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Internacional

Compra de votos derruba Presidente do Peru

MARIANA BAZO/ Reuters

Pedro Pablo Kuczynski sai pelo próprio pé após divulgação de vídeos em que aliados seus tentam aliciar deputados para evitar que o Parlamento o destituísse. Em causa estão quatro milhões de dólares pagos pela construtora brasileira a empresas suas

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O Presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, anunciou que renuncia ao cargo. Fê-lo esta manhã [tarde em Portugal], pressionado pelo seu próprio Governo e pelo parlamento, na sequência da divulgação de vídeos e gravações áudio que provam uma alegada compra de votos em troca de obras. A chefia do Estado deverá passar para o primeiro vice-presidente, Martín Vizcarra, adianta o jornal peruano “El Comercio de Lima”.

A decisão foi tomada por PPK (o governante é conhecido pelas iniciais) a contragosto, numa reunião do Conselho de Ministros em que os integrantes do seu Governo lhe exigiram que se demitisse. Há 20 meses no cargo, teve um mandato marcado por conflitos com o Congresso (órgão legislativo), onde foram apresentados dois pedidos de destituição nos últimos três meses. O mais recente, iniciativa de vários partidos da oposição, iria ser debatido amanhã e estava relacionado com as ligações do Presidente à construtora brasileira Odebrecht. A exoneração era dada como certa.

PPK tentou evitar uma maioria parlamentar que votasse pela sua demissão. Contava, nas fileiras da oposição, com a colaboração de Kenji Fujimori, dissidente do partido Força Popular (FP), liderado pela sua irmã, Keiko Fujimori, candidata que o demissionário derrotou nas presidenciais de 2016. Foi esta última que fez divulgar vídeos e gravações em que o irmão (com outros deputados e até o ministro dos Transportes e Comunicações, Bruno Giuffra) procura aliciar um deputado da FP a votar a favor de PPK a troco de obras na sua província.

Guerra fratricida

Kenji e Keiko são filhos do antigo Presidente Alberto Fujimori (1990-2000) mas aos laços familiares sobrepõe-se a rivalidade política. Embora em teoria Kenji fosse da oposição (pertencia ao partido da irmã, que abandonou recentemente para fundar a sua própria formação, Cambio 21), aliou-se a PPK quando, no final do ano passado, este último concedeu o indulto ao pai Fujimori, que estava preso por crimes contra a Humanidade e acabou, assim, por só cumprir 10 dos 25 anos a que fora condenado.

Para garantir o indulto do pai — extremamente polémico no Peru —, Kenji ajudou a salvar PPK do anterior pedido de destituição, em dezembro de 2017. Keiko opunha-se, pois não só desejava a queda do Presidente como a libertação do progenitor não lhe convinha politicamente, suscitando associações pouco abonatórias entre pai e filha.

Quatro milhões da Odebrecht

Em causa no pedido de destituição que ia ser aprovado amanhã estavam pagamentos de mais de quatro milhões de dólares da Odebrecht a duas firmas ligadas a Kuczynski na década passada. Os vídeos divulgados recentemente fizeram subir de tom as críticas a PPK, ex-banqueiro defensor do liberalismo económico, subiram de tom, ao ponto de a sua queda ser pedida por membros do seu partido, Peruanos pela Mudança [grafado em espanhol como Peruanos por el Kambio, para a sigla igualar a do Presidente].

As gravações, feitas em segredo por um deputado da FP em reuniões em que também participou o advogado do Presidente, foram a gota de água. “El Comercio” escreve que todo o Conselho de Ministros, incluindo a primeira-ministra Mercedes Araoz, pediram a PPK que se afastasse, sob pena de todos os membros do Executivo se demitirem em bloco.

Deputados que votaram a favor da manutenção do Presidente ou que se abstiveram aquando do anterior pedido de destituição estavam, agora, dispostos a votar a favor da deposição. Havia 103 parlamentares a favor de pôr fim ao seu mandato, quando só eram necessários 87.

Democracia desprestigiada

O Peru recuperou a normalidade democrática em 2000, ano em que Alberto Fujimori deixou o poder. Terminava uma década marcada pelo autogolpe do então chefe de Estado, que em 1992 dissolveu o parlamento e assumiu o controlo do poder judicial, apoiado pelas forças armadas.

Sucessivos presidentes têm, porém, estado envolvidos em suspeitas de crime. Ollanta Humala (2011-16), antecessor de PPK, está em prisão preventiva, acusado de branqueamento de capitais e associação ilícita, no âmbito do caso brasileiro Lava Jato. Antes dele governou Alan García (2006-11), que também fora chefe de Estado nos anos 80, e que foi acusado de enriquecimento ilícito após o primeiro mandato, tendo sido suspendido do cargo de senador vitalício que ocupava, optando por exilar-se na Colômbia. Outro antigo Presidente peruano acusado de ligações ilegais à Odebrecht é Alejandro Toledo (2001-06).