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21 de março, o dia em que a Alemanha podia ter ganho a guerra

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Há 100 anos, no dia 21 de março de 1918, o exército alemão lançava a primeira de seis ofensivas seguidas na frente ocidental. Os aliados recuaram e o Kaiser esteve a dois dedos de ganhar a I Guerra Mundial. Mas, a partir de junho, a situação inverteu-se – e de vez

Na Primavera de 1918 joga-se, na frente ocidental, o desfecho da I Guerra Mundial. A vitória da revolução russa e o acordo de paz com os bolcheviques no ano anterior permitem aos alemães transferir do Leste um milhão de homens. Do lado ocidental as tropas norte-americanas chegam à Europa à impressionante cadência de 250.000 homens por mês mas ainda não estão operacionais. Prepara-se um choque decisivo que não poupará o Corpo Expedicionário Português e a iniciativa vai ser dos alemães.

Liberto do pesadelo de ter que combater em duas frentes, o estado-maior alemão fará alinhar em março de 1918 um total de 192 divisões contra 171 aliadas.

Haverá seis ofensivas sucessivas alemãs entre 21 de março e 15 de julho de 1918, das quais duas resultarão em importantes ganhos de território: a da Picardia (21 de março) e a da região de Aisne, onde o avanço alemão sobre o rio Marne voltará a ameaçar Paris como em 1914 (27 de maio).

A 80 km, uma peça gigante - confundida com a Grosse Bertha, que operara contra os fortes belgas em 1914 -, o Canhão do Imperador Guilherme, alveja Paris a partir dos arredores de Soissons com projéteis de 100 kg que causam algumas dezenas de mortos. Mas não estamos em 1914. O comando aliado está unificado em Foch, as reservas são usadas com eficiência e o avanço alemão será detido.

Novas táticas de infantaria

As grandes ofensivas alemãs da Primavera de 1918 deixam de se basear na movimentação de grandes massas de infantaria através da terra de ninguém. Estas continuam a existir mas, após um curto dilúvio de fogo de artilharia, são precedidas por tropas de assalto, as Stosstrupen, treinadas em táticas de infiltração.

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Estão organizadas em grupos de combate, comandados por sargentos e dotados, cada um, de pistolas-metralhadoras, metralhadoras ligeiras e granadas, por vezes de lança-chamas, que utilizam com grande eficácia. Isto para além da convencional espingarda de ferrolho (onde uma versão curta da Mauser substitui a precisa mas avantajada espingarda do início da guerra), à razão de cinco destas por cada arma automática.

As Stosstrupen progridem, tirando partido da cobertura oferecida pelo terreno e movem-se com rapidez, torneando as posições fixas adversárias, relativamente às quais têm superior mobilidade e poder de fogo. São as primeiras a aplicar as táticas modernas do combate de infantaria.

Contudo, os alemães serão vítimas do seu próprio sucesso. As tropas de assalto vão conquistar muito terreno mas precisarão da infantaria convencional para o manter e voltar a progredir. E esta é, cada vez, de pior qualidade. As perdas alemãs entre março e julho de 1918 atingirão os 700 mil homens, a maior parte correspondendo a unidades de elite que já não se conseguirão reconstituir.

Puxados a cavalo

Em 1918 o exército alemão é paradoxal. Tem as melhores e mais fiáveis armas: as suas metralhadoras nunca encravam, ao contrário das francesas; a artilharia é precisa e devastadora. Mas este exército é o menos mecanizado de todos: as peças, quer de campanha, quer pesadas, ainda são puxadas por cavalos, o que retarda o avanço e limita o apoio da artilharia às operações.

Para além do que nunca acreditaram numa arma que os aliados já tinham ensaiado e que agora vão começar a utilizar às centenas: o carro de combate com lagartas, capaz de atravessar a terra de ninguém e ultrapassar as trincheiras sem danos de maior.

A chegada dos tanques

Os franceses, que já não conseguem repor as perdas humanas dos primeiros meses de guerra, tinham descoberto em Verdun (1916) que os transportes motorizados podiam compensar a falta de efetivos e passam a deslocar forças, munições e mantimentos para onde sejam necessários, graças a uma impressionante frota de camiões e a uma rede de estradas militares de terra batida.

Quando, a partir de junho, os aliados contra-atacarem com formações de centenas de tanques (que a Alemanha praticamente não possui), apoiadas por centenas de aviões de combate e seguidas por uma artilharia e uma intendência montadas em camiões, o curso dos acontecimentos inverter-se-á de forma definitiva.