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Escândalo do Facebook: Reino Unido quer escrutinar bases de dados e servidores da Cambridge Analytica

A Cambridge Analytica demitiu o seu diretor executivo, Alexander Nix, em março, na sequência do escândalo sobre o uso indevido de dados dos utilizadores

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Empresa britânica de marketing é acusada de ter recolhido e guardado ilegalmente os dados pessoais de cerca de 50 milhões de utilizadores do Facebook para ajudar Donald Trump a vencer as presidenciais norte-americanas em 2016

A Comissária do Reino Unido para a Informação vai pedir a um tribunal do país que emita um mandado judicial para que as autoridades competentes possam fazer buscas aos escritórios da empresa britânica Cambridge Analytica a fim de analisarem as suas bases de dados e servidores.

O anúncio chegou na segunda-feira, depois de uma reportagem publicada pelo "New York Times" e pelo londrino "Observer" este fim-de-semana ter denunciado que essa empresa terá recolhido e guardado de forma ilegal os dados pessoais de cerca de 50 milhões de utilizadores do Facebook.

O objetivo era influenciar as eleições presidenciais norte-americanas em 2016 a favor de Donald Trump, candidato republicano que contratou os serviços da empresa durante a corrida à Casa Branca e que acabaria por ser eleito Presidente dos EUA em novembro desse ano.

Confrontados com esse artigo, os responsáveis da Cambridge Analytica rejeitaram as acusações tecidas por um seu ex-funcionário, Christopher Wylie, que decidiu expor as más práticas da empresa no Facebook com recurso a um teste de personalidade desenvolvido por um académico.

Novas suspeitas

Ontem, o Channel 4 News veio reforçar ainda mais a polémica, com uma reportagem de câmaras ocultas na qual executivos da Cambridge Analytica, incluindo o seu CEO, Alexander Nix, surgem a delinear esquemas para desacreditar candidatos políticos online.

Nesse vídeo, Nix parece sugerir que a sua empresa tem recorrido a várias práticas questionáveis para minar a credibilidade de políticos na internet, numa conversa com um jornalista do canal que se apresentou como fixer de um cliente muito rico que queria assegurar a eleição de um candidato político no Sri Lanka.

Questionado sobre que "investigações profundas" a empresa pode fazer para ajudar à eleição desse candidato, o diretor executivo da Cambridge Analytica responde que "fazemos muito mais que isso", antes de sugerir que uma das formas de desacreditar um indivíduo online é "oferecer-lhe um acordo demasiado bom para ser verdade e garantir que captamos isso em vídeo".

No vídeo, Nix também é ouvido a dizer que a empresa pode "enviar algumas raparigas para a casa do candidato" que se quer minar, antes de acrescentar que as mulheres da Ucrânia "são muito bonitas, acho que funcionam sempre muito bem" e de sublinhar: "Estou só a dar-lhe exemplos do que pode ser feito e do já foi feito no passado."

"Cenários hipotéticos ridículos"

Confrontada com as imagens, a empresa reagiu com garantias de que a peça jornalística "representa muito mal" as conversas que Nix e outros executivos mantiveram com o suposto fixer. "Alinhando com este tipo de conversa, e em parte para poupar o nosso 'cliente' a embaraços, alimentámos uma série de cenários hipotéticos ridículos", garantiu um porta-voz em comunicado. "A Cambridge Analytica não apoia nem se envolve em subornos ou armadilhas."

Entrevistado no programa Newsnight da BBC, Nix, que em novembro esteve em Lisboa como orador convidado do Web Summit, acusou o Channel 4 britânico de ter produzido uma reportagem que "deturpa os factos" para "encurralar deliberadamente" a sua empresa.

Face às informações surgidas desde o fim-de-semana, a Comissária britânica para a Informação, Elizabeth Denham, anunciou uma investigação às práticas da Cambridge Analytica depois de a empresa ter falhado um prazo para permitir que as autoridades britânicas acedessem às suas bases de dados e servidores. "Não aceito a resposta, portanto vou pedir que o tribunal emita um mandado."

Apesar de insistir que cumpriu sempre as regras de obtenção e uso de dados pessoais dos utilizadores do Facebook, a Cambridge Analytica foi suspensa da rede social na semana passada, antes de a gigante norte-americana de tecnologia ter anunciado uma reunião aberta com os seus funcionários para discutir o escândalo, noticiou o site "The Verge".

Nesse contexto, os administradores do Facebook anunciaram a contratação de uma equipa forense digital para auditar a Cambridge Analytica — "parte de uma revisão abrangente, interna e externa, que estamos a conduzir para determinar o rigor das alegações de que os dados do Facebook em questão ainda existem", disse a empresa em comunicado. "Se esses dados ainda existirem, isso representa uma grave violação das políticas do Facebook e uma violação inaceitável da confiança e dos compromissos firmados por esses grupos."

A comissária britânica exigiu entretanto à gigante tecnológica de Mark Zuckerberg que suspenda essa auditoria, sob o argumento de que pode prejudicar a investigação das autoridades britânicas.