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Internacional

Ministro da Coreia do Norte em visita surpresa à Suécia

VILHELM STOKSTAD

Viagem de Ri Yong-ho a Estocolmo aumenta especulação sobre a antecipada cimeira que promete juntar Donald Trump e Kim Jong-un na mesma sala, possivelmente já em maio

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Coreia do Norte acabou de aterrar de surpresa na Suécia para se encontrar com representantes do governo de Stefan Löfven, alimentando a especulação em torno da potencial cimeira que promete juntar, pela primeira vez na História, os líderes norte-coreano e norte-americano.

Sobre a visita de Ri Yong-ho, Pyongyang disse apenas que serve para reforçar "as relações bilaterais" e discutir "questões que preocupam ambos" os países, sem qualquer referência ao encontro sem precedentes entre Donald Trump e Kim Jong-un, um que poderá ter lugar já em maio num local e data ainda por definir.

A especulação em torno desta visita tem por base o facto de a Suécia funcionar, há muitos anos, como mediadora das tumultuosas relações entre Washington e Pyongyang, e também o facto de ter lugar apenas uma semana depois de Trump ter aceitado o convite apresentado pela Coreia do Sul em nome do líder norte-coreano para que dêem início a conversações diretas.

O convite e o 'sim' de Trump chocaram até os que seguem a situação na Península Coreana com mais atenção, sobretudo por ter surgido depois de Trump e Kim terem passado o último ano a trocar ameaças de guerra e insultos por causa dos avanços dos programas nuclear e de mísseis balísticos que Pyongyang tem estado a desenvolver.

O que está em causa?

Depois de se encontrar com Kim na capital norte-coreana no início da semana passada, a delegação da Coreia do Sul foi recebida pelo Presidente dos EUA na Casa Branca. Desde então, a Coreia do Norte nada mais disse sobre o assunto.

Questionado sobre estes esforços de desarmamento nuclear, o primeiro-ministro sueco referiu à agência estatal do seu país que, "se os principais envolvidos quiserem que a Suécia desempenhe um papel, então estamos prontos para fazê-lo".

"Somos um país não-alinhado militarmente e temos uma presença de longa data na Coreia do Norte", explicou Löfven. "Com a confiança de que gozamos [junto de Pyongyang] achamos que podemos desempenhar um papel, mas cabe aos principais atores decidir que papel é que a Suécia vai desempenhar."

Já esta sexta-feira, a administração dos EUA disse que está a par da visita do chefe da diplomacia norte-coreana a Estocolmo, mas escusou-se a confirmar se esta poderá estar relacionada com as potenciais negociações diretas. Aos jornalistas, a porta-voz do Departamento de Estado – cujo chefe, Rex Tillerson, foi despedido por Trump na semana passada — acrescentou que Washington continua sem receber notícias de Pyongyang quanto a essa cimeira.

Tillerson e Trump receberam o primeiro-ministro sueco na Casa Branca há duas semanas, pouco antes do convite norte-coreano (e do despedimento de Tillerson)

Tillerson e Trump receberam o primeiro-ministro sueco na Casa Branca há duas semanas, pouco antes do convite norte-coreano (e do despedimento de Tillerson)

Cheriss May

A concretizar-se, o encontro entre os dois líderes vai realizar um desejo de longa data da Coreia do Norte, que está há vários anos a tentar ser tida como igual nos palcos internacionais. Até à semana passada, os analistas consideravam que uma reunião desta natureza só iria acontecer se Pyongyang fizesse grandes concessões no que toca aos seus programas militares. Para já, existe apenas a promessa de Kim de "discutir a desnuclearização da Península" com os norte-americanos.

A cimeira vai mesmo acontecer?

Até agora, ainda não há indicações claras nesse sentido, o que tem reforçado a especulação sobre se irá mesmo concretizar-se — e, caso se concretize, onde e quando é que terá lugar. Entre os possíveis palcos para a cimeira contam-se a fronteira desmilitarizada entre as duas Coreias, a China (que é a grande aliada de Pyongyang), um país neutro como a Suécia ou a Suíça ou águas internacionais.

A par disso, também ainda não se sabe o que é que a Coreia do Norte quer em troca deste encontro e do seu "compromisso" com o desarmamento nuclear, nem se a proposta é séria ou apenas uma jogada propagandística para "comprar tempo", como o Japão sugeriu em janeiro em referência à reaproximação intercoreana potenciada pelos Olímpicos de Inverno.

Nesse contexto, os media norte-americanos noticiaram na quinta-feira que os EUA e a Coreia do Sul vão reduzir o número e a duração dos exercícios militares conjuntos que, todos os anos, levam a cabo na Península Coreana, no que Pyongyang viu sempre como uma preparação para a invasão do seu território. Essa notícia surgiu a par de declarações dúbias do Presidente Trump sobre a possibilidade de vir a retirar todas as suas tropas da Coreia do Sul caso não alcance um acordo comercial com Seul que seja "mais benéfico" para os EUA.

As incertezas em torno da cimeira intensificaram-se com a saída de Tillerson, um homem que, apesar da oposição e críticas que angariava entre os funcionários de carreira do Departamento de Estado, era tido como uma voz moderada a favor de soluções diplomáticas com a Coreia do Norte em detrimento de ameaças militares.

Neste contexto, a visita de Ri à Suécia pode trazer novidades, sobretudo considerando a relação de longa data que o país mantém com a Coreia do Norte – em particular desde os anos 1970, quando foi uma das primeiras nações do Ocidente a abrir uma embaixada em Pyongyang.

Ao longo das últimas décadas, a representação diplomática sueca foi responsável por mediar as relações dos norte-coreanos com os EUA, que não têm nenhuma missão no país. Entre outras coisas, a Suécia, que é parceira dos EUA na NATO, ajudou a garantir a libertação de cidadãos norte-americanos detidos na Coreia do Norte.