Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Guerra comercial dos EUA contra a China já tem data marcada

NICOLAS ASFOURI

Donald Trump vai anunciar esta sexta-feira medidas concretas para "castigar" Pequim pelo que diz ser a sua concorrência desleal de longa data e roubo de postos de trabalho e de segredos empresariais norte-americanos. Lista é encabeçada por novas taxas alfandegárias sobre mais de 100 produtos importados da China, no valor de 60 mil milhões de dólares ao ano

A prometida guerra comercial de Donald Trump contra a China deverá ser inaugurada esta sexta-feira, dia em que o Presidente norte-americano vai anunciar um pacote de taxas alfandegárias sobre produtos chineses importados pelos EUA avaliado em 60 mil milhões de dólares anuais (cerca de 48 mil milhões de euros ao ano).

Depois de ter passado a campanha presidencial a acusar Pequim de concorrência desleal nos mercados mundiais, responsabilizando o gigante asiático pela perda de postos de trabalho nos Estados Unidos, Trump prepara-se agora para avançar com as prometidas tarifas anuais sobre produtos importados da China, num pacote que, segundo quatro fontes da administração norte-americana, será oficialmente anunciado no final desta semana.

Ao "Washington Post", essas fontes explicaram que as taxas — na prática com o dobro do valor inicialmente anunciado — vão ser aplicadas sobre mais de 100 produtos importados que, na óptica do Presidente norte-americano, foram desenvolvidos com base em segredos empresariais que Pequim roubou a empresas dos EUA. Para evitar parte dessas pesadas taxas alfandegárias e garantir o contínuo acesso ao mercado norte-americano, a China terá a opção de devolver esses segredos às autoridades norte-americanas, apontam as mesmas fontes.

Desde que assumiu a presidência dos EUA em janeiro de 2017, Trump chegou a reverter algumas das ameaças económicas que fez, mas desta vez parece estar empenhado em avançar com a imposição unilateral de tarifas à China (e à União Europeia), mesmo perante as objeções de alguns dos seus conselheiros — a barricada da administração norte-americana que teme o início de uma guerra comercial global — e de inúmeros economistas — que têm tecido avisos sobre o impacto negativo que as medidas terão sobre as empresas norte-americanas.

"Trump está particularmente determinado em avançar com as taxas sobre a China tendo em conta que o criticismo às relações EUA-China esteve no centro da sua campanha presidencial", dizem as fontes da Casa Branca citadas pelo "Washington Post".

EUA podem perder mais do que vão ganhar

A concretizar-se, o pacote de tarifas será o mais alargado e punitivo imposto por um Presidente norte-americano à China nas últimas décadas, antecipando-se que o governo de Xi Jinping retalie. Isto vai pôr em causa a parceria de trocas comerciais entre as duas maiores economias do mundo, prevendo-se que venha a ter impacto em todo o comércio global.

Economistas consultados pelo mesmo jornal dizem que será fácil para a China responder ao "castigo" de Trump e sair menos penalizada que as empresas dos EUA que o Presidente diz querer proteger. É o caso de Nicholas Lardy, investigador do Instituto Peterson para a Economia Internacional, que refere que será difícil para o governo norte-americano atingir empresas chinesas no seu âmago dado que muitas das coisas importadas para os EUA são produzidas noutros países.

"Muito do que importamos da China é produzido por empresas multinacionais e 30% [do total de importações] são equipamentos eletrónicos de consumo", aponta o especialista. "Tenho a certeza de que o Presidente não quer fazer subir os preços desses produtos e mandar as ações da Apple pelo ralo."

Em 2017, a China foi a maior parceira de trocas de bens (mas não de serviços) dos EUA, ultrapassando o Canadá e o México. Dados oficiais mostram que, nesse ano, os norte-americanos exportaram 130,4 mil milhões de dólares (quase 106 mil milhões de euros) em bens para a China mas que importaram quase quatro vezes esse valor, colocando o défice da balança comercial dos EUA a rondar os 375 mil mihões de dólares (cerca de 305 mil milhões de euros).

A juntar a isto, há o facto referido por Lardy de a maioria dos produtos exportados pela China para os EUA não serem totalmente fabricados no país. À partida, isto coloca Pequim numa posição mais favorável do que os EUA, já que poderá atacar a importação de produtos 100% norte-americanos — uma lista que, segundo dados do governo federal dos EUA, é encabeçada pela soja e por peças para o setor da aviação.

"No melhor cenário possível, [a administração Trump] pode reduzir as importações da China em 30 mil milhões de dólares mas isso terá virtualmente zero impacto no défice da balança comercial dos EUA", aponta Lardy. "Vamos simplesmente começar a comprar as mesmas coisas aos segundos e terceiros fornecedores mais baratos, como o Bangladesh e o Vietname. Não é como se esses 30 mil milhões fossem, de repente e como que por magia, ser produzidos nos EUA um dia depois do anúncio destas tarifas."