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Análise às eleições na Rússia: Quarto ato de um monólogo tragicómico

Vladimir Putin foi reeleito com mais de três quartos dos votos expressos, a melhor percentagem de sempre para si e para qualquer chefe de Estado eleito na Rússia. No Kremlin há 18 anos, pode tornar-se o líder mais duradouro desde Estaline. O Ocidente tem com que se preocupar

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Com mais de 75% dos votos expressos (escrevo quando estão contados dois terços do total), Vladimir Putin ganhou as eleições deste domingo na Rússia. O triunfo do Presidente não é notícia, já que ninguém alguma vez pôs outra hipótese. Com a abstenção pelos 40% e a maior percentagem de sempre em presidenciais, parece ter vencido os principais obstáculos, desprovido que estava de adversários sérios.

Se cumprir o quarto mandato que hoje conquistou, Putin terá estado no poder entre 2000 e 2024, quase sempre como chefe de Estado, descontado o estratagema que foi, entre 2008 e 2012, assumir o cargo de primeiro-ministro por troca com Dmitri Medvedev, para contornar a limitação constitucional de mandatos. Mais tempo no Kremlin do que Vladimir Vladimirovich, só Ioseb Jughashvili, mais conhecido por Estaline, reconheça-se que até à data com resultados mais catastróficos.

É lícito dizer que em nenhum ponto do século XXI as relações da Rússia com o Ocidente foram piores (e, repita-se, o maior país do mundo em superfície, potência nuclear e membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas não teve outro chefe desde o virar do século). Os sintomas vão da exibição de novos mísseis e armas ditas “invencíveis” (num tom meio gozão que reforça o quanto de cómico têm à superfície certas poses de Putin, que nem por isso devem tomar-se de ânimo leve) ao choque frontal com o Reino Unido a propósito do envenenamento do agente duplo Sergei Skripal (que irá provavelmente engrossar a longa lista de inimigos do Kremlin mortos em circunstâncias duvidosas, dentro e fora de portas), passando pelo papel de Moscovo na guerra síria, ao lado do ditador Assad, e pelas comprovadas tentativas de interferir em processos eleitorais democráticos noutros países.

Igualmente lícito é afirmar que Putin nunca foi tão poderoso. No ato eleitoral de hoje não teve adversário digno desse nome (tendo-se precavido antecipadamente de proibir Alexei Navalny de concorrer), preocupando-o apenas o valor da participação, bitola da sua relegitimação. Terão ido às urnas quase 60% dos eleitores. Nada de excitante mas quanto baste para não se questionar a recondução. Portugal não tem essa taxa de afluência em presidenciais há 12 anos e em legislativas há nove, para termo de comparação (no que toca a números puros, já que o contexto não é equiparável; entre nós, ainda que menos do que seria desejável, quem vai votar fá-lo inquestionavelmente de sua livre vontade).

Mais do que isso, os quase 76% que soma à hora de publicação deste texto são um recorde pessoal. Em ocasiões anteriores foi eleito com 53% (2000), 72% (2004) e 64% (2012). O subalterno Medvedev reuniu 71% das preferências em 2008. E Boris Ieltsin, em 1996, não foi além dos 54% (conseguira 59% em 1991, quando a Rússia ainda era uma República soviética).

URSS + Czarismo redux

Tudo isto suscita a questão de saber o que significará para a Humanidade a nova meia dúzia de anos que ora se inaugura. Putin, o homem que lamentou um dia a desintegração da velha União das Repúblicas Socialistas Soviéticas como “maior desastre” de sempre, parece juntar em si traços da ditadura comunista e do imperialismo czarista que a antecedeu. Autor da única anexação de território alheio na Europa desde a II Guerra Mundial (a Crimeia, arrebatada à Ucrânia há quatro anos, efeméride nada alheia à marcação da ida às urnas de hoje), veio confirmar caso dúvidas houvesse — a futilidade do “fim da História” decretado no início dos anos 90 pelos que viam da democracia liberal o destino inexorável de todas as nações (faça-se justiça a Francis Fukuyama, pai do conceito que já fez o devido mea culpa). Aí estão, na União Europeia “tão cá de casa”, indícios polacos e húngaros (entre outros) de que a democracia, mais do que inevitável, é frágil e carente de proteção.

