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Risco de pobreza atinge maioria dos desempregados em 25 países da UE. Portugal não é exceção

Alemanha é o país onde há mais desempregados no limiar da pobreza – 79,1% -, o que, segundo Francisco Madelino, está relacionado com as comunidades de emigrantes “extremamente fortes” que chegam ao país

CHRISTOF STACHE

Há cada vez mais pessoas desempregadas no espaço europeu em risco de pobreza. Apenas em três países – Dinamarca, França e Chipre – menos de metade da população está em perigo. Portugal foi o décimo nono país onde o risco foi maior em 2016. E a Alemanha foi o primeiro, segundo os dados mais recentes do Eurostat

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

A maior parte da população desempregada em quase todos os países da União Europeia (UE) — 25 dos 28 estados membros — está em risco de pobreza. Portugal não é exceção: em 2016 foi o décimo nono país que apresentou maior risco, com a situação a atingir 54 portugueses desempregados em cada 100. Os dados mais recentes do Eurostat, divulgados o mês passado, mostram também que mesmo recebendo apoios sociais, 41,6% dos portugueses não empregados — com idades entre os 16 e 64 anos — estão em perigo.

Sobre a situação portuguesa, Francisco Madelino, economista e ex-presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), sublinha que os baixos subsídios de desemprego e a alta rotatividade dos empregos a prazo são dois fatores que podem explicar estes valores. Já para José Brandão e Brito, economista chefe no Millennium BCP, os dados mostram que a desigualdade dos rendimentos é “muito elevada” em Portugal.

Este panorama “reclama políticas diferentes de promoção de emprego”, segundo José Brandão e Brito, que têm que ver com a “desoneração fiscal do emprego”: reduzindo a taxa social única (TSU) e as taxas marginais do rendimento de pessoas singulares (IRS), para quem começa a trabalhar.

Os dados do Eurostat mostram também que há menos mulheres do que homens desempregados em risco de pobreza em Portugal — auferindo apoios sociais ou não —, o que, para o presidente do IEFP pode ser explicado de duas formas. Por um lado, profissões como a construção civil e a metalomecânica, que incluem mais homens, foram as que “mais sofreram” com a recente crise económica e ainda não conseguiram recuperar. E por outro lado, o sector do vestuário e do turismo — que muito têm crescido nos últimos anos — empregam sobretudo mulheres com “salários baixos”.

No espaço europeu, esta é uma realidade que se agravou entre 2015 e 2016 — 1,4 %. E em 2016 registou-se a maior proporção de população desempregada na UE em risco de pobreza desde 2010 — 58,4%. Mesmo depois de apoios sociais transferidos, ainda 48 cidadãos europeus desempregados por cada 100 tem rendimentos abaixo da linha de pobreza definida como 60% do rendimento mediano por adulto equivalente, segundo considera o Eurostat.

A Alemanha é o país da UE onde há mais pessoas desempregadas no limiar da pobreza – 79,1%. De acordo com o economista Francisco Madelino, os países que têm comunidades de emigração “extremamente fortes” — como é o caso da Alemanha — têm “mais pessoas no desemprego e com salários mais baixos relativamente à sua mediana”. No extremo oposto está a Dinamarca, a França e a Croácia, os países do bloco europeu com as percentagens mais baixas. Ainda assim, quase metade dos desempregados nestes países estão em perigo.

Para além dos 28 estados membros do bloco europeu, os dados do Eurostat incluem mais quatro países: Noruega, Suíça, Macedónia e Sérvia. Nos primeiros três, quase metade da população desempregada corre este risco. No quarto, a maioria dos desempregados sérvios estão sob esta ameaça.

“Em Portugal, não basta trabalhar para deixar de ser pobre”

Trabalhar no bloco europeu reduz quatro vezes o risco de ser pobre. Em Portugal, reduz três vezes mas não o elimina. Em 2016, Portugal foi o sexto país da UE que registou o maior número de trabalhadores em perigo — 16,7% da população empregada.

Segundo Francisco Madelino, esta situação é “preocupante” e tem dois significados. Por um lado, “não basta trabalhar para deixar de ser pobre em Portugal” e por outro, significa que há “uma grande quantidade de trabalhadores que auferem salários extremamente baixos e que estão abrangidos pelo salário mínimo em Portugal”.

Para que o mercado de trabalho seja integrador e potencie a redução de pobreza, o economista Francisco Madelino defende que subir o salário mínimo (€580) é “extremamente importante” para Portugal. Já José Brandão e Brito considera que este aumento salarial pode ter um efeito positivo e outro negativo. Pode sim “reduzir ou eliminar” a pobreza no trabalho, mas também pode gerar um maior número pessoas não empregadas. As pessoas que têm menos qualificações e são menos produtivas ficam “inempregáveis, porque nenhuma empresa pode pagar mais do que esses trabalhadores geram”, explica José Brandão.

Os trabalhadores que recebem apoios sociais veem este risco reduzido em 5,9%, mas ainda dez em cada 100 trabalhadores portugueses têm rendimentos abaixo da linha de pobreza. E neste ponto, o economista Francisco Madelino destaca “a importância significativa” dos apoios sociais: da ação social escolar e do abono de família para as famílias mais numerosas.

Já houve mais trabalhadores em risco de pobreza em Portugal. Em 2011, quando a austeridade era a palavra de ordem e o resgate financeiro dava os primeiros passos no país, a percentagem subiu para os 18,2%. E nesse ano, Portugal ocupou o terceiro e mais elevado lugar da lista desde 2010.

Há mais portugueses empregados — recebendo ou não apoios sociais — em risco de pobreza do que cidadãos do espaço europeu. Os dados do Eurostat mostram também que foi em 2016 que se registou o maior número de trabalhadores em perigo na UE desde o início da segunda década deste milénio. Atingiu 14,1% da população empregada que não recebe qualquer apoio e 9,6% da que recebe.

A Roménia ocupou o primeiro lugar em 2016, quando 22,2% da população empregada correu risco de pobreza. Já a Finlândia apareceu em último, onde apenas cinco empregados em cada 100 corre perigo.