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Votos falsos, balões e cupões de desconto. Milhares de fraudes denunciadas nas eleições russas

YURI KOCHETKOV

Organização não-governamental que se dedica à proteção do voto detetou mais de 2 mil casos de votos duplicados ou observadores expulsos das mesas de voto. Oposição partilha vídeos de casos flagrantes, incluindo o de uma mulher que usa balões que seriam uma oferta a quem vota para tapar as câmaras de vigilância

Uma mulher olha diretamente para a câmara de vigilância, enquanto, atrás de si, uma confusão de gente parece mexer em papéis e boletins de voto sobre uma mesa. A seguir, agarra num conjunto de balões coloridos, e move-os discretamente até ficarem mesmo em frente da lente da câmara. O resultado? Os balões passam a impedir que se veja o panorama numa das mesas de voto em que os eleitores russos estão a escolher, durante este sábado, o seu presidente - e que mais uma vez, ao que tudo indica, será Vladimir Putin, que ficará assim à frente dos destinos do país por um quarto mandato.

O caso dos balões é visível num vídeo publicado pela Golos, a organização não-governamental de proteção do direito de voto que monitoriza as eleições na Rússia. Escreve a agência que, graças ao vídeo, "torna-se claro porque é que precisavam de balões nas mesas de voto: não apenas para oferecer aos eleitores, mas também para tapar as câmaras de vigilância". Mas não é o único: durante a tarde deste sábado, o site da organização dedicou-se a denunciar dezenas de situações do mesmo género, e perto das 17h em Lisboa (21h em Moscovo) anunciava um número total de 2410 irregularidades detectadas durante as votações.

Numa mesa de voto, o sistema eletrónico instalado permitiu que toda a gente presente visse quem o votante estava a escolher no boletim - Putin ou um dos seus sete opositores, que, segundo as sondagens conhecidas, têm percentagens de intenção de voto residuais. Em Ryazan, foi encontrado (e fotografado) um conjunto de boletins de voto dentro de uma urna, quando os boletins devem ser sempre inseridos separadamente, por cada eleitor.

Em Adygea, há relatos de votantes que votaram duas vezes. Não será caso único: por todo o país, multiplicam-se denúncias de pessoas que votaram por si e pelas suas famílias, ou que indicaram números de documentos de identificação diferentes. Um votante de Maykop, diz o mesmo site, disse que lhe foi permitido votar em seis mesas de voto.

Segundo a Golos, é mesmo essa a maneira mais vulgar de interferir nos resultados: inserir vários boletins, ou votar por mais pessoas. E mesmo que existam câmaras de vigilância e observadores nas mesas de voto, isso não impede que as situações se continuem a suceder. Na lei, está previsto que "a falsificação do resultado dos votos" seja punida com multas entre 200 mil e 500 mil rublos (2.800 a 7 mil euros), o valor do salário ou outro rendimento do condenado por um a três anos, trabalhos forçados durante quatro anos ou prisão durante o mesmo período.

Apesar de haver observadores a controlar as votações em muitos locais, também há relatos de polícias a expulsar quem tem esta função. O movimento do principal opositor de Putin, Alexei Navalny, que foi impedido de disputar estas eleições, disse ter destacado mais de 33 mil observadores e denunciou centenas de irregularidades, principalmente em Moscovo, São Petersburgo e Basquíria.

A Golos afirma ainda ter recebido informações sobre empregadores e universidades que obrigaram trabalhadores e estudantes a votarem no seu local de trabalho ou estudo, em vez do domicílio, para "controlar a sua participação no escrutínio". Militantes da oposição também referiram que alguns eleitores foram levados de autocarro pela polícia até assembleias de voto, enquanto outros receberam cupões de desconto por terem ido votar.

As fraudes, cometidas no contexto de uma eleição que já se dá por entregue a Putin, terão o objetivo de aumentar a participação. Perto das 17h em Lisboa, a agência oficial russa Tass anunciava uma taxa de participação nas eleições de 51.9%. Segundo o presidente da comissão central de eleições, Nikolai Bulayev, com “uma afluência em muitas regiões superior à das eleições de 2012”.