O Putin hoje reeleito é de segunda encarnação. Os primeiros dois mandatos foram de bonança petrolífera e consolidação, nos anos em que a Rússia se ergueu da sarjeta da História a que a tinham votado o fim da Guerra Fria, em que foi a derrotada de facto, e o caos dos anos de Ieltsin, em que a abertura não chegou a sê-lo do ponto de vista político (e daí a abdicação em Putin, no ano 2000) nem económico (ascensão dos oligarcas e de máfias diversas). Nunca o atual líder se soltou do ressabiamento gerado pela humilhação, real ou suposta, às mãos de um Ocidente inebriado de liberalismo democrático e capitalista, que chegou a julgar que seria pacífico cooptar para a NATO países como a Ucrânia ou a Geórgia. Reafirmar a potência russa foi sempre prioridade do Presidente judoca que se faz fotografar a cavalo e em tronco nu.

Depois do interregno medvedeviano (e tendo o sucessor sido menos subserviente do que Vladimir porventura previra), o regresso de Putin à chefia de Estado não foi livre de contestação interna e externa, aquela sob a forma de protestos, mormente entre as classes urbanas, cultas e abastadas, esta materializada em sanções. A umas e outras reagiu o homem do Kremlin com crescente nacionalismo, autoritarismo e populismo, sustentado numa fatia jovem de apoiantes (o sinistro movimento/milícia Nashi), em crescente repressão, na ligação à igreja ortodoxa e num conservadorismo social para quem as liberdades ocidentais são libertinagem degradante (veja-se o tratamento dos homossexuais, por exemplo).

Sucessão indefinida

O mundo de 2018 já não é o da Guerra Fria, por mais que a recorde. Mais multilateral e multifacetado, menos alinhado e arrumado, oferece como contraponto a Putin uma Europa sem força para o travar e uma América que não o identifica claramente como adversário (e cujo Presidente é investigado pelas ligações da sua campanha a Moscovo). Há a China, é claro, também ela em crescente afirmação planetária, mas não mais amante da liberdade.

Manda a prudência que se preste atenção ao tom de Putin daqui para a frente, passado que está o teste das urnas. Que se perceba se a belicosidade do ex-agente do KGB se atenua ou não. Que se mantenha a vigilância na periferia da Federação Russa, na que Moscovo considera ser sua esfera de influência, nomeadamente nos Estados Bálticos, esses sim membros da UE e da Aliança Atlântica. Que não se esqueça no turbilhão rotativo dos assuntos mediáticos o conflito ucraniano e o separatismo que o Kremlin atiça no Donbass.

Outra pergunta inevitável, ainda que não nova, é: e depois de Putin? No atual quadro constitucional o Presidente está impedido de se recandidatar em 2024 (os mandatos foram alargados de quatro para seis anos durante o seu consultado). Putin tem 65 anos, terminará o presente mandato com 71, o que não é nada de especial numa Rússia que no passado esticou líderes (ou esticaram-se eles) para lá do que a saúde e o bom senso recomendariam. Mudará Putin a Lei Fundamental? Renovará a manobra medvedeviana de 2008? Não se lhe conhece sucessor evidente nem hipotético, pois que indigitar um seria decretar o início do fim do seu poder.

A era presente da política russa parece demasiado encarnada em Putin para se imaginar qualquer evolução. Ainda assim, é certo que a ausência de um delfim não impede que haja candidatos ao título, colisões entre eles e manobras de bastidores de que Moscovo é vetusto palco, todas elas foco de instabilidade. Não tendo poderes de pitonisa, relembro palavras que ouvi durante o mandato putiniano agora findo a um dos homens que mais combate o Presidente russo, ainda que do exílio: o xadrezista Garry Kasparov. Dizia ele que Putin vai sair do Kremlin com os pés para a frente, seja porque alguém lhe aplicou uma receita das muitas do cardápio russo para eliminar inconvenientes, seja porque alcançou a meta de se agarrar ao poder até ao fim.