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Novos confrontos no centro de Madrid depois da morte de um vendedor ambulante senegalês

LUCA PIERGIOVANNI / EPA

“Uma verdadeira batalha campal”, referem os meios de comunicação espanhóis: depois dos protestos de quinta-feira à noite, na sequência da morte de um vendedor ambulante senegalês, novos distúrbios irromperam no bairro de Lavapiés esta sexta-feira

O bairro madrileno de Lavapiés, caracterizado pela sua multiculturalidade, está a ser palco de uma “verdadeira batalha campal”, tal como tem sido descrito pelos meios de Comunicação Social espanhóis. A tensão aumentou desde quinta-feira à noite na zona situada em pleno centro da capital. Os protestos originaram vários danos materiais, a agência bancária La Caixa ficou parcialmente incendiada, e registaram-se confrontos violentos entre os manifestantes e a polícia. Na origem dos tumultos esteve a morte de um senegalês de 35 anos, que sofreu uma paragem cardiorrespiratória quando tentava escapar à perseguição das autoridades por estar a realizar uma venda ambulante ilegal.

Porém, um relatório policial divulgado esta sexta-feira pelas autoridades defende que a morte de Mame Mbaye se deveu a causas naturais e que terá ocorrido posteriormente à perseguição policial - excluindo assim que a responsabilidade deva recair sobre os agentes.

Esta informação não bastou, no entanto, para serenar os ânimos. Esta manhã os protestos regressaram ao bairro de Lavapiés, quando uma multidão, na sua maioria senegaleses e conhecidos do falecido, se reuniu na praça Nelson Mandela para homenagear Mbaye.

A morte deste senegalês, que apesar de não possuir autorização de residência no país vivia em Espanha há 13 anos, está a ser usada pela comunidade senegalesa para fazer outras reivindicações: protestar contra o racismo institucional a que dizem estar submetidos e contra a forma de atuar das forças policiais, segundo testemunhos recolhidos pelo canal televisivo “La Sexta”.

A concentração desta manhã assumiu contornos mais violentos quando o cônsul do Senegal em Madrid, Mouctar Belal BA, se dirigiu ao bairro de Lavapiés para prestar o seu apoio e homenagear Mbaye, mas confrontado pelos seus congéneres foi obrigado a refugiar-se num restaurante senegalês da zona. Acusam o diplomata de ignorar os problemas da comunidade senegalesa e de ter decidido “aparecer à última da hora” e um dia depois da ocorrência. “Queremos que o cônsul e a polícia se vão embora do nosso bairro. Sabemos cuidar de nós”, disse outro senegalês à mesma estação televisiva.

Enquanto o diplomata se refugiava no estabelecimento, pedras e cadeiras dos estabelecimentos circundantes foram lançados contra as autoridades que conseguiram dispersar a multidão com balas de borracha.

Câmara de Madrid confirma que senegalês não estava a ser perseguido pela polícia quando morreu

A presidente da Câmara de Madrid, Manuela Carmena confirmou, na quinta-feira, através do Twitter que as circunstâncias da morte de Mame Mbaye seriam investigadas e que se agiria “em conformidade”.

Políticos e elementos das forças policiais criticaram estas declarações por considerarem que não valorizam o trabalho da polícia espanhola face aos distúrbios.

A Câmara de Madrid, por seu lado, confirmou que o senegalês não estava a ser perseguido pela polícia municipal quando foi vítima de doença súbita e anunciou que será aberta uma investigação aos distúrbios registados na quinta-feira à noite.

“Este é um dia doloroso porque, no final de contas, tudo terminou com uma morte. Os acontecimentos dizem-nos que nem no momento da paragem [cardíaca] nem nos minutos anteriores tenha havido alguma intervenção policial sobre a vítima”, disse o responsável pela segurança da Câmara de Madrid, Javier Barbero, em conferência de imprensa.

Mas para já, é seguro dizer que a tensão não se vai dissipar tão cedo: há inúmeros danos materiais na zona, novas concentrações foram marcadas para esta sexta-feira, instalou-se um clima de mal-estar na polícia municipal e há uma investigação em curso.