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Marielle morreu. E agora, Brasil?

Manifestação na Praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, na noite de quinta-feira, após o velório de Marielle Franco

FOTO LEONARDO BENASSATTO/ REUTERS

Assassínio de vereadora no Rio de Janeiro reabre a discussão sobre a democracia brasileira

Um cordão de mulheres negras de mãos dadas. Um pelotão de acolhimento para o corpo de uma mulher morta com quatro tiros na cabeça. Irmãs em vida, irmãs na morte. O sol de 40 graus queimava-lhes a cabeça. Sempre a cabeça. Ninguém arredou pé, nem quando um grupo começou a gritar “Comunistas, bandidos!”.

No centro das atenções, o caixão de Marielle Franco. Mulher, negra, lésbica, nascida na favela, vereadora do Rio de Janeiro, foi por ela que centenas de pessoas, primeiro, e milhares, depois, se juntaram na quinta-feira na Praça da Cinelândia, coração da cidade, em frente à Câmara Municipal, onde foi velado o corpo da política de 38 anos, morta na noite anterior. Quatro tiros calaram-na. Quatro tiros deram-lhe mais voz.

A escritora Eliana Cruz chegara cedo à Cinelândia. Às 10h já lá estava, apesar do sol, do calor. Negra, 50 anos, sabia que o seu lugar era ali, na corrente de mãos que protegiam o corpo de Marielle. Conhecera a vereadora no salão de cabeleireiro Iporinchê, junção aportuguesada de ipo (lugar), ori (cabeça) e n’se (fazer) em ioruba, língua africana. “Mais do que um centro estético, um espaço de cultura e defesa das mulheres”, criado por Cássia Marinho, madrasta de Eliana e, sobretudo, a mulher que tratava do cabelo de Marielle. As duas foram despedir-se da “referência de cidadania”, conta Eliana ao Expresso, ao telefone.

Imagem da vereadora

Imagem da vereadora

d.r.

Balas da Polícia Federal

Na véspera, um carro emparelhara por trás com o veículo em que iam Marielle, o motorista e uma assessora. Estavam no bairro do Estácio, eram 21h30 e, depois de um evento em defesa das mulheres negras — uma reunião na “Casa das Pretas” para debater “Jovens Negras Movendo Estruturas”, na Lapa — Marielle ia para casa, na Tijuca, mas quatro tiros disparados a dois metros interromperam o percurso. O carro tinha os vidros fumados e, estranhamente, Marielle ia no banco de trás, mas os assassinos sabiam o que fazer. O motorista foi uma vítima colateral. A assessora ficou ferida sem gravidade. Uma ambulância foi chamada, mas a morte de Marielle e Anderson foi decretada ali. No chão, nove cápsulas das balas disparadas. Ontem, segundo a TV Globo, já estaria provado que as munições fariam parte de lotes vendidos à Polícia Federal de Brasília em 2006.

Depois do velório-manifestação na Cinelândia, o corpo saiu da autarquia sob aplausos e seguiu para o cemitério do Caju, onde foi enterrado. A morte da vereadora despertou reações internacionais, a ONU condenou o “chocante assassínio” e o Parlamento português aprovou um voto de pesar, exprimindo “a mais veemente condenação pela violência e pelos crimes políticos e de ódio que aumentam de dia para dia no Brasil”.

Há um mês, Marielle fora nomeada relatora da comissão que acompanhará a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, decisão do Presidente Temer, inédita na democracia brasileira, que entrega plenos poderes sobre a segurança do Estado do Rio de Janeiro às forças militares. Foi já nesta função que Marielle denunciou no passado dia 10 a ação de polícias militares na favela de Acari. E, dois dias antes de morrer, escreveu no Twitter : “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da Polícia Militar. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

Nascida e criada na favela da Maré, Marielle começou a trabalhar aos 11 anos, estudou à noite, engravidou aos 18, entrou para a faculdade, acabou por abandonar os estudos e, já mãe, voltou a estudar e conseguiu uma bolsa integral para uma das mais prestigiadas faculdades cariocas, na privada Pontifícia Universidade Católica. Licenciou-se em Sociologia e fez um mestrado em Gestão Pública, com uma tese sobre segurança, mas uma bala perdida matou uma amiga e empurrou Marielle para a política, onde encontrou Marcelo Freixo, líder do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Não mais parou.

Em 2016 foi eleita vereadora do Rio pela coligação Mudar é Possível, formada pelo PSOL e pelo Partido Comunista Brasileiro. Conseguiu mais de 46 mil votos, tornando-se a quinta candidata mais votada na cidade e a segunda vereadora com mais votos em todo o Brasil. Na Câmara Municipal, presidiu à Comissão de Defesa da Mulher, mas a tarefa mais relevante foi a de relatora da intervenção federal. A dois dias de a decisão de Temer completar um mês, este assassínio reabriu a discussão sobre a pertinência da medida. Nas redes sociais a filha de Marielle, Luyara Santos, de 19 anos, deixou um lamento: “Mataram minha mãe e mais 46 mil eleitores! Nós seremos resistência porque você foi luta!”.

Uma das últimas imagens de Marielle na “Casa das Pretas” (atrás, de azul)

Uma das últimas imagens de Marielle na “Casa das Pretas” (atrás, de azul)

d.r.

Violência urbana

Uma execução é a principal linha de investigação seguida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. Já foram recolhidas as imagens das câmaras de segurança da área do crime. A assessora já prestou depoimento, assim como uma testemunha não identificada.

O Rio atravessa uma grave crise política e económica, com reflexos na segurança pública. Governadores e prefeitos estão presos sob acusação de corrupção e não há verbas para pagar os salários dos funcionários públicos. Em 2017, 134 polícias foram assassinados e 1124 pessoas foram mortas por agentes das forças policiais. Uma violência que atinge em força a população, com 40 mortes violentas por cada 100 mil habitantes.

“As ideias são à prova de bala”, prometeu o deputado Jean Wyllys, do PSOL, dizendo que “o crime não vai ficar impune nem a memória dela será esquecida”. Quinta-feira no Parque Lage, jardim na zona sul carioca, Caetano Veloso dividiu o palco com Maria Gadu e Marisa Monte num espetáculo de resistência — “o assassínio de Marielle e seu motorista é motivo de indignação para todos nós”, anunciou o diretor do recinto — para cantar “Podres Poderes”, enquanto o público gritava “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”.