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Anna Campbell não estava a lutar quando morreu

Tinha 26 anos quando tomou uma decisão que mudou a sua vida: deixou o conforto da paz no Reino Unido para ir combater na Síria. Lutou contra o Daesh, morreu há poucos dias. Um míssil tirou-lhe a vida

Soraia Pires

Soraia Pires

Jornalista

Anna Campbell idealizava um mundo em que não existisse guerra nem fome e decidiu marcar a diferença e lutar por aquilo em que acreditava. Colocou a sua vida em segundo plano e foi lutar, em 2017, com as forças curdas no norte da Síria. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, morreu a 16 de março enquanto viajava num comboio que acabou atingido por um míssil - suspeita-se que de origem turca. Anna não estava a lutar quando morreu. Foi a primeira mulher britânica a falecer numa luta ao lado das forças curdas na Síria.

A jovem de 26 anos era de Lewes, East Sussex, no sudeste do Reino Unido. Era canalizadora, mas queria marcar a diferença. Daí ter decidido ir para a Síria em maio de 2017 para ajudar os curdos contra o Daesh. Quando chegou à Síria, alistou-se na organização militar e feminina Unidades de Proteção das Mulheres, criada em 2013 como uma brigada feminina das milícias curdas. Trata-se de uma das principais organizações militares do Curdistão Sírio (região no norte da Síria que faz fronteira com a Turquia) e é uma das protagonistas da luta no norte da Síria.

Quando chegou à guerra, Anna mudou de nome: era Helîn Qerecox. Lutou nas Unidades de Proteção das Mulheres juntamente com as 50 mil tropas que pertencem a esta organização, considerada terrorista pelo Governo turco. Depois de ajudar as forças curdas a retirarem força ao Daesh, Anna quis mais: pediu várias vezes para que os seus oficiais a enviassem para Afrin (cidade na província de Alepo) depois de a Turquia ter lançado um ataque aéreo contra as forças curdas em janeiro deste ano. Os seus superiores não aceitaram inicialmente a proposta, mas Anna foi persistente. Chegou a pintar o cabelo de preto para não passar por estrangeira e ser mais discreta. Depois de tanto pedir, deram-lhe autorização para ir ao sítio onde acabou por morrer.

Ridicularizada por proteger uma abelha

Dirk Campbell não poupa elogios na altura de falar da filha que perdeu. Uma pessoa amável, que de tudo fazia para criar um mundo no qual ela acreditasse. Uma jovem idealista, séria, determinada e corajosa. Que lutou durante o seu curto percurso de vida contra “a injustiça e os privilégios que o poder tem”. O seu compromisso com os direitos humanos era muito grande: “Lembro-me que, quando ela tinha 11 anos, protegeu uma abelha da tortura de crianças da escola que frequentava. Pode não ter sido nada de especial, mas mostrou de que matéria era feita, porque defendeu-a com tanta garra que acabou por ser ridicularizada pelos próprios colegas. Mas não quis saber. Sempre lutou por aquilo em que acreditava e ela acreditava que a Turquia não estava a proceder bem. E quis defender os curdos”, diz o pai ao “Guardian”.

A personalidade de Anna, diz Dirk, lembra muito a da mãe, Adrienne, conhecida no sul do Reino Unido pelo seu papel enquanto ativista. Morreu devido a um cancro na mama há cinco anos. Mas “Anna quis continuar a seguir as pegadas da mãe e estava a fazer muito do trabalho dela”, lembra o pai.

Em maio do ano passado, Anna contou ao pai os planos que tinha: queria viajar até ao norte da Síria depois de saber da revolução feminina que começou no Curdistão Sírio. O pai não a tentou parar porque sabia que assim que Anna tomasse essa decisão, não haveria volta a dar. E foi por isso que foi para o Curdistão Sírio: para ajudar a construir um mundo de igualdade e democracia onde todos fossem bem representados e defendidos. “Quando ela me disse que ia, brinquei com a situação e disse-lhe que tinha sido bom conhecê-la. Mas, no fundo, temia que aquela tivesse sido a última vez que a iria ver, porque ela estava a colocar a vida dela em perigo”, conta o pai.

A cidade de Afrin depois de ataques aéreos turcos, feitos em janeiro deste ano.

A cidade de Afrin depois de ataques aéreos turcos, feitos em janeiro deste ano.

STRINGER/ GETTY IMAGES

Agora Dirk Campbell lida com sentimentos de culpa: “Colocando tudo em perspetiva, acho que deveria ter feito mais para dissuadi-la [de ir para a Síria] mas sabia também que nunca me iria perdoar caso ela deixasse de ir por minha causa”. Na altura em que a jovem decidiu ir para a Síria, as autoridades britânicas alertaram-na repetidamente sobre as consequências de viajar para um país em conflito desde 2011 - uma delas era a detenção por fazer parte de um grupo armado.

Voltar para casa ou continuar na Síria?

Quando Anna chegou ao Curdistão Sírio, completou o mês de treino militar que a organização Unidades de Proteção das Mulheres exigia. Aprendeu a falar curdo e a mexer em armas e também aprendeu táticas no terreno, enquanto lhe era ensinada a ideologia do grupo. Pouco tempo depois, foi enviada para a frente da batalha curda em Afrin. Fontes da organização, citadas pelo “The Guardian”, afirmaram que Anna passou os primeiros meses a lutar em Dei ez-Zor, local em que o Daesh continuava a ter o seu último território. No entanto, depois da perda de força do grupo terrorista, Anna tinha de tomar uma decisão: voltar para casa ou continuar na Síria para ajudar os civis dos ataques aéreos turcos em Afrin, que começaram em janeiro deste ano. Anna não pensou duas vezes.

“Depois dos ataques iniciais em Afrin, Helin [Anna] insistiu em juntar-se à operação para defender a cidade. Nós não queríamos, mas ela insistiu muito. Até nos fez um ultimato: ou vou para casa e abandono esta vida de revolucionária ou vocês enviam-me para Afrin e continuo a defender os nossos princípios. Como nunca irei deixar a revolução, têm de me deixar ir para lá”, disse Abdullah, porta-voz da organização feminina. “Para nós, Helin será sempre um símbolo pioneiro das mulheres estrangeiras. Vamos continuar a lutar por aquilo em que ela sempre acreditou. Vamos perseguir sempre a sua força enquanto mulher”, acrescentou.

Mark Campbell, ativista e co-presidente da Campanha Solidária Curda, afirmou que Anna entrou nos corações dos curdos enquanto lutou com eles nas horas mais difíceis pelas quais passaram. “Os nossos pensamentos estão com ela e com a sua família. Vamos levar todos os seus ensinamentos na nossa luta. Ela continua connosco”.