Costa Lobo.

A este processo de direcionar mensagens/ações de campanha específicas a um público-alvo restrito e pré-selecionado chama-se “microtargeting”: os políticos definem o seu público de um modo específico e descobrem quem são os seus potenciais apoiantes e abordam-nos consoante os gostos. E foi isto que foi feito nas eleições presidenciais norte-americanas. “O microtargeting é uma grande ameaça para a democracia. Está presente e ninguém tem dúvidas de que foi isso que influenciou o resultado das eleições presidenciais dos EUA. É algo realmente perigoso, poderoso e que está a manipular as nossas vidas”, sustenta o publicitário Edson Athayde, que trabalhou nas campanhas que levaram Guterres ao poder nos anos 1990.

Um inquérito psicológico que afinal era algo mais

Na corrida eleitoral, Donald Trump obteve dados privados de 50 milhões de utilizadores do Facebook que a empresa Cambridge Analytica usou para construir um programa de software capaz de prever e influenciar as escolhas dos eleitores. Na origem, a informação obtida partiu de um inquérito científico, de personalidade, a que milhares responderam no Facebook, na convicção de que servia fins académicos. Responderam de forma voluntária e, “ao fazê-lo, permitiram o acesso aos dados que cada um partilhara no Facebook”, sublinha Marina Costa Lobo.

Dessa forma foi possível elaborar um conjunto de perfis psicológicos mas também chegar às preferências de quem respondeu - e dos seus amigos -, conteúdos fundamentais para a criação de mensagens ‘à la carte’ capazes de direcionar as intenções de voto. Os perfis de dezenas de milhões de utilizadores do Facebook foram violados pela empresa de análise de dados, revelaram as investigações dos jornais norte-americanos “The New York Times” e britânico “The Observer”, informação que provocou o terramoto a que ainda se assiste.

Foto Dado Ruvic/ Reuters

A comissária de informação da Grã-Bretanha, Elizabeth Denham, garante que as duas empresas envolvidas vão ser investigadas. “Quaisquer procedimentos criminais ou civis de execução decorrentes serão perseguidos vigorosamente.” Também o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, instou terça-feira o fundador e administrador executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, a prestar contas aos eurodeputados sobre o uso de dados de cidadãos europeus na sequência do escândalo, ao passo que a Comissão de Proteção de Dados da Irlanda anunciou que vai analisar o uso da publicidade política na popular rede social.

Entretanto, o presidente executivo da Cambrigde Analytica, Alexander Nix, foi suspenso depois de ter sido divulgada uma conversa em que admitiu ter-se reunido várias vezes com Donald Trump com o objetivo de criarem uma campanha digital eficaz para as eleições norte-americanas.

E que impactos haverá para o Facebook? “É sempre uma crise e tem de ser atacada. O Facebook vai ter de se defender. Mas isto não significa que este caso seja a crise final ou que faça com que o Facebook feche. Longe disso. Como não é a primeira vez que acontece, há bastantes habilidades para contornar a coisa. Parece-me que é só mais um caso e nem os anunciantes estão preocupados com isto. Não vão fazer nada porque precisam desta rede social para sobreviverem”, diz ao Expresso Edson Athayde.

Foto Dado Ruvic/ Reuters

“Não sei sequer se esta rede social quer ou consegue contornar esta questão”, prossegue Athayde. “Porque [o Facebook] não consegue viver, do ponto de vista económico, sem a venda desses dados. Se fizesse isso, as suas ações iriam cair a pique. Mas este não é só um problema do Facebook - não é o mau da fita. São todos. A Google também é e a grande parte da sociedade tem noção de que é vigiada e continua a utilizar estas plataformas.”

Há investigadores acreditam que o Facebook deveria acabar com as campanhas políticas para que a confiança seja novamente instaurada. Carlos Jalali não concorda e afirma que “a empresa do Mark Zuckerberg diz que tem atenção aos dados que são recolhidos por outras empresas, mas não nos podemos esquecer de que ela é uma empresa e, como tal, precisa de lucro e esse lucro são os nossos dados, são as pessoas”. “O Facebook está sempre no negócio de vender os nossos dados em prol de receitas. E é difícil controlar para onde vão os dados. É por isso que não pode acabar com as campanhas políticas, porque isso não gera lucro”, diz Carlos Jalali.

“As pessoas pensavam que o Facebook servia para ver gatinhos e está a ficar claro que é uma plataforma de comunicação poderosa e que pode ser manipulada e construída para ser ainda mais poderosa”, conclui Edson Athayde.