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“Estou viva. Mas a alma oca”. O testemunho da assessora que sobreviveu ao assassinato de Marielle Franco

Mario Vasconcellos HANDOUT/ EPA

O testemunho da única sobrevivente do ataque, as câmaras de vigilância e as investigações policiais permitem reconstituir os momentos que antecederam o assassinato de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro. As imagens mostram que um carro esperou durante duas horas à porta do local onde Marielle se encontrava

Nem houve tempo para perceberem o que se estava a passar. Numa questão de segundos, uma rajada de balas atingiu o banco traseiro do carro onde seguia Marielle Franco. Quatro tiros foram direitos à cabeça da vereadora, outros três atingiram as costas do motorista. Segundo a assessora de Marielle, que também estava no carro e é a única sobrevivente, aconteceu tudo tão rápido que nem conseguiu ver qual o modelo do carro onde seguiam os atacantes.

A única testemunha que pode contar o que se passou vinha "distraída" no momento do ataque, como disse em depoimento à polícia brasileira, citado pela imprensa do país. Só ouviu a interjeição de espanto de Marielle, "ué", e de seguida o barulho dos tiros, que vinham de trás, na diagonal. Ouviu depois o motorista, já ferido, soltar um "ai" e apressou-se a alcançar o travão de mão para parar o veículo. Depois, a assessora atirou-se para fora do carro e contactou o marido. Ficou a tremer, à espera de que chegassem os socorristas que a levaram então para o hospital. De lá seguiu para a polícia, onde prestou declarações durante três horas, na divisão de Homicídios.

Já na quinta-feira, a assessora, cujo nome não foi divulgado por questões de segurança, decidiu prestar uma homenagem à colaboradora e amiga nas redes sociais. "Estou viva. Mas a alma oca", lê-se na publicação. "Minha amiga, na tentativa de calarem a sua voz, a ampliaram ensurdecedoramente, em milhares de bocas para sempre".

Carro esteve parado duas horas à espera de Marielle

São estes os pormenores conhecidos dos últimos momentos de Marielle dentro do carro onde foi assassinada, na noite de quarta-feira, através do testemunho da assessora. Mas as investigações policiais e as câmaras de vigilância da zona onde morreu revelam novos detalhes. Naquela noite, Marielle marcou presença num debate com o tema "Jovens Negras Movendo as Estruturas", na zona da Lapa, no Rio de Janeiro, tendo deixado o evento pelas 21h04, hora a que entrou no carro com o motorista e a assessora. Ao mesmo tempo, outro carro arranca e segue na mesma direção, mostram as câmaras de vigilância colocadas nessa rua.

Segundo a imprensa brasileira, a polícia, que já se referiu ao caso como uma possivel "execução" encomendada, estará a estudar a hipótese de terem estado até três carros envolvidos no ataque, sendo um deles o Cobalt prateado que se vê no vídeo, onde é possível também detectar a presença de dois homens. O carro esteve parado durante duas horas à porta do local onde o debate aconteceu. Depois, o veículo onde seguia Marielle percorreu cerca de quatro quilómetros até que, pelas 21h30, começaram os disparos.

Embora tenham sido disparadas treze balas, só nove atingiram o carro onde se encontrava a vereadora. As munições em causa, de 9 milímetros, só podem ser adquiridas por forças de segurança e colecionadores, sendo que aquele lote em particular tinha sido comprado pela Polícia Federal em 2006.

As Forças Armadas tomaram conta da segurança pública no Rio de Janeiro há um mês, e Marielle, socióloga e vereadora natural da cidade, era uma das mais destacadas críticas da intervenção e de abusos que vinha denunciando nas redes sociais. Recentemente, fora nomeada relatora de uma comissão que tinha por objetivo acompanhar a intervenção das Forças Armadas no Rio.