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Mohammad bin Salman: “Só a morte poderá impedir-me de governar”

FAYEZ NURELDINE/GETTY

Direitos humanos, guerra civil no Iémen, rivalidade com o Irão e até o recente escândalo da detenção de príncipes e funcionários governamentais no hotel Ritz Carlton: assim foi a entrevista exclusiva de Mohammad bin Salman a um canal televisivo norte-americano a propósito da sua primeira visita oficial aos Estados Unidos

O príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman deu a sua primeira entrevista exclusiva a um canal televisivo norte-americano, a CBS, no domingo, a propósito da sua primeira visita oficial aos Estados Unidos, a poucos dias de um frente a frente que terá com Donald Trump.

Designado herdeiro ao trono em junho de 2017 pelo seu pai, o rei Salman, e detentor do cargo de vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, bin Salman afirmou à CBS que "só a morte" o poderá impedir de chegar ao poder. "Só Deus sabe quanto tempo vou viver, se mais 50 anos ou não, mas se tudo correr normalmente, então é expectável."

Se provas faltassem, o mais recente "escândalo" de violência e perseguição política na Arábia Saudita veio confirmar que Mohammad bin Salman almeja conservar o seu poder. Descrito como uma "purga anti-corrupção" pelo próprio príncipe, a notícia de que vários príncipes, empresários e funcionários governamentais tinham sido detidos no hotel Ritz Carlton, em Riade, em novembro do ano passado, fez soar o alarme de uma possível violação de direitos humanos. Os reféns, que foram impedidos de abandonar o hotel de cinco estrelas, terão sido submetidos a abusos físicos como forma de coagir o Governo saudita a aceitar um acordo de vários milhões de dólares em troca da sua liberdade.

Um artigo recente do "New York Times" reforçou essa evidência. Nele foram retratadas várias figuras que estiveram presas no hotel, uma das quais acabaria por morrer durante esse período , apresentando sinais claros de abuso físico, indicados no relatório médico, enquanto outras 17 necessitaram de cuidados hospitalares.

A organização Human Rights Watch (HRW) emitiu, na semana passada, um comunicado em que pediu à Arábia Saudita que investigasse o caso.

Na entrevista de domingo à CBS, Mohammad bin Salman descreveu como "ingénuas" as acusações de que as detenções no Ritz Carlton tenham feito parte de um plano do Rei saudita para se perpetuar no poder.

"O que fizemos na Arábia Saudita foi extremamente necessário. Todas as ações foram realizadas de acordo com as leis existentes e promulgadas", disse.

Questionado também sobre direitos humanos, o príncipe saudita garantiu que na Arábia Saudita os homens e as mulheres são "absolutamente" iguais, e defendeu que os direitos humanos estão presentes no país mas reconheceu que é preciso "remediar algumas lacunas".

"Na verdade, acreditamos na noção de direitos humanos, mas em última instância os padrões sauditas não são os mesmos que os padrões americanos. Não quero dizer com isto que não tenhamos algumas lacunas. De certeza que as temos. Mas, naturalmente, estamos a trabalhar para as remediar."

Da rivalidade com o Irão à crise humanitária no Iémen

O mais novo ministro da Defesa da história da Arábia Saudita é também conhecido por ter conduzido uma política externa agressiva para "contrabalançar" a influência do Irão, o seu rival regional no Médio Oriente. Mas, quando se puxou o assunto na entrevista, bin Salman foi claro: "O Irão não é rival da Arábia Saudita", afirmou, declarando com algum desprezo que "o seu exército [do Irão] não está entre os cinco melhores exércitos do mundo islâmico. A economia saudita é muito maior que a economia iraniana." "O Irão está longe de se igualar à Arábia Saudita."

Também não poupou críticas ao líder iraniano Ali Khamenei, que comparou a Adolf Hitler por querer "expandir o seu próprio projeto" de influência no Médio Oriente. E mais, se para travar essa "expansão" for necessário igualar o armamento nuclear do Irão, apesar de admitir que a Arábia Saudita não faz intenções disso, atuará "o mais cedo possível".

Na entrevista também foi abordado o tema da guerra civil no Iémen, que faz fronteira a sul na Península Arábica. Apesar de Riade manter em curso uma ofensiva militar contra aquele país desde 2015, o líder saudita culpa o grupo rebelde Houthi pela crise humanitária no Iémen. Para bin Salman, os rebeldes são responsáveis pela não distribuição de ajuda à população, mas as organizações dos direitos humanos apontam o dedo à coligação de forças liderada pela Arábia Saudita, que conta também com o apoio logístico dos Estados Unidos. As ONG denunciam bombardeamentos contra civis, hospitais e escolas.

Ao todo, mais de dois milhões de iemenitas ficaram desalojados e outros dez mil morreram desde que a guerra começou em 2015.