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“Se Putin me quiser morto, nada o evitará”, diz Khodorkovsky

Matej Divizna/Getty Images

O homem que já foi o mais rico do mundo distingue entre o governo russo e aquilo a que chama um gangue de criminosos no Kremlin

Luís M. Faria

Jornalista

Mikhail Khodorkhovsky, o ex-oligarca russo que passou dez anos na prisão por se ter oposto a Vladimir Putin, chama ao círculo em torno do presidente "um grupo criminoso organizado". Distingue esse grupo do governo russo propriamente dito ("que faz as tarefas oficiais habituais e só pode ser acusado de receber subornos de vez em quando") instando o Ocidente a fazer o mesmo. Só assim será possível lidar com a ameaça de ações como o assassinato de russos exilados no estrangeiros.

Durante um briefing na sua fundação Open Russia, Khodorkovsky comentou o envenenamento do ex-espião Sergei Skripal no Reino Unido, Khodorkovsky disse: "Durante a era soviética, não havia muitos dissidentes dos serviços secretos. Depois o número deles começou a aumentar, e agora eles estão a começar a matá-los. Isto é visto como uma mensagem muito clara: não se pode escapar dos serviços secretos".

Reconhecendo que a sua própria vida pode estar em risco, o homem que em tempos foi o mais rico da Rússia e atualmente vive em Inglaterra diz que não anda com guarda-costas, pois se Putin quiser mesmo matá-lo nada o evitará. Porém, não é certo que queira. "Sou um bem conhecido opositor de Putin, e ele tem uma forte aversão em relação a mim, mas comigo é uma história diferente".

Diz que foi informado "meio oficialmente" sobre uma lista de alvos a abater, mas essa lista foi anulada por causa do escândalo que gerou a morte de Boris Nemtsov, o político liberal abatido com quatro tiros mesmo em frente ao Kremlin, em 2015. A fundação que Khodorkovsky financia e lidera, inspirada na do bilionário George Soros, está longe de constituir uma ameaça para o regime russo.

"Aprenderam a manipular Putin"

Khodorkovsky tinha explicado à BBC como acha que as coisas funcionam: "Há um grupo muito pequeno dentro do Kremlin, na nossa opinião até cem pessoas, que são os principais beneficiários do regime de Putin e agem conscientemente como um gangue de criminosos". Para fazer os trabalhos sujos, esse grupo usa os serviços secretos, mas estes às vezes também atuam por conta própria.

Há uns anos Khodorkovsky pensava que Putin controlava completamente esse grupo, mas agora tem dúvidas. "Hoje, na minha opinião, o círculo interno dentro do gangue criminoso aprendeu a manipular Putin de modo muito eficaz, e temos visto isto a ser demonstrado algumas vezes". Pode nem sequer ser possível saber quem ordenou determinados crimes.

De qualquer maneira, a partir do momento em que governos como o britânico reconhecerem a natureza da ameaça, devem agir em conformidade. Não punindo todos os russos, mas apenas os criminosos. "Há muitos instrumentos para combater o dinheiro sujo e os políticos corruptos. tudo isto precisa de ser investigado. Não se deve atingir 146 milhões de pessoas", disse o milionário durante o briefing.