Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Jordi Turull pode ser presidente da Catalunha quinta-feira… e preso sexta-feira

LLUIS GENE/GETTY IMAGES

O parlamento regional marcou uma sessão de investidura para quinta-feira, um dia antes de o putativo novo chefe do governo responder perante um juiz que pode decretar-lhe prisão preventiva

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O presidente do parlamento catalão convocou para quinta-feira às 17h um plenário para empossar Jordi Turull presidente do governo regional. Roger Torrent, da Esquerda Republicana (ERC), assumiu que o agendamento é motivado pela audiência que Turull — eleito na lista Juntos pela Catalunha (JxC), do ex-presidente Carles Puigdemont — terá sexta-feira perante o juiz Pablo Llarena, que instrui a causa contra os dirigentes independentistas no Tribunal Supremo.

“Estamos conscientes das ingerências que vivemos nos últimos dias e das que pode haver na sexta-feira”, disse Torrent. Turull é um de seis separatistas chamados por Llarena e uma das medidas de coação possíveis é a prisão preventiva. Isso acarretaria a inabilitação do agora candidato. Sobre os ex-governantes apoiantes da secessão pendem acusações de sedição, rebelião e peculato.

O agora candidato a chefe do executivo catalão, que foi secretário da Presidência no anterior mandato, já esteve atrás das grandes entre 2 de novembro e 4 de dezembro de 2017. Está sob investigação desde setembro por suspeitas de prevaricação e desobediência, por ter assinado a convocatória do referendo de autodeterminação de 1 de outubro, realizado à revelia da legalidade espanhola,

Na sequència da consulta popular e da declaração unilateral de independência aprovada pelo hemiciclo regional, foi preso preventivamente com oito colegas do governo regional. Veio a ser posto em liberdade condicional sob fiança de 100 mil euros.

Apoiado pela JxC (a lista separatista mais votada nas eleições de 21 de dezembro) e pela ERC, Turull não assegurou o voto favorável da Candidatura de Unidade Popular (CUP). Esta pequena força de extrema-esquerda é a menor das formações separatistas, mas é indispensável para a investidura do presidente no atual quadro parlamentar. Irá anunciar a sua decisão horas antes da sessão plenária.

Da honra à vergonha

Na rede social Twitter, Turull considerou a indigitação “uma honra imensa” e prometeu trabalhar “sem descanso” para proteger os 7,5 milhões de catalães, defendendo “os seus direitos, a sua liberdade e os seus mandatos democráticos”. Utilizará “diálogo com todos e para todos”, formulação que parece afastar-se do unilateralismo de Puigdemont, mas que pode custar-lhe o apoio da CUP, que ainda ontem dizia preferir Puigdemont (o qual reivindica a presidência mas renunciou “temporariamente” a ela há semanas). A CUP exige que qualquer novo presidente mantenha a linha de desobediência cívica que levou o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, a aplicar o artigo 155 da Constituição e a suspender a autonomia da Catalunha.

Num total de 135 deputados, votarão a favor de Turull os 32 deputados da ERC (cujo líder, Oriol Junqueras, preso preventivamente, pode delegar o voto) e 32 dos 34 da JxC (dado que Puigdemont e o seu colaborador Toní Comin estão autoexilados na Bélgica). Estão garantidos os votos contra dos 36 representantes do partido Cidadãos (C’s, centro liberal unionista, o mais votado em dezembro), dos 17 socialistas e dos 4 populares.

Torrent criticou a justiça espanhola por não ter deixado o aspirante anterior, Jordi Sànchez, sair da cadeia para ser empossado. Este é deputado da JxC e era a escolha de Puigdemont mas decidiu renunciar quer à hipotética presidência do governo quer ao seu assento parlamentar. Turull já obteve a bênção do anterior presidente. Está em liberdade e na Catalunha, mas os partidos unionistas consideram que não poderá exercer cabalmente funções, por estar envolvido num processo judicial.

O socialista Miquel Iceta criticou que Torrent “force procedimentos e prazos” para apressar a consagração de Turull, numa manobra que a líder do C’s na Catalunha, Inés Arrimadas, considerou “uma vergonha”, destinada a “alimentar o choque e o confronto”. Pelo PP, Xavier Garcia Albiol fala em “fraude à lei”. Já o Governo central, também do PP, considerou que o gesto de Torrent “prejudica a dignidade da instituição” parlamentar e avisou que o artigo 155 permanece em vigor até que haja um governo regional que Madrid considere “em conformidade com o direito”.

Nacionalista de gema

Com 51 anos de idade e formado em Direito, Turull militou desde a adolescência na Convergência Democrática da Catalunha (CDC), historicamente o partido dominante do nacionalismo catalão, que governou desde a democracia, exceto no período de 2003 a 2010, sob presidentes como Jordi Pujol ou Artur Mas.

Vereador na sua terra natal (Parets, nos arredores de Barcelona), depois de ter sido funcionário municipal e candidato a presidente da Câmara, foi deputado regional desde 2006, tendo chegado a ser líder parlamentar do grupo Juntos pelo Sim, criado pela CDC e pela ERC para impulsionar o processo de autodeterminação. Quando a CDC se reformulou como Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT), por decisão de Puigdemont, seguiu o chefe e chegou a pensar concorrer à liderança do novo partido.

Turull foi, ainda, diretor-geral do Instituto Catalão do Voluntariado entre 1996 e 2000 e professor associado de Política Laboral na Universidade Autónoma de Barcelona.