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16 de março de 1968, aldeia de My Lai. O massacre que mudou a Guerra do Vietname

Underwood Archives/GETTY

Há 50 anos, soldados norte-americanos matavam centenas de civis na aldeia de My Lai. Um episódio julgado pelos tribunais militares mas que condenou um único oficial e cuja divulgação nos meios de comunicação reforçou a oposição da opinião pública à Guerra do Vietname

A 16 de março de 1968, no rescaldo da Ofensiva do Tet, lançada em janeiro pelo Vietcong nas principais cidades (e apoiada pelo Vietname do Norte), a Força Tarefa Barker foi incumbida de uma missão de busca e aniquilamento de elementos de um batalhão do Vietcong que haviam dispersado após os combates do Tet e poderiam estar escondidos na aldeia de My Lai.

Após dias de operações na selva marcados por baixas causadas por minas e armadilhas, um dos pelotões da Companhia Charlie, da 11ª Brigada de Infantaria, chegou de manhã, helitransportado, à aldeia de My Lai. Comandava-o o 2º tenente William Caley.

Segundo as informações passadas àquela força militar, os habitantes que encontrassem deviam ser considerados apoiantes do Vietcong ou mesmo guerrilheiros, pois habitualmente a população saía de madrugada para se abastecer no mercado local. Logo, quem tivesse ficado na aldeia era forçosamente inimigo.

Ainda que não tivesse havido resistência, que entre os aldeões houvesse pouca gente em idade militar e só tivessem vindo a ser descobertas três armas, os soldados abriram fogo indiscriminado, matando numerosos civis. Nalguns casos reuniram grupos de pessoas para as abater a sangue frio. Noutros atiraram granadas para dentro de casas e metralharam quem fugia. Tudo isto demorou parte da manhã.

O total de mortos nunca foi estabelecido com exactidão mas varia entre 300 e 504, maioritariamente velhos, mulheres e crianças. O número de sobreviventes terá sido da ordem das duas dezenas.

Que levou ao massacre? É plausível, em função dos relatos que mais tarde apareceram na imprensa norte-americana, que alguns oficiais quisessem à viva força fabricar uma missão vitoriosa para compensar o abalo trazido pela Ofensiva do Tet em janeiro. Parte dos soldados, com o moral em baixo, estava recetiva a ordens de matar civis, pois estava desgastada por uma guerra contra um inimigo quase sempre invisível que matava em emboscadas, semeava a selva com minas e armadilhas e se supunha apoiado ou tolerado pela população rural.

William Calley

William Calley

Bettmann

Soldado quebra o silêncio

As primeiras revelações partiram do artilheiro Ronald Ridenhour, que, embora não tendo presenciado o ataque à aldeia, sobrevoara a zona nos dias seguintes no seu helicóptero e transportara a bordo elementos da Companhia C, no regresso da operação. De regresso do Vietname escreveu a membros do Governo (incluindo o Presidente Nixon) e do Congresso, contando o que tinha visto e o que ouvira os seus camaradas dizer.

Com base nos relatórios elaborados pelos comandantes no terreno, a hierarquia militar avaliou inicialmente o sucedido como uma operação em que haviam sido eliminados 120 guerrilheiros mas onde haviam também morrido 20 civis. Contudo, aos poucos, tornou-se inevitável investigar o assunto e uma série de militares começou a ser ouvida em inquérito.

Para a opinião pública norte-americana a notícia demorou mais de um ano a ser conhecida, sendo publicada pelo jornalista independente Seymour Hersh através do serviço da Associated Press a 12 de novembro de 1969. Só então os principais media norte-americanos começaram a olhar para o assunto, a investigá-la e a publicar novas informações.

DAVID LAMB/AFP/GETTY IMAGES

Arguidos 26, condenado um

As fotos dos aldeões mortos (algumas tiradas pelo fotógrafo do pelotão Ronald Haeberle) horrorizaram a opinião pública norte-americana. Hersh falara com soldados que tinham estado presentes e um destes dissera que a ordem fora para “limpar a aldeia”. Um das suas fontes fora o próprio tenente Caley, comandante da Companhia C.

A 17 de novembro de 1970 foram levados 26 arguidos a tribunal militar, incluindo 14 oficiais. Só um comandante de pelotão, o 2º tenente William Caley, foi condenado. Considerado culpado de matar 22 civis, teve uma sentença de prisão perpétua, vindo a livrar-se do presídio militar devido a uma amnistia decidida à medida pelo Presidente Richard Nixon. Disse-se sempre arrependido mas ter-se limitado a cumprir ordens superiores, nomeadamente do seu superior direto, capitão Medina, no sentido da destruição da aldeia.

Nenhum dos superiores hierárquicos de Caley foi condenado, incluindo o comandante da companhia, Ernest Medina, ou o comandante da Força Tarefa, tenente-coronel Frank Barker (morto em combate semanas depois).

Os bravos do helicóptero

Para a História fica o registo de que nem todos os soldados norte-americanos se comportaram da mesma forma.

O sargento Michael Bernhardt recusou fazer fogo contra civis, foi ameaçado pelo capitão Medina e daí em diante nomeado sempre para as missões mais perigosas, às quais sobreviveu, vindo a testemunhar em tribunal militar, tal como Ridenhour.

Durante os acontecimentos, a tripulação de um dos helicópteros de apoio procurou impedir o massacre. Pairavam sobre a aldeia para dar apoio de fogo se necessário quando se aperceberam do que se passava. Baixaram, interpuseram a aeronave entre os civis em fuga e os seus camaradas e chegaram a virar o armamento de bordo contra estes.

Depois voaram pela zona, recolhendo civis em fuga. Larry Colbrun, artilheiro do helicóptero, contou que teve de estender a sua arma ao seu companheiro de bordo Glenn Andreotta para este se agarrar e conseguir sair de uma vala cheia de cadáveres onde descera para salvar uma criança.

Os três tripulantes do helicóptero, o piloto Hugh Thompson, Colbrun e Andreotta. viriam a ser condecorados em 1998 com a Medalha do Soldado, entregue ao último deles a título póstumo, já que Andreotta morrera em combate a 8 de abril de 1968. Esta condecoração, equivalente à Cruz de Serviços Distintos (que também receberam na altura dos acontecimentos), premeia atos heróicos praticados sem ser em combate direto com o inimigo.