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Internacional

Microplásticos detetados em mais de 90% da água engarrafada

Richard B. Levine

Análise a 259 garrafas de água oriundas de nove países demonstrou que há, em média, 325 finas partículas de plástico por cada litro de água vendido pelas 11 marcas que os cientistas da Universidade Estatal de Nova Iorque estiveram a estudar

Uma equipa de cientistas da Universidade Estatal de Nova Iorque (SUNY) analisou 259 garrafas de água de 11 marcas diferentes e oriundas de nove países e apurou que mais de 90% dessa água engarrafada contém pequenas partículas de plástico.

Em média, os cientistas detetaram cerca de 325 partículas por cada litro de água vendido, mas nalguns casos a concentração chegou às 10 mil partículas de plástico por litro. Das 259 garrafas testadas, apenas 17 estavam livres de microplásticos.

Os resultados do estudo, que foi encomendado pelo projeto de jornalismo Orb Media mas que ainda não foi publicado em revistas científicas, surgem citados pelo "Guardian" no mesmo dia em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou que vai fazer uma análise abrangente aos potenciais riscos para a saúde humana de haver plástico na água potável consumida em todo o mundo.

Os cientistas da SUNY dizem ter descoberto "quase o dobro de partículas de plástico em água engarrafada" em comparação com as que foram detetadas em águas da torneira num anterior estudo científico de carácter transnacional.

O tipo de fragmento de plástico mais comum encontrado pelos cientistas foi o polipropileno, um termoplástico que é usado, entre outras coisas, para produzir as tampas das garrafas. No caso deste estudo, as garrafas foram compradas nos EUA, China, Brasil, Índia, Indonésia, México, Líbano, Quénia e Tailândia.

Para apurar a quantidade de microplásticos existentes na água, os cientistas usaram tinta vermelha Nile para tornar essas partículas fluorescentes, isto porque essa tinta tende a agarrar-se a superfícies de plástico evitando a maioria dos materiais naturais. À Orb Media, o cientista Andrew Mayers, que desenvolveu a tinta Nile, disse que está "satisfeito que ela tenha sido aplicada de forma cuidadosa e apropriada, tal como teria feito no meu laboratório".

As marcas testadas pela equipa da SUNY em parceria com a Orb Media foram a Aqua e a Evian (da Danone), a Aquafina (PepsiCo), a Bisleri (da Bisleri International), a Dasani (da Coca-Cola), a Epura (da PepsiCo), a Gerolsteiner (da Gerolsteiner Brunnen), a Minalba (do Grupo Edson Queiroz), a Nestlé Pure Life e a San Pellegrino (da Nestlé) e a Wahaha (do Grupo Hangzhou Wahaha).

Num comunicado enviado à CBC, a Nestlé questionou a metodologia do estudo, dizendo que o uso da Nile "gera falsos positivos". À BBC, a Coca-Cola garantiu que aplica rigorosos métodos de filtragem da sua água engarrafada mas reconheceu que a omnipresença de plásticos no ambiente significa que fibras de plástico "podem ser encontradas em níveis mínimos até nos produtos mais sujeitos a tratamento".

Um porta-voz da alemã Gerolsteiner ecoou esse argumento, dizendo que a empresa não pode excluir a hipótese de microplásticos presentes no ar ou nos processos de empacotamento acabarem dentro das garrafas de água que comercializa — antes de sublinhar que análises internas à sua água engarrafada demonstram concentrações de plásticos "muito inferiores" aos que são permitidos em produtos farmacêuticos.

Alinhando-se com a Nestlé, a Danone alegou que o estudo da Orb Media recorreu a uma metodologia "pouco clara". Já a Associação Americana de Bebidas Engarrafadas declarou que "continua a defender a segurança" das marcas de água por ela representadas e argumentou que a ciência dedicada a estudar os microplásticos só agora está a emergir.