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Cinco bombas em 20 dias, suspeito morto e ainda nenhuma explicação. Foi uma série que inspirou isto tudo?

SUZANNE CORDEIRO/ Getty Images

Austin, América, 2018: bombas deixadas na soleira da porta ou no jardim de habitações, deixadas na rua e remetidas para as instalações de uma empresa de transportes. O modus operandi foi-se alterando e os métodos foram-se tornando cada vez mais sofisticados e tudo assim continuaria não fosse a morte do principal suspeito, esta quarta-feira. Michael Rustigan, professor na área da justiça criminal em San Jose, na Califórnia, diz que Mark Anthony Conditt, o suspeito, pode ter-se “inspirado” numa série norte-americana

Helena Bento

Helena Bento

Jornalista

Na série, um agente do FBI, James R. Fitzgerald, empreende uma busca desesperada por um bombista chamado Theodore Kaczynski, também conhecido como “Unabomber”, alcunha que dá aliás nome ao programa transmitido pelo Discovery Channel no segundo semestre de 2017 e baseado em factos reais. Na realidade, centenas de agentes, do FBI e de outras agências federais norte-americanas procuram o suspeito de ter feito chegar bombas embrulhadas a três residências no leste de Austin e às instalações da transportadora FedEx, nos arredores de San Antonio, também no estado do Texas, bem como de ter colocado uma bomba junto a uma estrada de um bairro residencial.

A comparação não é da nossa lavra, antes é feita por Michael Rustigan, professor na área da justiça criminal na Universidade Estadual de San Jose, na Califórnia, e um dos especialistas no caso retratado na referida série, na qual um antigo professor de matemática em Berkeley e antigo eremita numa cabana impreparada nas florestas de Montana fez explodir uma série de bombas que mataram três pessoas e feriram outras 23, em Austin, entre 1978 e 1995. “Há a possibilidade de o suspeito ter sido inspirado e influenciado por essa série. Sabe-se que ele a viu. De algum modo, achou que poderia ter todas as atenções concentradas em si”, diz o professor ao Expresso a partir da Califórnia, salientando contudo que ainda é “cedo” para tirar conclusões, dado o estado prematuro da investigação e a ausência de informações definitivas.

Ao fim de 20 dias a fazer explodir bombas em Austin, o suspeito, identificado como Mark Anthony Conditt, 23 anos e residente em Pflugerville, a cerca de 32 quilómetros do local dos crimes, morreu esta quarta-feira de manhã após detonar um engenho explosivo quando se encontrava num carro parado numa das faixas laterais da Interstate 5, que liga o sul ao norte do país e atravessa estados como os do Texas, Missouri e Minnesota. A polícia encontrara-o estacionado num parque de um hotel na cidade de Round Rock, a cerca de 30 quilómetros a norte de Austin, mas o suspeito fugira assim que se apercebera da presença da equipa das forças especiais. Um polícia ficou ferido durante a perseguição ao homem.

Para Michael Rustigan, este desfecho acaba por ser uma “surpresa”, uma vez que a expectativa era a de continuassem a surgir notícias sobre mais explosões em Austin ou noutras cidades do Texas. “Os seus métodos estavam a tornar-se cada vez mais sofisticados e ele estava claramente a mover-se. Achávamos que isto ia continuar, mas ainda bem que não”, sublinha. Sobre as motivações dos ataques, nada se sabe ainda, afirmou Brian Manley, chefe da polícia de Austin, citado pelo “Washington Post”. Antigo estudante no Austin Community College, que frequentou entre 2010 e 2012, Mark Conditt manteve em tempos um blogue onde se apresentava como “conservador” e onde publicava mensagens contra o casamento homossexual e o registo de pessoas condenadas por crimes sexuais, e a favor da pena de morte, descobriu o “New York Times”.

Anadolu Agency/ Getty Images

Depois de ter feito chegar pacotes com bombas no seu interior a três casas no leste de Austin, cujas explosões mataram dois afro-americanos - um homem de 39 anos, identificado como Anthony Stephan House, trabalhador da construção civil - e um jovem músico de 17 anos, Draylen Mason - e feriram duas mulheres, uma delas hispânica, o suspeito recorreu a um mecanismo mais sofisticado para fazer detonar o quarto explosivo, que foi acionado quando dois homens, de 22 e 23 anos, tropeçaram num fio estendido ao longo de uma estrada no bairro de Travis Country, no sudoeste de Austin. O incidente ocorreu no dia 18 de março.

Já na terça-feira desta semana chegou uma bomba às instalações da empresa de transportes FedEx, nos arredores de San Antonio. Ninguém ficou ferido, à exceção de um funcionário que se queixou de dores num ouvido por causa do barulho ribombante da explosão. O que explica esta mudança de estratégia? “Ele quis apenas dificultar o trabalho da polícia”, diz Michael Rustigan, chamando a atenção para a aleatoriedade dos alvos do suspeito, que dificulta a tarefa de estabelecer um padrão entre todas as explosões. “Ao contrário de Theodore Kaczynski, que tinha alvos muito específicos, exclusivamente pessoas ligadas à área das tecnologias, como engenheiros e executivos, este homem atacou de forma aleatória e tanto em comunidades pobres como noutras mais favorecidas. Não escolheu vítimas específicas.” Para o professor, isso tem uma explicação muito clara: “Basicamente, ele quis aterrorizar Austin. Espalhar o medo na cidade, enquanto ludibriava a polícia e evitava ser apanhado, como numa espécie de jogo do gato e do rato. Certamente que apreciou toda a publicidade em torno dele.”

Questionado sobre as suas memórias de outros acontecimentos deste género em Austin, Michael Rustigan refere um tiroteio ocorrido em agosto de 1966 na Universidade do Texas, em Austin. Depois de esfaquear a sua mulher e a sua mãe, Charles Whitman, um antigo atirador da marinha norte-americana, subiu a uma das torres do campus da universidade e começou a disparar indiscriminadamente durante uma hora e meia, sem que nenhum agente da polícia conseguisse aproximar-se dele em condições mínimas de segurança. Matou 15 pessoas e feriu outras 31 (a história recente recorda-o como o oitavo tiroteio mais mortífero dos Estados Unidos). Quanto a explosões deliberadas de bombas, o professor não se lembra, contudo, de nada semelhante ao ocorrido nos últimos 20 dias no Texas. “É a primeira vez que isto acontece”, reforça.

A sucessão de bombas teve fim esta quarta-feira, mas as investigações prosseguem, assim como o trabalho da polícia no terreno, adiantou Christopher Combs, agente do FBI em San Antonio, citado pelo “Washington Post”, explicando que se teme que o suspeito possa ter deixado outros explosivos e apelando à população de Austin e áreas envolventes para permanecer atenta.