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Mulher, negra, ativista, “filha da Maré”. Mataram Marielle

RICARDO MORAES/ Reuters

“Quantas mais pessoas vão ter de morrer para esta guerra acabar?”, questionou Marielle. Pouco mais de 24 horas depois, morreu. Mataram-na. No Brasil, pede-se Justiça. Nas ruas, há manifestações. Nas redes sociais, o assuntos está entre os mais comentados no Twitter

Marielle Franco estava sentada no banco de trás, do lado do pendura. Era noite e ela seguia num carro branco de vidros esfumados. Quem disparou, sabia bem onde Marielle estaria. A ativista de 38 anos tinha acabado de deixar uma reunião no centro do Rio de Janeiro, quando foi seguida e, após um quilómetro de viagem, atingiram-na na cabeça com quatro balas. Ao que tudo indica, a sua morte foi premeditada.

“Filha da Maré”, assim se definia Marielle. Filha da favela Maré, uma das maiores e mais problemáticas da zona norte do Rio. Era vereadora filiada no PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e conhecida pela luta na defesa dos direitos humanos.

“As características de homicídio são nítidas. Queremos isto apurado o mais rápido possível. É completamente inadmissível. Uma pessoa cheia de vida, fundamental para o Rio de Janeiro, brutalmente assassinada. É um crime contra a Democracia, contra todos nós, não podemos deixar que isto se torne normal”, disse Marcelo Freixo, do PSOL.

Marielle tinha estado a falar no encontro “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Ia para casa. Com ela, no carro, seguiam Anderson Gomes, o motorista de 39 anos, e Fernanda Chaves, a sua assessora parlamentar de 43 anos – a única sobrevivente. Enquanto passavam na Rua Joaquim Palhares, um segundo carro aproximou-se e daí foram disparados pelo menos nove tiros. Ainda não se conhece a identidade dos autores do crime, que após o tiroteio fugiram sem levar nada.

Em 2016 morreram quatro ativistas por semana em todo o mundo. Os dados do “Global Witness” mostram também que o Brasil lidera nesta lista. A tendência manteve-se em 2017, segundo o jornal britânico “The Guardian”, e nos primeiros cinco meses do ano registaram-se pelo menos 98 mortes. E em 2018, como será?

Esta quinta-feira, milhares de pessoas reuniram-se junto à Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O velório de Marielle quase se tornou numa manifestação de apoio por aquilo que ela lutava: o fim da violência na cidade e as ações da Polícia Militar (PM). “Parem de nos matar”, “Você foi luta, nós seremos resistência”, lê-se nos cartazes.

“Quantas mais pessoas vão ter de morrer para esta guerra acabar?”

Menos de 24 horas antes de ser assassinada, Marielle – tal como fazia com alguma frequência – usou as redes sociais para chamar à atenção e criticar a ação da Polícia Militar. “Quantas mais pessoas vão ter de morrer para esta guerra acabar?

Há dias, a ativista denunciou nas redes sociais a atuação das autoridades, referindo especificamente o 41º batalhão da PM e os excessos cometidos no passado sábado em Acari, uma favela na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. “O que está acontecer em Acari é um absurdo! O 41º batalhão da PM é conhecido como o batalhão da morte. Parem de matar os nossos jovens.”

Marielle denunciava vários casos de abuso da polícia, sobretudo durante a intervenção em Acari, em que militares do 41º batalhão mataram dois jovens negros. Mas era também conhecida pela defesa das mulheres e da população negra.

Em 2016, apresentou-se pela primeira vez nas eleições municipais, conseguiu mais de 46 mil votos e foi a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Há poucas semanas, foi eleita como relatora da comissão camarária que vai acompanhar a intervenção federal no Rio de Janeiro, que coloca sob alçada militar todas as forças de segurança civis e militares estaduais. A medida foi decretada em janeiro pelo presidente Michel Temer e é inédita em democracia no Brasil.

Temer considerou a morte de Marielle como um “verdadeiro atentado à Democracia”. “Trata-se de um assassínio de uma representante popular, que ao que sei fazia manifestações e trabalhos para preservar a paz e tranquilidade na cidade do Rio de Janeiro”, disse. Também Dilma Rousseff comentou o caso, apelando a que o país “mostre a sua indignação”: “Mulher negra: alvo preferencial do preconceito e da exclusão, brutal e covardemente morta. Lutava pelos direitos das brasileiras e dos brasileiros.”

Nas redes sociais, “Marielle Franco” foi das expressões mais utilizadas no Twitter, estando entre os assuntos mais comentados no mundo.